domingo, 13 de maio de 2007

Chega-te aqui

Stu Egan, ... , 2007

Encosta o teu ouvido aos meus lábios e sente a brisa do mar com que te sussurro baixinho 'Amo-te tanto, meu amor'. E depois fecha os olhos, enquanto te embrulho na intensidade das palavras que te soprei, por cima do ombro, como um fôlego de vida em que preciso que acredites sempre. Deixa-te ficar no conforto de um amor que perdura sem tempo nem distância e todos os dias é mais forte do que no dia anterior, porque a força do amor mede-se na resistência ao mar revoltoso, aos ventos contrários e às correntes adversas. Deixa-te sentir que tudo vale a pena quando há braços que desejas e te esperam com igual desejo. Deixa-te estar assim, de olhos fechados, junto a mim, e descansa nos meus gestos que te dedicam toda a minha melhor atenção. Deixa-me dizer-te 'Para sempre' com a voz do coração. Encosta em mim a tua cabeça e deixa ficar comigo os pensamentos que te atrapalham. Deixa-me sentir sempre que és comigo e que juntas somos 'nós' para além do que nos intervala. Encosta os teus lábios aos meus para que sintas na tua boca a saudade que carrego em cada beijo. E deixa-me sentir as tuas saudades por todas as vezes que pensas em mim e que, de repente, te pára o pensamento com vontade de me abraçar. Estarei a sentir o mesmo e ao mesmo tempo de pensamento suspenso em ti e nesta vontade de te amar.

Nevoeiro

Werner Eickenscheidt, Misty distance, 2005

Dói-me a cabeça por tentar ver mais longe do que os meus olhos alcançam. Porque quero ver através do nevoeiro, dar forma precisa às manchas na paisagem para além do contorno disforme em que fixo o olhar. Ver mais além é acreditar que existe algo na distância, algo concreto para além da imaginação. Dói-me a vista pelo que me esforço em alcançar esse longe indefinido onde, provavelmente, nunca irei chegar. Enquanto a noite não me abraça, fecho os olhos para que descansem sem pensar e, assim, me aninho num longe que é para dentro, num nevoeiro que começa e acaba em mim. Na paisagem interior dói-me a distância de mim própria.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Sem peso nem medida

Michael Capozzola, Doorway in Mykonos

Encontro-te em cada esquina do que existo dentro e por detrás da porta da casa em que me invento. Encontro-te num sonho, em pensamento e depois na realidade. Encontro-te num abraço infinito a caminho da nossa eternidade. Encontro-te à minha volta onde tudo és tu e no meu mundo em que tu és tudo. Encontro-te sempre onde te procuro porque és, em mim, um sempre em toda a parte e, de tão presente, não posso deixar de encontrar-te. Guardo-te em cada canto da alma o que sobra do coração, porque o Amor ocupa espaço e o meu não tem peso nem medida. Guardo-te hoje com saudade e a sentir-te a falta mesmo no tempo em que não te conhecia. Não sei viver-te menos do que neste desassossego constante que me percorre noite e dia. Não sei querer-te menos do que este desejo sem fim de sentir-te a pele da minha pele, num incêndio de corpo único. Não sei amar-te menos do que nesta vontade incessante de passear-te o corpo e a cuidar-te com o coração. Encontro-te no que respiro, guardo-te no que sou, quero-te para sempre e amo-te um universo inteiro. Não posso amar-te mais porque mais é impossivel, mas posso amar-te por mais mil vidas ainda.

"...Tudo da tua pele me volta à boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e volto a ser contigo
a terra que és:
és em mim profunda Primavera:
em ti volto a saber como germino..."

in "Ode e Germinações, I", Pablo Neruda

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Amor Total

Linda Alstead, Loveboat on a sea of burning passion, 2006

Soneto Do Amor Total
Vinicius de Moraes
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e a miúde,
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.

Flor sem tempo

Anabark, Não sou romântica (MAI07)

Já pouco resta à minha volta que não sejas tu. Ofereço-te uma flor. Não é muito, apenas uma flor do campo, mas tu sabes o que guardo em cada pétala para me receberes. Uma flor silvestre não é muito, eu sei, mas a intenção é do tamanho do mundo e o Amor com que a seguro entre os dedos resiste às chuvas do inverno e aos ventos e tempestades da vida. É coisa pouca eu sei, mas é o que tenho mais à mão para te dar aqui e agora. Por enquanto, só te posso dar este coração cheio de vida que te reclama e se reclama teu. Este pouco que te dou é a promessa do tudo que te quero dar ainda. Guarda-me em ti, como a flor que guardas num livro sobre os dias de espuma em que a vida se desconta no tempo. Guarda-me a acreditar que há flores que nunca morrem. Ofereço-te as flores que forem precisas para me acreditares a tua flor sem tempo. Não floresço na primavera nem me encontras nas estações do ano. Renasço a cada instante em que me sorris com o coração. Sobrevivo com a luz do sol que assoma nos teus olhos quando olhas para mim. Ofereço-te uma flor tão pequena que se perde na palma da mão e é tão grande o meu Amor que só cabe num mar sem fim.

O Jogo dos 7

Linda Alstead, Why?, 2005

Angell,
Agradeço o teu desafio, mas eu não sei falar de mim assim, em palavras escolhidas que me definam em exclusivo, tal como não sei escolher 'três filmes' ou 'três canções' ou 'três livros da minha vida'. Não sei excluir em mim e resumir-me duma assentada. Era bom que soubesse, mas não me sei tão de cor e salteado, sem dúvidas nem equívocos. Gostava mas não sei. Obrigada pelo privilégio de estar entre os 7 amigos que consideraste para conhecer melhor.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

A espuma dos dias

Anabark, Toda a noite e todo o dia (MAI07)

