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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O que dói verdadeiramente...

Darren Nisbett, Broken Doll

"O que dói não são as roturas, o afastamento, a incapacidade a minar como um cancro oculto e certeiro. O que dói não é a pouca solidez com que se disse esta ou aquela palavra, esta ou aquela frase, com que se insistiu, apesar de receios vários, na grotesca encenação do que se previa muito aquém de qualquer futuro. O que dói não é a viscosidade das emoções a grafar-se em algum mapa antecipadamente condenado, nem tão-pouco a insistência de uma insolúvel lembrança a fugir.

O que dói verdadeiramente é acordarmos um dia e descobrirmos que nada disso teve importância alguma."

Victor Oliveira Mateus, in "Gente Dois Reinos"

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Cada um que passa...

Ion Zupcu, 2005

"...Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui outra. Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha, mas não vai só nem nos deixa sós. Leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesma. Há os que levam muito, mas há os que não levam nada. Essa é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova de que duas almas não se encontram ao acaso."

Antoine de Saint-Exupéry in "O Princípezinho"

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

"Que nada nos limite..."

Iwona Drozda-Sibeijn

"Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre. Porque alguém disse, e eu concordo, que o tempo cura, que a mágoa passa, que a decepção não mata, e que a vida sempre, sempre continua." 
 Simone de Beauvoir

terça-feira, 20 de agosto de 2013

"Apaga-me os olhos..."

Bence Bakonyi

"Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te. Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te, e sem pés posso ainda ir para ti, e sem boca posso ainda invocar-te. Quebra-me os ossos, e posso apertar-te com o coração como com a mão, tapa-me o coração, e o cérebro baterá, e se me deitares fogo ao cérebro, hei-de continuar a trazer-te no sangue."
Rainer Marie Rilke

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Indisponibilidade

J.M. Barclay

"...Agora vê que há momentos em que é impossível o amor. É impossível abrir o coração quando nem se sabe onde ele anda. É impossível pensar em dar, ou mesmo em receber, quando há apenas cansaço. Quando a palavra esforço entra na equação. (...) Agora ela olha para trás e acha que, quando duas pessoas se apaixonam e começam uma relação com uma disponibilidade completamente diferente para o amor, uma das duas vai herdar um cansaço que não é o seu. Sabe agora que o amor pode muita coisa mas não pode tudo. Pode adiar o cepticismo, pode contornar a sensação de fracasso, pode entusiasmar-se durante uns tempos, mas se começar cansado, vai acabar cansado.(...) Porque, agora, sabe que sim, o amor também é uma questão de disponibilidade. Que nem sempre se tem."

Patrícia Motta Veiga

terça-feira, 30 de julho de 2013

Acreditar


Gabriel Benaim

"A intensidade com que se é esmagado não importa. De facto o que importa é a intensidade que nos resta depois de sermos esmagados."

 Gonçalo M. Tavares

terça-feira, 4 de setembro de 2012

As cidades de Dickens

Mark Westerby

"It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair..."

Charles Dickens, A Tale of Two Cities (1859)

quarta-feira, 28 de março de 2012

A propósito da razão do coração

Anabark, Tecto da cama (MAI2006)

"(...) A emoção e o desejo são como a espuma e as ondas do mar é o que torna navegar excitante mas não decide a direcção do navio. Para o amor ser eterno (e o amor só faz sentido pensado e vivido como eterno) é necessária a razão para superar as inconstâncias do desejo. E é também a razão que alimenta e é capaz de reavivar o desejo: as dúvidas que planta, a sedução que promove, a imaginação que desperta. O amor verdadeiro só existe suportado pela razão. Mas não é uma razão qualquer. Não é uma razão de mercearia em que o amor se transforma numa lista de compras pela qual verificamos se ela tem ou não os itens a adquirir (importa passar mais tempo a procurar razões para amar do que a elencar as razões para não amar). E também não é a chamada razão do bom senso em que subordinamos o amor a uma certa razão social. Não é a razão dos outros mas a nossa razão. É uma racionalidade vinculada à emoção. O amor encontra-se quando a emoção nos diz para seguir a razão. (...) Porque o amor tem necessariamente uma razão de ser. O amor é o que sobrevive para lá das dúvidas, suportado pela razão. (...) Fácil é evocar o coração para não ouvir a sua razão. Fácil também é escudar-se na razão para fugir ao coração. Difícil e verdadeiramente romântico é decidir do amor com o verdadeiro uso da razão. Só assim se encontram as razões do coração. As razões que dita o coração e pelas quais alguém nos faz perder a razão."


