sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Antes de adormecer

Guido Meyer, From Dusk til Dawn, 2004


Aqui onde estou sentada está frio e eu arrefeço por entre palavras para ti cheias de calor. Por ti não desisto, porque gosto de te amanhecer com o mesmo sorriso com que adormeço em ti. Na alma com que escrevo tu és o meu sol e não tenho frio realmente, o frio é apenas uma distração. Logo a minha pele aquece e o corpo estremece à temperatura do coração. Há um ano atrás era inverno, hoje é eternamente verão. Porque o Amor é fogo e amar-te é este incêndio permanente dos sentidos que as palavras que te sussurro, durante a noite, ao ouvido são incapazes de conter. Não leves a mal as minhas noites sem dormir para estar aqui e aí ao mesmo tempo. A esta hora não estou aqui realmente. Deitei-me no beijo que me deste antes de adormeceres e nele viajo até aqui de lábios quentes para te abraçar o dia, porque acordas primeiro do que eu. De manhã durmo este bocadinho que me falta e tu sorris com o beijo que deixo agora na mesa de cabeceira. Há um incêndio em cada frase e mar alto em cada beijo. Anoiteces-me com meiguice, amanheço-te com alma plena. O amor que acontece sem intervalos é feito da saudade infinita que fica de nós entre o aqui e o agora e nos deixa o corpo em desassossego até eu voltar-te daqui para a nossa cama.

Prenda de Natal

Swatch 'Secret Code'

te disse hoje que te amo?

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Até já

Anabark, Bom-dia M.A. (JUN07)

Passo por aqui de fugida para te amanhecer outra vez quando saires da cama e enfrentares o dia. Porque é bom ter um beijo à chegada do dia que começa e nos afasta os olhos dos olhos. Porque é bom poder beijar-te por palavras enquanto a distância nos afasta o corpo e nos desassossega o coração pela ansiedade de voltar. Passo por aqui hoje quase a correr porque o cansaço desfoca-me a vista e atrasa-me o pensamento e preciso de fechar os olhos para te encontrar rapidamente. Porque estás à minha espera enquanto dormes. Porque sinto a tua falta entre esta palavra e a próxima. Apesar do dia que me pesa à noite, não posso deixar de vir ter contigo desta outra forma para que me sintas nos intervalos do que te digo pele na pele. Porque esta é a nossa história e estas são as páginas que se escrevem todas as noites, de dentro para fora do dia ao encontro de nós. Porque esta é a nossa vida e a nossa imortalidade. Porque o Amor que é nosso e aqui nos deixo nos garante a eternidade. Passo por aqui antes de adormecer embrulhada em ti e acordar-te ainda no mesmo abraço.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Maioridade

Ana Carloto, Playing with fire - You (Drawing With Light series), 2005


E à medida que os dias passam somos cada vez maiores, unas e indissociáveis. Crescemos no que agimos à altura do que sentimos. O Amor é esse milagre de força, certeza e luz e a felicidade, que nos espreita na nossa cama antes e depois de adormecermos, é feita dessa malha que tecemos todos os dias com absoluta devoção. Não vivemos de fantasias nem vivemos um sonho. Construimos os dias com o que queremos no futuro. O abraço é sempre mais forte e mais maduro e a nossa casa há-de ser um castelo feito do infinito amor que somos ontem, hoje e sempre. Incondicionalidade é amar por inteiro e cada vez mais o que se conhece e o que se vai descobrindo. Quando te beijo, encontras nos meus lábios o compromisso de eternidade e eu nos teus saboreio igual intensidade. Renascemos e crescemos em amor todas as noites e todos os dias nesse abraço que nos embrulha numa entrega total.

Beijo infinito

Jim Mountford, Kiss

Um beijo TEU para mim



segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Na parede do quarto

Epxis, Let the sunshine in ( part II) , 2004

Irrompe do teu corpo iluminado
toda a luz de que o mundo sente a falta
Não a que mais reluz. Só a mais alta
Só a que nos faz ver o outro lado
do bosque onde o Futuro e o Passado
defrontam o presente que os assalta
num combate indeciso a que nem falta
o sabor de saber-se ilimitado
irrompe assim a luz entre os extremos
da mesma renovada madrugada
E vibra a cada instante um novo grito
Com essa luz do grito é que nós vemos
que Passado e Futuro não são nada
apenas o Presente é infinito.
David Mourão Ferreira