De que cor são os dias que vivemos como noites e as noites que vivemos como dias? Têm a cor dos teus olhos e dos meus e do amor que neles vive em estrelas de mil tons. E têm a cor da tua pele na minha e da paixão que nos incendeia de beijos e abraços que não queremos nem sabemos interromper. Os nossos dias e as nossas noites são da cor dos corpos que não dormem nem perdem tempo afastados. São noites em branco e os dias cor dos lençóis das noites em claro. As nossas noites confundem-se com os dias como os nossos corpos se confundem no prazer que nos damos à margem das horas. Porque o tempo não existe quando te passeio de alto a baixo e porque as horas são a força com que me abraças por dentro e por fora e me sentes estremecer, de pele suada, contra ti. As nossas noites entram pelos dias no que nos perdemos de prazer uma na outra. Não perdemos tempo, pedimos tempo emprestado. Queima-nos uma paixão que não conseguimos pôr em dia. Não dormimos, as nossas noites não são noites de dormir. Não despertamos do sonho acordado em que apenas cumprimos uma pequena parte da vontade que nos devora. Adormeço encostada ao desejo de te ter sempre e em toda parte e acordo nesta vontade constante que tenho de ti. Não sei dormir ao pé de ti, mas adoro dormir contigo e ao mesmo tempo que tu. Adormece-me de cansaço apenas e acorda-me cinco minutos depois - é o tempo que preciso para voltar a acontecer na sucessão dos dias e das noites que abraçamos como nossos. Deixa-me embalar-te agora, acordo-te daqui a pouco se não me acordares primeiro.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Enquanto não chegamos

Anabark, À nossa espera (MAI07)

À nossa espera nada acontece e o tempo só existe pelas horas que nos faltam para existirmos completamente. À nossa espera a vontade não desiste porque queremos tudo o que a alma sonha e o coração sente. À nossa espera sonhamos o que, juntas, sabemos ser por inteiro. À nossa espera somos o mundo que inventamos enquanto esperamos. À nossa espera navegamos o mar infinito em que nos amamos. À nossa espera, no universo em que existimos já somos nós. Não sei de mim sem ti, não sei ser eu se te sinto em mim como 'nós' e, quando olhas para mim, nesse sorriso que me chega tão sincero e feliz, oiço-te a mesma voz que me diz 'És a minha vida, o meu princípio sem fim e o meu ponto de chegada'. E nesse sol que escorrega dos teus olhos aos meus, embrulhamos a fé no destino que nos prometemos. Acredito em ti porque acredito em 'nós'. Neste amor maior do que todas as coisas imensas e sem tamanho penduro a nossa espera e sigo, calmamente, a voz em que acredito: tudo vale a pena quando à nossa espera estamos 'nós'.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Sobre a mesa

U-Turn, Coração à vista (MAI07)

Hoje olhei para o passado, para a minha vida antes de ti, e confirmei o que descobri no dia em que me tocaste a alma e te deixei o coração sobre a mesa, escapado num beijo sem princípio nem fim. E nesse passado antes de ti, eu pensava que vivia e vivia o que pensava. Pensava, não vivia porque a vida chegou-me no momento em que nos encontrámos. Antes só, talvez, existia numa ideia de vida e, em tudo o que existia, havia uma cortina de fumo que me distraía do essencial. A alma inventava distracções e o coração poupava-se sem dar sinal. Distraindo-me não sabia o quanto me faltavas - eras uma ideia, um poema, algo que li em livro ou vi no cinema, não existias, nada era real. E chegaste tu e desenhaste-me um coração debaixo da pele que me acordou para sempre esta vida que és em mim. No coração que me deixas sobre a mesa guardo a saudade que, longe ou perto, nos transborda, porque Amor é este eterno fogo de nunca ter suficiente para igualar o muito que o coração sente. O tempo não chega quando tu és tudo e, no Amor, tudo é o desejo de eternidade.

domingo, 6 de maio de 2007

Um coração de estrelas

Anabark, Estrelas no tecto da cama (MAI07)

Voltei do céu de estrelas que acontecem nos teus olhos. Na verdade, não voltei, perdi-me no universo infinito que somos nós. Que ninguém fique à minha espera porque regressei a casa. Encontras-me onde tu e eu ficámos, onde estivemos sempre e onde somos eternamente Uma num céu de estrelas que tu e eu desenhamos.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Regresso

Linda Alstead, Coral Bark Maple 2, 2003

Amanheço sempre no abraço infinito em que me guardas a noite inteira. Lá fora, ainda que chova, a paisagem reflecte cores vivas que escapam do sorriso dos teus olhos. Acordo mais cedo para que me chegues mais depressa e embrulho-te em sonhos felizes antes mesmo de adormecer. E os dias confundem-se com as noites porque nos sonhamos o tempo inteiro e no que sonhamos todos os momentos são verdadeiros. Passamos pelos dias multiplicando os instantes plenos em que tudo acontece para além do imaginável, porque neles acontecemos por inteiro em pouco tempo, como quem vive a vida num só dia. Roubamos o tempo para dividi-lo em fracções a nosso favor e existimos em horas diferentes das contadas pelo mundo. Existimos no relógio do Amor, que não tem ponteiros, nem horas nem dias. Somos o intemporal que escapa à matémática do tempo. Somos a parte real de um conceito abstracto que não sabemos descrever. Mas sentimos, sempre mais, sem peso nem medida. Nem os dias são dias nem as noites são noites, o tempo só existe quando nele nos encontramos. Depois de nós existem apenas intervalos em que o mundo fica suspenso até que nos regressemos em cores vivas de sol pendurado no olhar.

sábado, 28 de abril de 2007

Começas-me os dias

Stephane Bouchard, I Miss You Tonight, 2006

Hoje o dia chegou sem ti.
Minto.
Os dias nunca chegam sem ti. Tu estás sempre presente mesmo nas horas que passo sem ti. O dia não chegou propriamente sem ti porque tu chegaste logo a seguir.
Minto.
Não chegaste logo a seguir. Não chegaste simplesmente, porque estiveste sempre aqui. O dia chegou quanto tu entraste por ele adentro e me enconcontraste à tua espera.
Minto.
Eu não estava à tua espera, porque tu nunca chegas a partir. Não sei como o dia começou realmente, apenas me lembro de te ter sempre comigo. Só sei desta saudade infinita como os dias que chegam sem ti. Sei que o dia chegou e eu amanheci nesta promessa constante de nunca partirmos do que somos... eternamente Uma.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Dentro e fora do copo