Miguel Poiares Maduro, in Diário de Notícias, 16. Março. 2005

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Não se Reconquista o Amor com Argumentos

Katjas, Every book tells a story, 2011

"...Para fundar o amor por mim, faço nascer em ti alguém que é para mim. Não te confessarei o meu sofrimento, porque ele te faria desgostar de mim. Não te farei censuras: elas irritar-te-iam justamente. Não te direi as razões que tu tens para amar-me, porque não as tens. A razão de amar é o amor. Também não me mostrarei mais, tal como tu me desejavas. Porque tu já não desejas esse. Se não, amar-me-ias ainda."

Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Último recurso

Katjas, Every book tells a story


"Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer."

Clarice Lispector

segunda-feira, 28 de março de 2011

Boa vontade

John Hamers, Sem título, 2011

"Pelo facto das pessoas serem como são e não como desejaríamos, é que nos tornamos tão irritadiços, rudes, mal humorados em certos momentos. Uma das causas frequentes de nossa falta de boa vontade com algumas pessoas, inclusive muito próximas de nós, é nosso apego a ideias de como as coisas e as próprias pessoas deveriam ser. 
O mais provável é que a vida com que sonhamos nem exista. Em vista disto, resta-nos a realidade. E quanto mais apagamos das nossas mentes a fantasia, maiores chances de descobrir elementos de prazer a alegria espalhados na vida real. E haverá mais afabilidade e doçura em nossas palavras e gestos, tornando a vida muitíssimo mais agradável."
Rita Foelker

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Só um mundo de amor pode durar a vida inteira

Rob Oele, Algarve in the Spring Series, 2010

"...O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". (...) Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. (...) O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

(...) O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso'

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Conselho

Bob Reynolds, Mud volcanoes of the Salton Sea

"...Be patient toward all that is unsolved in your heart and try to love the questions themselves, like locked rooms and like books that are now written in a very foreign tongue. Do not now seek the answers, which cannot be given you because you would not be able to live them. And the point is to live everything. Live the questions now. Perhaps you will then gradually, without noticing it, live along some day into the answer."

Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta (Carta Quatro, 16 Jullho 1903)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Por outras palavras

Brian Miller, Lines

Obrigado N. pelo teu infinito cuidado.
Algumas respostas às perguntas que me fazem...

«Sputnik, meu amor», de Haruki Murakami:

"...E assim prosseguimos com as nossas vidas, cada um para o seu lado. Por mais profunda e fatal que seja a perda, por mais importante que seja aquilo que a vida nos roubou - arrebatando-o das nossas mãos -, e ainda que nos tenhamos convertido em pessoas completamente diferentes, conservando apenas a mesma fina camada exterior de pele, apesar de tudo isso continuamos a viver as nossas vidas, assim, em silêncio, estendendo as mãos para chegar ao fio dos dias que nos coube em sorte, para logo o deixarmos irremediavelmente para trás. Repetindo, muitas vezes, de forma particularmente hábil, o trabalho de todos os dias, deixando na nossa esteira um sentimento de um incomensurável vazio. (...)"

"(...) Ao perder S., muitas coisas morreram dentro de mim, como acontece quando a maré recua, levando com ela tudo o que estava depositado na areia. Ficara sozinho num mundo deformado, vazio, um mundo frio e tenebroso. Aquilo que se passara entre S. e eu nunca poderia voltar a acontecer nesse novo mundo, tinha plena consciência disso. Cada um de nós possui qualquer coisa de especial, que se revela numa determinada altura da nossa vida, e só uma vez, como uma pequenina chama. As pessoas precavidas, abençoadas pela fortuna, conservam religiosamente essa chama, fazem-na crescer, usam-na como uma tocha que ilumina as suas vidas. Mas uma vez apagada, ela não voltará nunca mais a acender-se. Eu não me limitara a perder S. Juntamente com ela, perdera também essa preciosa chama."