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Entre agora e daqui a pouco

Anabark, Nós (MAI07)

Nós, que coleccionamos saudades e adoecemos nelas, aprendemos que é impossível sobreviver nos intervalos de tempo em que não somos completamente. Às vezes são apenas minutos, outras vezes horas, pouco importa porque as saudades não se medem pela medida do tempo. As saudades são a expressão do Amor e o Amor não contempla intervalos. Tenho saudades tuas ainda antes de te beijar e dizer-te 'Até logo', as saudades são constantes antes, durante e depois disso, porque moras na minha cabeça e não te sei deixar um segundo que seja. És o meu primeiro e último pensamento do dia e os meus dias inteiros são feitos de ti numa contagem decrescente para nos voltarmos. E porque te sei na mesma ansiedade para abreviar o tempo no mundo que não é nosso, abraço-te vezes sem conta nos minutos contados que passam sem nós. A intensidade com que nos esperamos e feita de saudade e da impaciência do amor que nos faz sentir a vida como algo absoluto e eterno. Aprendi contigo o Amor e hoje tenho a certeza de que quem ama tão completamente vive para sempre.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Carta

Analogic, Sem título, 2006


Desculpa, meu amor, pelos dias que faltei aqui, por tudo o que não escrevi mas que te fui dizendo baixinho e ao ouvido. Não me faltam palavras porque as palavras fazem parte de um sistema de arranjos e combinações infinitos com milhares de palavras para arrumar na ordem e no propósito mais próximo do que somos, do que queremos, ou muito simplesmente do que gostaríamos de dizer ou fazer saber. Tenho páginas e páginas em branco e muitas coisas para te dizer sob a forma de palavras, palavras de Amor porque te sinto tudo em mim e porque te amo para além de tudo. Mas por mais que se diga e que se explique fica quase tudo por dizer quando sentimos o universo inteiro dentro do coração. Porque as palavras são insuficientes e limitadas, não explicam o inexplicável nem a intensidade do arrepio que nos percorre. Porque as palavras são pequenas e nelas não cabe o que somos tão completamente uma na outra. Porque tu e eu somos o infinito.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Debaixo de chuva

Jo' Chambers, Rain drops on glass, 2007

Enquanto te dispo em pensamento vezes sem conta durante o dia, no que te quero e vou dizendo chove um mar inteiro de desejo onde aprendemos a respirar debaixo de água. E na vontade que te assalta de me despires também, perco-me e encontro-me em ti. Abraço-te milhares de vezes entre uma hora e outra e, em todas as vezes que te abraço, sinto-nos esta urgência irremediável de corpo contra corpo. Enquanto te dispo mentalmente o tempo custa menos a passar e, quando passa, corro a vestir-me de ti e a embrulhar-te o corpo com a minha pele feita de água incendiada pelo que a imaginação nos permite. Regresso-te debaixo de chuva intensa e descubro-te no mesmo temporal e o mar onde, em pensamento, mareava a minha vontade de ti encontra agora um oceano feito do desejo que nos navega, em simultâneo, a realidade. Na intensidade do que te sinto e tu a mim, abandono-me ao que choves de ti, aninhada nessa entrega de saudade que nunca chega ao fim.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

D. Quixote

Denis Doucette, Black Knight attacks, 2005

Porque sou, como diz a canção, o cavaleiro andante que mora no teu livro de aventuras, podes vir chorar no meu peito, pois, sabes sempre onde estou. E porque me imagino esse cavaleiro andante, finjo que não preciso do que me faz falta para te levar para longe de tudo o que é mau, fugir contigo no meu cavalo de pau. E enquanto choras no meu peito, pedes-me a paz e eu quero dar-te o mundo porque a solidão é dura e o Amor um fogo que a saudade não segura e a razão não serena. Deixa-me embrulhar-te o corpo nos dias em que, fraco de lutar, te apetece ser criança e ouvir histórias que te façam feliz. Porque sou o cavaleiro andante, quero ser o teu respirar nas horas em que o vento frio te navega a alma e te transforma as noites em madrugadas de cristal. No teu livro de desventuras encontrarás sempre o chão seguro que te estendo sem precisares de quebrar o silêncio.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Menos do que amanhã

Anabark, Infinitamente (MAI07)