Stephane Bouchard, Splash, 2005


Enquanto dormes fico a olhar este copo que transborda do que julguei perdido. Dentro de um copo vazio passava-se um universo de amor à tua espera, que era infinito como eu te prometi. E hoje, neste copo que componho com o que somos e sempre fomos, guardo o amor sem peso nem medida em que nos redescobrimos. O vazio foi ausência, falta e a tortura das saudades que nunca chegam ao fim. O vazio foi sentir-te na distância dia após dia. O vazio era saber que existes e não poder partilhar essa existência. O vazio era muita coisa e o nada que me sobrava por detrás do vidro. O vazio era uma escada de palavras para te chegar e dizer o que te digo hoje ao ouvido. Dentro do copo vazio estava apenas eu e o sonho de me voltares e te deixares ser comigo. E tu dormias, sonhavas e amanhecias ao meu encontro dentro do copo. Um dia acordámos juntas a vontade de abreviar o vazio e deixar o Amor escrever-se a si mesmo. Hoje, enquanto dormes no abraço em que te guardo a noite inteira, transbordo de palavras de amor a transparência do vidro. E este mar infinito e intemporal de amor que coloco dentro do copo, é o tudo que cabe dentro, o que sobra eu guardo em pensamento que é infinitamente maior neste tanto em que existes em mim. Noite após noite, colecciono a nossa imensidão 'dentro de um copo vazio'.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Pedido

Shinta Djiwatampu, Ten, 2005

Que sintas sempre o meu calor ao acordar e antes de adormecer, porque o fogo em que me sinto em tudo o me és, não tem noite nem dia. Que me sintas ao teu lado a cada instante mesmo naqueles em que pareço não fazer sentido. Que me sintas sempre neste amor que me tranborda o corpo, alma e coração. Que nunca me procures por não saber onde estou, porque estou sempre contigo. Que me compreendas sempre mesmo quando não entendes o que eu digo. Que me ames perdidamente mesmo quando te dás conta da minha imperfeição. Que repares sempre no abraço que te dou, porque não tem tempo nem distância, tem a força da eternidade. Que acredites sempre em mim, porque a minha única verdade é querer-te infinitamente e amar-te incondicionalmente.

A imperfeição humana

Oscar Galvan, Deviant Art - Technical Imperfection

Que fazer com os dias em que nos sentimos ausentes de nós mesmos? Que fazer dos momentos em que nos sentimos fracos, básicos e pouco sofisticados nas ideias? Que fazer daquele instante em que falhámos redondamente no que quisemos dizer e tudo parece descarrilar a partir daí? Que fazer da nossa imperfeição como pessoas? Eu não sei. Não vou saber nunca, porque sou humana e a minha condição enquanto ser humano é aquilo que em arte se designa 'work in progress'. E como 'obra não acabada' que somos todos, somos muitas vezes inconvenientes, despropositados e injustos. Está na nossa natureza, estamos em permanente construção. Na melhor das hipóteses, vamos aprendendo à custa do erro. Assumir que erramos é um passo em frente no que nos queremos edificar. Errado seria rejeitar as fraquezas em vez de trabalhá-las com a fé de, amanhã, acordarmos melhores pessoas. Mas não somos apenas imperfeição, temos coisas boas que nos espreitam e que damos aos outros sem reservas, em acto de generosidade absoluta. Por vezes, somos magnânimos na entrega e inteiros na partilha. Somos muitas coisas ao mesmo tempo e coisa nenhuma de uma só vez, porque não existem momentos absolutos e, mesmo que existissem, nunca chegaríamos a ser completamente perfeitos ou estupidamente imperfeitos. E nos dias de alma vaga, é só isso que temos de entender para relativizar as horas cinzentas em que nos perdemos num nevoeiro de coisas que só têm a importância que lhe quisermos dar, porque, em si mesmas, nenhuma importância têm. Compreender os outros é compreendermo-nos a nós mesmos. Ninguém é perfeito e ainda bem. Perdia-se a graça, a espontaneidade e a condescendência natural. E se fôssemos perfeitos seríamos tudo menos encantadores. Seja como fôr, peço desculpa por todas as vezes que fico aquém das expectativas.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Fugimos?

Anabark, Vamos Fugir (ABR07)
- 'Bora brincar...
- A quê?
- À "Apanhada"...
- Nah...
- Então a quê?
- 'Pera, já sei - Vamos fugir!...
- 'Bora!

terça-feira, 24 de abril de 2007

Eternamente fogo

Wes Hargrove, Flame, 2006

Quando se sente o Sempre um incêndio permanente, não podemos ignorar a chama que nos habita e nos recorda que a vida tem um princípio e um fim. E porque não duramos para sempre, procuramo-nos no pouco tempo que temos, procuramos um sentido, uma resposta a uma pergunta maior. Procuramos algo indefinido que nem sabemos existir; procuramos, nem sempre conscientes da procura, mas sempre certos da falta. Procuramos e nem sempre encontramos e, às vezes, desistimos, outras vezes a inquietude é demasiada para desistir do que nos falta. E um dia encontramos e, então, damo-nos conta de que a vida nos foge num instante e há que não perder tempo a imaginar o calor do fogo se podemos senti-lo debaixo da pele como chama de vida. Assim te encontrei eu, assim me incendiaste tu, assim me acendeste um 'nós'. Descubro a vida, que por pouco me escapava, neste incêndio permanente do sempre que te prometo, porque a minha eternidade és tu neste fogo em que te sinto dentro. Guardo-te em chamas, vivo-te em chamas nesta fogueira que alimento no coração infinitamente. Encontro-me a mim no que encontrei em ti - a vida por inteiro, com princípio, meio e fim, e a certeza de que tu e eu seremos para sempre este incêndio de amor.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Dias felizes

Carol E. Sandgren, Happiness, 2007

Sou feliz o dia inteiro, no desfilar das horas, minutos e segundos... E se o dia mais tempo tivesse, maior felicidade eu sentiria pelo que somos na intensidade do que sentimos. É impossível desejar mais do que ser feliz. E ser feliz é pensar-te a cada instante sem tempo nem distância e saber que me pensas também. Ser feliz é sentir, do outro lado do mundo, que adormeces a meu lado, embrulhada nos meus braços que crescem ao teu encontro sempre e em toda a parte. Ser feliz é sentir-me no teu corpo abraçada a noite inteira e acordar num beijo metafísico que nunca chega ao fim. Ser feliz é saber-te comigo com a certeza absoluta do que te diz o coração. Ser feliz é olhar-te nos olhos e encontrar neles o mesmo amor com que te visto e dispo quando te vejo chegar. Ser feliz é este querer sempre mais porque tudo é pouco e será sempre pouco para quem ama infinitamente. Ser feliz é adormecer no mesmo sonho de que, um dia, seremos tudo completamente. Sou feliz o dia inteiro e mais feliz ainda quando te sei feliz comigo e nada é mais verdadeiro do que a imensa felicidade do que só sei ser contigo.

domingo, 22 de abril de 2007

Para além das estrelas

Anabark, Até às estrelinhas (ABR07)

'Amo-te até às estrelinhas!' Mas do outro lado do mundo não há estrelas a brilhar na noite do céu denso e negro. E, mesmo assim, eu não desistia de procurar as estrelas dos teus olhos em tudo à minha volta. E tudo eras tu e a distância não me vencia de te encontrar em cada esquina do pensamento. Estremecia ao recordar-te a voz e logo me assaltava uma vontade imensa de colar no céu as estrelas do mar. Quem sabe, talvez onde estivesses do outro lado do mundo pudesses reparar e saber que tinha sido eu para te dizer 'Amo-te até às estrelinhas'. Mas depois pensei: não te amo até às estrelinhas, amo-te um universo inteiro. As estrelas nascem e morrem e algumas chegam a cair, mas nenhuma dura para sempre. Os universos não têm fim, estão sempre em expansão. O amor em que nos damos é um universo infinito de estrelas que brilham eternamente do céu ao fundo do mar.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Em viagem

Amor... em chinês

Amanhã estarei do outro lado do mundo. E eu sempre quis ir ao outro lado do mundo, onde as muralhas têm quatro mil kms e há uma cidade proíbida. Mas parto para regressar, porque tu ficas deste lado do mundo e o mundo sem ti perde a graça que lhe imagino. Por isso, parto a sonhar todos os dias com a noite em que te regresso. E parto já cheia de saudades - o tempo sem ti arrasta-se vagarosamente e, às vezes, fica chega mesmo a parar. Lá longe, vou ficar suspensa nos dias à espera de te voltar. E já que tenho de partir, quero partir depressa para voltar rapidamente ao meu lugar que és tu. Levo-te comigo em todos os cantos do que sou, porque sem ti não sei de mim nem sei onde estou. A parte de mim que és tu dá-me sentido e um caminho para andar. A parte minha que és tu é imensa e luminosa. Levo-te comigo sem saires do lugar, porque estás sempre comigo em toda a parte. Fica comigo enquanto eu não chego, como eu estou contigo durante o tempo em que não te vejo. E entre o meu lá e o teu cá, deixo um beijo infinito que te queime tanto como arde nos meus lábios que te desejam infinitamente. Volto não tarda nada, meu amor. Espera-me para que eu chegue mais depressa.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Veste-me da tua pele

Helmut Newton (para Yves Saint Laurent - Smoking Femme)

Se é para me despires, pouco importa a arte de quem desenhou o que me embrulha. Importa-me, sim, o engenho que me despe da roupa e a arte com que sou vestida do teu amor. Despe-me com o vagar de quem tem muito tempo pela frente, a eternidade que te prometi. Despe-me lentamente com essa vontade que nunca nos chega ao fim. Despe-me simplesmente da mesma forma que te dispo a ti a todas as horas do dia, mesmos nos meses mais frios de nós. Enquanto me despes, não te incomodes se os meus olhos te despem mais depressa do que as mãos que por ti passeiam, antes de te despir para vestir-te no tudo que te sinto por dentro e por fora. Dispo-te sem pressa para ganhar tempo ao tempo com medo que o instante acabe. Dispo-te com mãos incendiadas e o calor húmido dos trópicos a chegar-me intensamente. Desassossega-me no amor que me vestes e na vontade de ser para sempre comigo. Desassossego-te na minha vida que te visto incondicionalmente. Os corpos nus, que deixamos nas mãos uma da outra, estão vestidos do mesmo abraço com a força com que nos amamos hoje como ontem e amanhã mais ainda. Vesti-me de ti para sempre, és a pele da minha pele que quero usar todos os dias, para o resto da minha vida.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Andamentos

MFC, Welcome to the Cyber Cafe...2002

E passamos pelos dias sem noção exacta do tempo, umas vezes lento outras vezes veloz, mas sempre injusto connosco. Porque as horas passam arrastadas nos intervalos entre aqui e aí e o abraço do aqui e agora é tempo contado que passa à velocidade da luz. E, no entretanto, ficam as saudades e tudo o que fica por viver. Nas horas lentas morremos de saudades porque não há vida nos intervalos de nós. No tempo que passa lentamente há recordações de instantes suspensas no ritmo cardíaco da espera. Fico a folhear-te de memória. São muitas as páginas, que revivo vezes infinitas, do livro que escrevemos todos os dias a tinta permanente. E nas horas em que me regressas, vivemos por inteiro a vida num só dia, no fogo em que deitamos os corpos suados e em que nos damos de alma e coração. E desta entrega por inteiro em que somos tão completamente, é feito o infinito do amor que descobrimos desde o inesperado do primeiro beijo. Não há nada que nos explique este querer imenso em que colidimos. Não é uma escolha, não precisa de explicação. Somos o inevitável do que sentimos e o que sentimos é a força incontornável do Amor em que acontecemos e da vida que nos regressa.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Tudo é... tu

Dennis Rogers, Entropic Favourites series, 2005

Quando 'para sempre' deixa de ser muito tempo e não é suficiente para viver o infinito que sinto dentro, procuro-te em tudo à minha volta e não desisto de te encontrar no mais ínfimo pormenor. E tudo és tu. Atravessas-me as horas como se nada mais se passasse no mundo inteiro a não ser este 'nós' que seguramos com mãos de aço. E tu és tudo. Passeio-te na saudade permanente que me desassossega na contagem dos dias. E quando te encontro em pensamento, embrulho-te de sonhos do que nos falta para sermos completamente. Na liberdade do sonho somos tudo por inteiro e mais o que sabemos ser incondicionalmente. Tu és a vida que me resta e eu quero viver para sempre porque a ti me prometi infinitamente. Quando fecho os olhos para te percorrer interiormente, chego-te muito perto no incondicional em que me comprometo: haja o que houver, eu estou aqui. Amar-te incondicionalmente é saber este tudo que és para mim na certeza absoluta de que, haja o que houver, esperarei por ti.

sábado, 7 de abril de 2007

Aniversário

Linda Alstead, Catch a Falling Star - Marble, 2004

Hoje faz anos uma estrela que é um bocadinho minha também...
Um beijo de Parabéns!