Mais do que ontem, menos do que amanhã, porque é sempre mais mesmo que pareça impossível ser mais do que o infinitamente já é. E nunca será demais, certamente. Os dias passam e a vontade que nos fica é que nunca acabem em nós, mesmo sabendo que ninguém vive para sempre. A eternidade é o presente, o momento que construímos único e nos sentimos por dentro com a alma maior do que ontem e pronta a crescer outro tanto no dia a seguir. Os versos em branco que os poetas chamam de futuro são promessas que se começam a cumprir no aqui e agora que nos damos. Hoje somos muito mais do que fomos ontem à mesma hora. Amanhã seremos um dia a mais. O mundo acontece num dia, amanhã somos o tudo de hoje e o resto que está para vir. São os beijos do presente que multiplico amanhã porque hoje, ao teu lado, quero sempre tudo e procuro sempre mais. Somos infinitamente mais na soma dos dias que acontecem em nós, somos o mundo em construção e a certeza absoluta de amor que nos junta inseparáveis na alma e uma só no coração.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

No teu poema

Ana Carloto, Bond («Drawing With the Fire» Series), 2005
No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um canto
chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro


Letra: José Luís Tinoco
Voz: Carlos do Carmo

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

A caminho de sempre

J. Harvey, Washed out tracks, 2007

Porque Deus escreve certo por linhas tortas, porque caminhamos por trilhos irregulares mas sabemos onde queremos chegar, porque seguir em frente é aceitar o piso como parte da aventura de caminhar, porque te sinto em absoluta certeza em cada passo desequilibrado, porque firme e seguro é o Amor que nos embrulha a alma, por isto e por tudo o que não escrevo incapacitada pelo sono que me encolhe o raciocínio e me leva de volta a ti, amo-te mais do que ontem e menos do que amanhã. O hoje que vive entre passado e futuro é a nossa aposta - apostamos no que temos para chegar ao que queremos e temos tudo para conseguir. Temos a força rara e inquebrável do sentimento em que o coração nos embrulha. Somos mais do que um episódio de tempo, somos 'sempre' sem anos nem dias. É infinita a vontade de sermos Roma no fim de todos os caminhos. Nos passos que damos, todos os caminhos vão dar ao nós que nos guia a alma e nos inspira na direcção certa. Amanhã somos mais do que hoje porque a distância até ao 'eternamente nós' se encurtou. Estamos mais perto a cada minuto que passa e a intimidade de mais um dia em que nos descobrimos abraça-nos com a meiguice de quem confia e é de confiança. Gosto infinitamente do que te descubro quase sempre espontaneamente. Este 'amo-te' em que te embrulho noite e dia é feito à tua medida e estreado por ti, o único amor da minha vida, para ti que guardei a palavra que nunca disse nem senti. Gostar muito não é amar - amo-te.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Alto (a)mar

Irene Muller, Drop Gone Missing, 2007

Quando, a dois passos de ti, acontece um eclipse, o mundo à nossa volta desaparece e só nós existimos em estado de total urgência. E no eclipse que acontece todos os dias, quase a toda a hora e sem distância segura, a transparência do olhar é uma viagem inadiável ao centro do corpo. Quero o que me adivinhas e o que te sei urgente deixa-nos ainda mais transparentes. Nos teus olhos submissos à vontade de nós, eu navego de alto a baixo, por entre ondas de um mar que conheço bem e nelas me abandono com a mesma entrega e submissão. Sabemos de cor a força que nos empurra e a intensidade do nosso marear. A luz que nos guia vem do centro e, nesse mar adentro, somos o eclipse de qualquer outra claridade. Não há porto que nos abrigue o desassossego infinito em que nos viajamos. Somos a tempestade e a bonança num encontro apaixonado de oceanos.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Parte descoberta

Anabark, Afrodisíaco (JUL07)

Descubro-te por dentro e por fora ao mesmo tempo que te passeio de alto e baixo todos os dias como se fosse a primeira vez. Nunca te descubro por inteiro porque encontro sempre mais da próxima vez. Porque não tens fim em mim. Porque há sempre mais do que eu já sei. Porque te procuro em partes de ti que tu mesma desconheces. Porque a intensidade com que te vivo não tem princípio nem fim. Desassossego por tudo e por nada, pelo que sinto e pelo que imagino, porque, em mim, estás em toda a parte mesmo nos instantes em que não estás comigo. Porque és a pele da minha pele, a parte de mim que não sei despir. Desassossego por este tudo que de tanto é infinito. Desassossega-me o brilho dos teus olhos que, longe ou perto, sempre me adivinham. Porque nos sabemos bem demais mas não o suficiente ainda. Porque nada é suficiente em nós, tudo é pouco quando nos sentimos o infinito.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O que não se vê