O mar que nos abraça

U-Turn, Amo-te um mar infinito e intemporal (ABR07)

De quantas formas é possível dizer 'infinito'? Só me lembro da palavra 'mar' e do abraço em que, longe ou perto, existimos sempre. E é curioso como a palavra 'mar' e 'amar' se confundem muito para além do seu significante. E se o amor é do tamanho de um mar infinito, amar é ir mar adentro e navegarmos a imensidão do que somos uma na outra até uma ilha de nome 'sempre', que traçamos como destino. Descobri o amor na ilha do tesouro que és tu. Descobri o amor no que sou contigo neste mar que nos abraça sem tempo nem distância. E entre o céu e o mar existimos apenas nós e as estrelas que nos brilham nos olhos. Dizer que te amo muito não é suficiente quando somos um mar inteiro no que sentimos as duas. No abraço em que nos guardamos por entre os dias, embrulhas-me na transparência das águas deste mar que nos embala. E oiço-te dizer ao mesmo tempo do que eu 'amo-te um mar infinito e intemporal'. Amo-te tanto, meu amor, mais do que 'tanto', amo-te tudo.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Diamante

Lynchos, Summer Eternity, 2004

A minha eternidade é o tempo que estou contigo e contigo eu quero ficar para sempre. Este mar sem fim em que te sinto amor desassossega-me noite e dia e há um sonho por cumprir. Este 'sempre' que te escrevo é a intensidade do meu querer-te completamente no corpo, na alma e no coração. Acredito em nós e acredito na vontade que nos guia para além dos dias, porque os dias são feitos de areia e o 'nós' em que acredito tem a consistência de um eterno diamante. Seguro-te como uma pedra preciosa, única e insubstituível. Guardo-te em mim onde sei que nunca te vou perder. Em mim só existes tu e a minha vontade invencível de nunca desistir do que somos. O Amor é tão raro como tu e tu és tudo que sei sobre o Amor.

O fim do Inverno

Peter Elköf, Winter, 2004

Estive a contar os dias do nosso Inverno e do que ardemos interiormente para poder sobreviver ao gelo da nossa ausência. Estive a contar o tempo em que morremos todos os dias na dor de não nos conseguirmos chegar. Estive a contar as vezes em que me implorei para te esquecer para me salvar da morte lenta. Estive a contar os meses que, longe, adormeci e acordei sempre ao teu lado. É uma conta redonda, dá sempre o mesmo resultado. Vivi-te sempre comigo no amor que nunca desistiu. Senti-te sempre num amor do mesmo tamanho e esperei-te no silêncio do que te ficava por dizer. Esperei-te em cada palavra que te fui dedicando e quando adormecia sonhava que, um dia, me acordarias com palavras iguais às minhas, ditadas pelo coração. E um dia, que não era igual aos outros, amanheci no fim do Inverno com palavras tuas. A vida regressou-me nesse abraço que eu sempre te acreditei. Parei o tempo para te segurar e voltar a encontrar-me no que me perdi na dor e encontrei-me no amor infinito em que sempre nos embrulhei. Estive a contar quanto tempo durou o nosso Inverno, mas esse tempo deixa de fazer sentido quando sei que esperei a vida inteira para te amar. Que diferença nos faz uma estação quando percebemos que nos encontrámos para o resto da nossa vida?

terça-feira, 3 de abril de 2007

Ontem eu, Hoje nós

B. Shortall, Timeless Water, 2006

Já fui outra pessoa. Numa outra vida, não há muito tempo, eu era outra pessoa. Pensava-me grande com a arrogância própria de quem se acredita inquestionável. Vivia à volta de mim mesma, indiferente e intocável. Nessa vida era apenas eu, numa linha recta controlada e previsível. Sabia-me de cor e não havia imprevistos naquilo em que me conhecia. Na minha paisagem nunca fazia nem muito frio nem muito calor, tudo era ameno e regulado em função dos objectivos das horas. Eu era assim, uma pessoa distraída do essencial, porque antes de ti eu não sabia amar. Nessa minha outra vida eu era quase nada. Não sabendo amar somos pouca coisa, por mais que estejamos convencidos do contrário. Hoje sei que, antes de ti, eu era pouco, sem amor para dar somos muito pouco. E então chegaste tu e eu renasci alguém diferente, uma pessoa maior, mais perto de existir realmente no que é fundamental. Reconheci-te e encontrei-me em ti. Cresci para fora de mim, descobri-me em amor. Aprendi a amar no dia em que te vi pela primeira vez. Hoje sou outra pessoa, ganhei um coração contigo dentro. Sou infinitamente maior do que era antes, porque sou o que existo contigo, sou o 'nós' feito do que tu e eu sentimos de forma única e incontornável. No amor que nos damos reinvento o sentido da minha vida, não te encontrei por acaso porque nada acontece por acaso. Somos a força do inseparável, o desejo de eternidade e a vontade de infinito. Somos a certeza do Amor em que nos descobrimos e nos damos por inteiro. Achas que é muito pedir-te que vivas para sempre? Sempre é o tempo de amor que te tenho, quero ser eternamente ao teu lado.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Bom-dia, meu amor


Linda Alstead, Haircut 100, 2006

E enquanto acordamos em desalinho de saudades e vontade de sermos livremente, olho-te nos olhos para te dizer: 'Sinto a tua falta como a falta de mim mesma', porque tu e eu somos a mesma parte de nós, somos o que não desiste para além do tempo e da distância. E nos olhos que se encontram regressamos à vida que ficou suspensa na ausência da pele. E se pergunto 'Dormiste bem, meu amor?' é porque quero dizer-te 'Acorda agora, já é manhã e as horas são nossas'. E sorrio a olhar-te despertar e aninho-me na vontade dos teus braços. Abraças-me com a intensidade de quem hiberna nas horas ausentes de nós. Embrulho-te em mim com a força de quem dormiu muito tempo no sonho deste abraço. Despertamos uma na outra muitas horas de saudades. Sorris-me um mundo infinito que começa e acaba em nós. Sorrio-te um coração do tamanho do universo onde só cabes tu. Sorrimos no mar sem fim em que nos navegamos e nos sentimos Uma. E quando adormeces novamente, acordo-te durante a noite para te dizer: 'Bom-dia, meu amor, para o resto da minha vida'.

domingo, 1 de abril de 2007

Sem tempo

Bryan Miller, Lichen

O que é o vazio senão o espaço de tempo ausente de ti? Ausência é o vazio que se sente em cada segundo que passa lentamente pelo ponteiro mais rápido da contagem das horas. Fico a olhar para o relógio, contigo em pensamento, e não saio do mesmo sítio enquanto tu não chegas. E entre o aqui e o agora beijo-te infinitas vezes, à espera do logo em que seremos novamente o que nunca deixamos de ser por mais que o tempo se demore a encontrar-nos. A vida que me acontece no entretanto é feita do que existo contigo debaixo da pele. No que sou existes tu sem intervalos. E ainda que as saudades me descompassem a passagem do tempo, os meus braços prolongam o abraço que te quer de volta para te embrulhar de eternidade.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Sempre e mais um dia

José Pinto, Infinite, 2005

Quando te digo 'eternamente', quero dizer 'para sempre e mais um dia'. Eternamente é pouco, mais um dia faz toda a diferença porque te quero para além da eternidade. Não sei dizer-te de que é feito o amor a não ser por esta vontade de ser contigo sempre, para além do tempo e sem distância, porque não há longe entre quem se ama, apenas uma saudade infinita. Este 'nós' em que tu e eu nos confundimos sem princípio nem fim é, certamente, o amor dos poemas de amor que, antes de ti, nunca senti para além da forma. Contigo aprendi o que me faltava - o sentido do verbo amar que conjugo no presente e no futuro na primeira pessoa do singular. No teu abraço encontro a certeza da segunda pessoa do singular e quando adormeço tu e eu somos 'nós' no infinito. Amar-te é adivinhar-te sem te ver e sentir-te em pensamento nos intervalos de nós, é querer-te todos os dias mais, porque cresço todos os dias mais um bocadinho na verdade do que sinto. O amor é perceber que te esperei a vida inteira e nunca desisti de te encontrar, é procurar-te em toda parte e morrer de saudades no desencontro do tu aí e eu aqui. E este contentamento descontente que é o amor vem da falta que me fazes no que sou contigo, porque sinto a tua falta como a falta de mim mesma, porque não sei onde tu começas e eu acabo. O Amor é este nó cego que nos demos para sempre... e mais um dia.

segunda-feira, 26 de março de 2007

O que não te escrevo

Steward Lloyd-Jones, A sort of self-portrait, 2004

E, ao fim da noite, dou-me conta de que as palavras que conheço são insuficientes para te contar o que sinto tão completamente. Nas histórias que te invento, falho a intensidade do que consigo dizer porque dentro de mim tudo é mais, infinitamente mais, do que sei descrever. Neste amor que é maior todas as manhãs, vou procurando maneiras de te dizer o muito que gosto de ti e tudo é pouco nos arranjos de palavras que vou conseguindo, comparado com o que me transcende no infinito que sou contigo. E neste falhar do que quero dizer-te, vou baralhando e voltando a dar as palavras que falam de amor, na esperança de te inventar algo único, só para ti, em que sejas capaz de me sentir na intensidade do que te abraço. Já te escrevo há uma eternidade e nesta eternidade que sinto contigo cada palavra é um pedaço de mim e do que me és sem fim. Só existo nestes pedaços soltos que te dizem, sem engano, que a minha vida és tu. Colecciona-me como partes do todo que somos nós.

domingo, 25 de março de 2007

Caminho em chamas

Bruce Berrien, Milford, 2004

Passo a passo no que falta andar, caminho com a certeza de que não me enganei na encruzilhada quando virei na tua direcção. Caminho cautelosamente como se reaprendesse a andar depois de muito tempo no mesmo sítio rente ao chão. Sigo em frente e o meu sentido és tu. Quero chegar-te no que nos falta e só nos falta o que ainda não sabemos mudar à nossa volta. Chegar-te é segurar-te na distância, dentro do coração. Segurar-te é saberes que te abraço todas as vezes que me pensas durante o dia. Amar-te incondicionalmente é viver-nos nesta espera feita de beijos sem princípio nem fim. E se morro de saudades no tempo que nos falta é porque tenho pressa de sentir o fogo que somos pelo caminho. A minha urgência de ti é um principio de vida: não existo no que não te tenho, sobrevivo embrulhada neste querer-te infinitamente. No caminho que tu e eu vamos andando tudo se incendeia, tudo é fogo da nossa eterna chama. Tu e eu somos um oceano que nos queima de sangue a ferver.

Nos intervalos

Steve Price, 2006

Que faço eu nos intervalos da vida, nesses intantes em que não existo pelo que não me vês? Que faço eu nos buracos do tempo que me ficam do que não estás comigo, nesses momentos em que me sinto ausente de mim mesma? Não faço nada - paro de respirar para não perturbar a calma perfeita do sonho em que te encontro uma e outra vez para além da distância. Fico aqui parada, na companhia das estrelas que guardam o infinito do nosso amor. Seguro-te no que te sinto e no que tenho para te dar e te receber também, que é imenso como o horizonte onde repouso a alma enquanto espero. A distância só existe quando não sentimos e nós sentimos um universo inteiro a acontecer entre nós. E neste infinito em que te vivo debaixo da pele não há intervalos nem ausências. No teu lugar em mim, só existimos nós a corpo inteiro e um coração do nosso tamanho.