Yves Rubin, Convergence

Quando fecho os olhos, observo-te noutros ângulos de visão não completamente evidentes e nem sempre fáceis de explicar. Fico a olhar-te numa dimensão fora de tempo, sem antes nem depois, porque em tudo o que te vejo se impõe a ideia de 'sempre'. Existes em mim desde que eu existo e o 'nós' que somos hoje aguardava o instante que nos fez encontrar. E aconteceu sem esperar nem planear, encontrámos o que procurámos sem dar conta da procura, mas sempre conscientes da falta. Nascemos ao mesmo tempo, nascemos no momento em que alma fixa o que sente o coração. Do ponto de onde te observo, não existe vida antes de ti porque a vida é o fogo que nos arde dentro do peito e uma vontade de entrega por inteiro, é sentir o corpo em desassossego permanente, guiado pela voz do coração. A vida é a certeza do encontro de almas que esperam sem saber e acreditam para além do que os olhos encontram. O Amor é encontrar por dentro tudo o que se quer dar, é embrulhar com braços fortes quem se ama na ideia de 'sempre' e acontecer todos os dias com essa intensidade. O Amor em que te seguro não tem tempo nem medida, é tudo o que me encontro ao encontrar-te a ti.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Casa

Inês, Por Ali, 2006

Casa

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração
DAVID MOURÃO FERREIRA

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Mais do que tudo

Nik Conolly,18 days without rain - the color of delirium

Quase a chegar ao fim da noite, demoro-me um bocadinho a pintar, em cores vivas, um quadro de saudades. Desassossego em cada tom pela intensidade com que te vivo. Desenho-te vezes sem conta no que te sei de cor e sei-te muito, tanto que não haverá nunca obra acabada. Porque não tens princípio nem fim, és infinita por condição do que te sinto em Amor. Menos do que este tudo em mim seria nada e não seria Amor porque o Amor é tudo por definição. E todos os dias és mais, somos mais de nós pelo muito que amadurece na alma sempre insatisfeita. Demoro-me na ideia de que o 'sempre' é esta construção dos dias com a intensidade do primeiro beijo. Os lábios e o desejo são os mesmos e a certeza cresceu e crescemos nós. Somos perfeitas nesta vontade partilhada de vencer as fronteiras do tempo. Amar para além de tudo é também acreditar na eternidade e confiar nas razões do coração. Tudo em nós é a força dessa razão. Não sei amar-te menos do que 'mais do que tudo'.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Nas memórias do sonho


Tom Gething, Locked, 2004

Daqui a pouco estarei a dormir o pouco tempo que falta para me levantar. Deito-me e adormeço e sonharei contigo porque não sonho com outra coisa que não sejas tu. Ou, se calhar, não sonho, penso adormecida, convoco memórias, porque os sonhos fazem-se combinando recordações. Amanhã não me vou lembrar das memórias encontradas que o sono combinou numa ordem qualquer que não sei entender acordada. Mas sei que, em tudo o que sonhei, estavas tu porque te guardo em mim de coração fechado a cadeado. Por grande que seja a alma, o Amor é exclusivo e nunca lhe sobra espaço. Sonho-te de noite para matar saudades e entreter as horas que, não sendo muitas, são infinitas de olhos fechados. Sonho-te de dia para enganar o tempo e ter-te sempre à distância de um beijo, porque sinto saudades tuas mesmo no intervalo dos nossos lábios. Amar-te é acumular saudades no aqui e agora e sofrer o tempo que, lentamente, vai passando entre um abraço e outro. Adormeço de vida suspensa à espera de sonhos que invento para te reviver neste tanto que somos, infinitamente, uma na outra.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Um ano dentro do copo

nnpc, Doin' the Dishes (Fluids Series), 2002

Há um ano e poucos dias atrás um copo entornado sobre a mesa media as horas de ausência que passavam em nós. O vazio não tinha fim nem a tristeza de um 'nós' interrompido lá no fundo. E eu morria e tu morrias fora do copo. Subitamente, ou nem por isso, no Inverno passado dobraste a esquina que nos separava e seguraste o vidro com duas mãos mais fortes, mais seguras e decididas do que eu conhecia. E os estilhaços do copo caído fizeram-se cálice cheio de história e um destino por cumprir. Seguro um brinde nesse cálice que transborda o que somos dentro. O 'nós' irreversível em que nos reconhecemos não se quebra, não se gasta nem se acaba. Por frágil que pareça o cristal na nossa mão, a vontade da alma e do coração com que brindamos o destino é indomável. E a vida é feita destas vontades teimosas em que nos cumprimos em tudo o que nos prometemos a nós mesmos. Merecemos o sempre em que nos coleccionamos dentro deste copo renovado e intacto. Acontecemos infinitamente mais para além das palavras de amor que o transbordam. Somos uma, como sempre fomos, dentro e fora do copo.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

O que não vem nos livros

bluebookparis

Entre o sonho e a realidade estamos nós. Procuramos nos livros e encontramos sempre menos do que esperamos. Não temos explicação. Somos mais do que lemos ou ouvimos dizer. Somos tudo e o que resta para além disso. Quando fecho os olhos encontro-nos sempre em mil lugares não muito diferentes do mundo que te quero mostrar. Depois acordo e a luz da manhã devolve-me a graça de um beijo quente na pele dos lábios. Entre o sonho e a realidade acendemos dia após dia de improviso e intensidade. A nossa pressa de viver é a pressa do Amor que não vem nos livros nem se ensina porque o Amor vem da alma que se ilumina tocada pelo coração. O Amor estala-nos a pele de dentro para fora e faz-nos correr para além do espaço e do tempo. Sem explicação, entre o sonho e a realidade, vivemos duas vezes porque vivemos completamente o que poucos sabem sentir por inteiro e viver infinitamente. Somos esse inexplicável que vai de sempre à eternidade.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Recados na janela


Anabark, Janela (JUN07)

A janela de onde te escrevo é a tua, a minha, a nossa certamente, e as palavras que debruço todas as noites nela são pedaços de sol nascente que quero deixar nos teus olhos quando acordares, para que nunca te falte a luz com que me amanheces todos os dias. Esta janela que abro às escuras, devagarinho, para deixar entrar as estrelas por onde vagueia o meu sono, é a mesma por onde espreito para saber se já dormes. E enquanto me adormeces no mesmo abraço, aqui regresso entre sonhos para te deixar, de surpresa, beijos num recado. As minhas noites são mais longas porque estou mais tempo acordada a pensar em ti. Mas logo te volto sem deixar passar muito tempo entre o aqui e o agora, porque ainda que em nós não haja longe nem distância, tenho medo que acordes sem o meu abraço nos minutos que fico a abraçar-te por palavras nesta janela que te acolhe na paisagem infinita do meu Amor. Aqui somos o eternamente que nos prometemos e que vamos sabendo cumprir tal como sonhamos.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Je t'aime...

Anabark, Pontos de vista (SET07)
Je t'aime non seulement pour ce que tu es mais pour ce que je suis quand nous sommes ensemble.
Roy Croft (1919-1977)

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Em frente


Anabark, The only way is up, (OUT07)

Não conheço outro caminho senão aquele em que nos escolhemos para sempre e mais um dia. E caminhamos no sentido ascendente e a certeza de onde queremos chegar. Construimos cada dia mais perto do que sonhamos. Não é longa a caminhada, tem a medida exacta dos passos que sabemos justos e seguros. Caminhamos num abraço e a intensidade que nos embrulha marca o ritmo e aproxima-nos do horizonte. Para trás deixámos vidas em que nos entretivemos à espera de nós; para a frente ganhamos a vida por inteiro, a vida em que somos completamente, com total urgência e sem tempo a perder. Para a frente, acontecemos e cumprimo-nos neste infinito que somos. A vontade que nos orienta o passo é o Amor que nos descobrimos sempre mais e o Amor vai aonde quer chegar. E, para além duma saudade constante feita do que nos falta andar, somos nós o caminho e o Amor a nossa eternidade. Somos este tudo que sentimos e o que sonhamos vale toda essa saudade.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Força