sexta-feira, 23 de março de 2007

A melhor parte

ALB, Shades of Indigo, 2006

De que é feita esta força inexplicável que nos confunde corpo e alma num só, indistinto e uno? Adivinho-te do que me conheço e do que te aprendi do muito que temos em comum. Sei-te no que sentes pelo que eu sinto também para além do silêncio e da distância. Conheço-te através de mim, na forma inteira com que sempre estive contigo e tu comigo. Tu e eu somos muito mais do que conseguimos explicar e mesmo que soubéssemos dizer tudo o que somos, seria demasiado e ninguém nos acreditaria. 'Acreditamos nós e é isso que importa', dizes-me tu. Sim, nós acreditamos no que sabemos ser verdade por incrível que pareça. Se vivi uma vida inteira à espera de te encontrar e te reconheci no primeiro instante em que te vi, não preciso de explicações para o que acontece com a simplicidade do que é puro e genuíno. Porque as coisas simples são as mais verdadeiras, aquelas em que confio com uma certeza inabalável. E eu tenho-te naturalmente dentro de mim, sempre e em todo lado, como aquela minha parte que quero salvar sempre primeiro. Foi essa parte que salvei todos os dias ausentes e nela acreditei muito para além das evidências. Foi dessa parte que não quis desistir pela absoluta certeza do que sinto e do que quero viver contigo. Foi essa parte que me tornou melhor pessoa pelo que aprendi a amar verdadeiramente. Essa minha parte que preservo sem tempo nem distância és tu e o teu lugar em mim, hoje e sempre, incondicionalmente. Somos enquanto existimos e no que sentimos somos eternamente.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Na parede, uma casa

Steve Price, 2007

Casa

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração
.

David Mourão Ferreira
«Infinito Pessoal»
(1959-1962)

segunda-feira, 19 de março de 2007

As saudades em que morri

Alfisti, Nail

Deixa-me falar-te do que sei de cor e, de cor o que sei melhor são as saudades em que te vivi nos dias em que me faltaste. Nesses dias tudo era espuma, frágil e inconsistente. Tudo era um inverno infindável, cinzento e chuvoso. Nesses dias só havia noite e um sol negro ao meio-dia. A tua ausência deixava-me rente ao chão e, no teu silêncio, eu morria muitas vezes sem nascer ao outro dia. E no tempo que passava só a minha dor me acordava do pesadelo em que dormia. Não sonhava depois de adormecer nos dias em que adormecia, procurava-te durante o dia em sonhos de quem não dorme há muito tempo. E neste mar de destroços em que me flutuava, eu ia aprendendo a respirar debaixo de água. Amava-te e, de vez em quando, sorria contente por saber amar e ter bem concreto e definido este sentir-te em mim tão completamente. E adoecia nas saudades como um castigo de mau marinheiro à deriva num voltar a casa impossível. E quando caia no fundo do mar, vinha uma voz de longe, de dentro de mim, que te trazia e em mim ficavas por instantes. E as saudades matavam-me mais um bocadinho. Enquanto a dor dessa saudade me consumia, sentia-te e, pouco a pouco, passei a acreditar no que não via, mas sentia tão intensamente quanto a dor que me mantinha viva. Guardava-te dentro de um copo a transbordar de saudades e aprendi a sentir-te para além da distância em que me fugias. Guardei-te em amor do qual nunca desisti e no amor silencioso em que me guardavas também. Desencontrada de mim no que te perdi, reencontrei-me na fé do que se sente e não se vê. Falo de cor dessa saudade porque a conheço bem. Mas hoje que me voltaste, as saudades que tenho tuas são tão infinitas quanto o meu querer-te sempre embrulhada em mim. Sinto a tua falta quando te tenho e tendo-te na certeza de estares sempre comigo e eu contigo em pensamento.

Mais do que um mar sem fim

Michael Rickard, Florida Sunrise, 2004

Adormeço nas tuas palavras e amanheço-te nas minhas.
Baixinho e ouvido... EU MAIS.

domingo, 18 de março de 2007

Dentro e fora fogo

Bryanl, Volvano NP lava flows, 2002

Quando a vida me regressa no abraço em que nos queremos a vida inteira, só dou pelo tempo que passa pelas vezes que morro de saudades tuas de hora a hora. A tempestade em que me deixas quando partes, mesmo nunca partindo do que te guardo dentro, é a urgência deste querer-te eternamente. E nesta minha inquietação percebo que o Amor é este descontentamento de tudo saber a pouco pelo muito que se sente e pela falta que me fazes mesmo quando estás comigo. Porque somos muito nada é suficiente. Porque sem ti os dias não existem. Porque a minha vida é este fogo de querer-te infinitamente. Porque não sei amar-te menos do que amei completamente no silêncio e na distância de um copo vazio. A certeza com que me habitas corpo e alma é, hoje e sempre, a força desta vontade de amar-te mais, quando mais é impossível. Daqui até ao infinito será sempre insuficiente para sossegar o meu desejo de ser contigo.

À século XIX...

Christian & Sarah Milburn, Ibiza Lightning, 2006

«How do I love thee? Let me count the ways...»

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.
I love thee with a passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints, --- I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! --- and, if God choose,
I shall but love thee better after death


Elizabeth Barrett Browning  (1806-1861)

sexta-feira, 16 de março de 2007

Aqui, sabemos onde

Steven Price


Amanhã quando acordares, estarei aqui. E depois de amanhã, também. E todas as manhãs da tua vida. Estarei no muito que existe entre nós e só tu saberás onde me encontrar. Sabes onde fica 'aqui', este 'cá' onde existimos. E eu estou neste lugar em nós e do absoluto em que nos sabemos. Aqui, neste lugar onde somos de verdade. Sou por inteiro no que me dou a ti e recebo-te na mesma proporção. Já quase morremos no vazio, salvou-nos a saudade de um amor que nos eleva deste mundo frágil como vidro. Na espera uma da outra, sentimos o sangue como lava no centro de um vulcão e a vontade de nós transpira-nos em cada poro. Nesta forma única em que nos preenchemos tão completamente, define-se aquilo que dá pelo nome de Amor. Estamos aqui onde só nós nos sabemos encontrar de perdidas de amor que estamos.

quinta-feira, 15 de março de 2007

You got me

ESKOBAR feat. Emma Daumas «You Got Me»
Apeteceu-me... gosto de ver mulheres de fato e gravata.

Sempre

Anabark, Sempre (OUT06)

Nesta saudade em que me aninho a toda a hora, vou juntando todos os pedaços de ti que me ficam entre a carne e a alma. Gostar-te é querer-te à minha beira a toda hora, demorar-te num abraço antes de ires embora e embrulhar-te de beijos em pensamento pela noite fora. Amar-te é ter-te em mim num sempre para além do tempo e do espaço que nos separa, é sentir noite e dia esta constante vontade de nós e nunca saciar a sede que nos desafia o corpo a cumprir o coração. Não sei amar-te menos do que incondicionalmente nem querer-te menos do que infinitamente. A minha certeza é o absoluto que não se explica. És tu o meu lugar porque és tu a minha raiz. Nasci para te encontrar no dia em que te conheci e vivi uma vida inteira nesta espera de ti. Não somos por acaso, somos a força do que nos permitimos ser felizes. Seguro-te nos dias, nos anos, nas vidas que nos faltam para sermos nós. Sempre é mais do que uma promessa, é a minha forma de estar em ti.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Sonho-te a cores

Zenmatt, Paint Trck, 2006



E quando me adormeces no desejo que te embrulha em mim, não sei se durmo, se sonho ou se de saudades eu já morri. Amanheces-me a pressa de acordar para correr o que me falta para chegar-te. Não durmo, fico horas acordada no amor com que te desenho o corpo quando não estás comigo. No calor que me incendeia corpo e alma, desassossego em tudo o que recordo de ti. Quero-te lentamente no abraço de fogo que não se acaba em nós. Quero-te com a urgência do respirar que nos segura a vida. Dizer que te desejo é pouco, desejar é menos do que a vontade do verbo 'querer' e eu quero-te muito para além do desejo que nos consome. E por todas as vezes que não consegues adormecer porque me pensas na tua pele e por debaixo dela, eu invento mil maneiras de me sentires na mesma saudade que te arranca ao sono. Não durmo, sonho-te com o vagar incendiante de quem te espera numa promessa de beijos que ilumine, por inteiro, a estrela que me és, gravada no meu coração. Deixa-te ser comigo eternamente.

terça-feira, 13 de março de 2007

Mar me quer

José Pinto, Dourada, 2004

Quantos anos passam em cada minuto despido da tua pele? Sinto a vida interrompida nos intervalos em que não acontecemos e a respiração suspensa no que não me canso de esperar. E no tempo em que te demoras vivo-te intensamente do que me ficou do dia atrás. Sinto a marca dos teus braços no meu corpo abraçado de saudades e a ponta dos teus dedos na pele que me tocas mesmo quando não me tens contigo. Sinto-te chegar e partir no mesmo fogo antigo que, longe ou perto, hoje e sempre, nos consome. O que somos não tem tempo porque existimos dentro e fora do pensamento. Tu e eu somos o espaço imenso de um mar de amor sem fundo. Naveguei-te na distância e, nas voltas que dei no fim do mundo, nunca deixei de te encontrar. Ausência é falta, é morrer sem deixar de respirar. Se o mar me quer como eu quero o mar, só a viagem me importa e a certeza que tenho de conseguir chegar. A sede que temos de nós não nos deixará naufragar.

segunda-feira, 12 de março de 2007

The Look of Love

Faye White, 2005
by Dusty Spingfield

The look of love
Is in your eyes
The look your smile can't disguise
The look of love
Is saying so much more
Than just words could ever say
And what my heart has heard
Well it takes my breath away

I can hardly wait to hold you
Feel my arms around you
How long I have waited
Waited just to love you
Now that I have found you
You've got the look of love
It's on your face
A look that time can't erase
Be mine tonight
Let this be just the start
Of so many nights like this
Let's take a lovers vow
And then seal it with a kiss

I can hardly wait to hold you
Feel my arms around you
How long I have waited
Waited just to love you
Now that I have found you
Dont ever go

I can hardly wait to hold you
Feel my arms around you
How long I have waited
Waited just to love you
Now that I have found you
Don't ever go
Don't ever go
I love you so

domingo, 11 de março de 2007

Abraço-te sem fim

Linda Alstead, Thanking my lucky stars, 2004

Adormeço-te e amanheço-te no mesmo abraço...

«Põe os teus braços à volta de mim»
Põe os teus braços à volta de mim
Leva-me a um cinema de sessões contínuas
Onde não haja princípio nem fim
Mas apenas nós

Põe os teus braços à volta de mim
Vamos provar a noite dessas avenidas
Onde não haja princípio nem fim
Mas apenas nós

Esta noite não é noite
Não é noite de dormir
Nem esta nem a que vem
Nem aquela que está pra vir
As nossas noites nunca serão noites
de dormir

Põe os teus braços à volta de mim
Não nos importa que falem os outros
Que somos loucos
Sem princípio nem fim
Já sabemos nós

Voz: Gabriela Schaff
Letra: António Pinho
Música: Nuno Rodrigues

Somos Uma

Theodor Severin, Gray

Entre o céu e a terra existias tu. E eu ficava no fundo do mar à procura de estrelas nas noites por dormir. No fundo do mar a escuridão era imensa e os dias nunca chegavam a ser. O tempo passava lento e arrastado, às vezes parava completamente e, nesses intervalos, eu envelhecia muitas vidas nos buracos dos dias. Guardava-te e guardava-me a mim sem desistir. E nunca deixei de te sentir. E assim segurava a vida que por mim passava vazia de ti. Sonhava-te no céu de estrelas de onde caí. Nos tempos livres da noite escura, pegava nos estilhaços do que fui contigo e colava um a um com o amor que me sobrava e esta vontade infinita de ti. No fundo do mar escuro colecionei estrelas enquanto erguia os meus olhos aos céus guiada pela fé na procura dos teus. A tempestade maltratou-me corpo e alma. Salvou-me o coração em diálogo com o teu e no muito que me disse, baixinho e ao ouvido, acreditei que me sentias com a intensidade que sempre te conheci. Hoje, abrigada na tua praia, olho-te nos olhos e embrulho-te no que não sabemos desistir. Na vontade com que me abraças somos Uma, sem princípio nem fim. No amor com que nos regressamos, nunca partiste de mim.