Lin MacDonald, Stopping the Train, 2005

Não te sei explicar como nem porquê, sei apenas a força que vem de dentro e que é suficiente para mover uma montanha. Sei que querer muito é chegar a todo o lado. Sei que a vontade é mais forte do que a razão e que há em tudo uma razão, mesmo que não tenha lógica nenhuma. Sei que amar é ter força para dar e segurar ao mesmo tempo, mas também cair ao encontro de um abraço, porque, às vezes, precisamos mais dos braços de quem amamos do que de certezas em nós mesmos. Se te digo, meu amor, que a minha vida és tu, é porque te sinto, em mim, a própria vida. Antes e depois de ti é espaço vazio e tempo gasto em nada. Morri muitas vezes nos dias que ficaram entre nós e nesse intervalo de existência suspensa em que eu te adivinhava, animei a alma de uma força contrária à razão. É com essa força que te abraço a eternidade. Este querer que te embrulha noite e dia é absoluto e irreversível assim como a certeza de que somos mais do que razão, somos a força do Amor. Somos por inteiro no que acontecemos por força do Amor.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Por dizer

Lee Rudd, The Chain, 2005

A pressa de te chegar é tanta que tropeço nos milhares de coisas que tenho para te dizer. E o que tenho para te dizer é tão simples que invento formas complicadas de o dizer só para demorar mais tempo contigo nessas coisas que te segredo ao ouvido. O que tenho para te dizer é simples e infinito. São coisas que sinto e que tenho urgência em revelar, mesmo que tu me saibas em pormenor. Tenho sempre pressa de te falar de amor - posso não ter tempo de te dizer tudo e, por isso, vivo a ansiedade de querer contar tudo de uma vez, ainda que saiba que nunca chegarei ao fim das frases que componho e descomponho à espera de te surpreender. Lembro-me de tudo que disse até agora e não tenho dúvidas quanto ao que te vou dizer amanhã ou no dia seguinte ou para o ano que vem. E quando me faltarem as palavras, os meus olhos nos teus falarão por mim. O infinito do que sinto não se fica nas palavras, alastra-se por debaixo da minha pele, desde a alma ao coração. Posso dizer que te amo de milhares de maneiras, mas continuo a começar todas as frases com 'Meu Amor'... tão simples quanto infinito.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Frágil

Linda Alstead, Fortune Coockie, 2005

É porque amamos tanto que a alma, por vezes, adoece na ambiguidade da palavra ou num erro de cálculo de um gesto desastrado. Às vezes entramos numa loja de cristais e deixamos tudo em cacos. Às vezes julgamos o todo pelas partes porque estamos contrariados. Às vezes damos demasiado importância a coisas sem importância nenhuma e dizemos coisas em voz alta que nem nos passaram pela cabeça de mansinho. Ouvimos e dizemos coisas que não queremos nem ouvir nem dizer. Coisas sem sentido que sabemos que nos adoecem e não impedimos que o absurdo aconteça, porque acontece o absurdo cada vez que não te oiço nem te vejo. Porque o absurdo é esse instante entre duas verdades numa balança. Porque a verdade tem um peso absoluto, imesurável, em cada um de nós. Convencer-me do contrário é tornar-me surda ao argumento, andar em círculos em opiniões divergentes. Convercer-te a ti é desencontrar-te em cada ideia, perder-te nas palavras fora de contexto. Só porque amamos demasiado isto acontece, por vezes, sem razão. Porque te quero demasiado bem tudo tem uma importância do mesmo tamanho, mesmo a irrelevância das coisas sem sentido. Sei que falho ser inteligente e falo com o coração quente, mas em tudo o que falho há Amor para sempre, porque o Amor é a incondicionalidade de saber amar também a imperfeição. Amar-te tudo é saber-te humana e distinguir-te do resto do mundo como o Amor da minha vida. Assim desejo eu fazer tão completamente parte de ti, mesmo cheia de erro e abastada imperfeição. Amar por inteiro é abraçar a fragilidade e compreênde-la de alma e coração.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A dormir


Anabark, Última noite (SET07)

Adormeci e sonho. Sonho-te e sonho que adormeci. Longe é para dentro, por onde passo quando adormeço à procura de ti. Longe é a distância que percorro nesses lugares que não reconheço nem nunca vi. Longe é esse outro mundo onde o tempo pára e o espaço nem sempre tem sentido. Descubro-te numa paisagem diferente, como num pedaço de filme, e corro a agarrar o sonho que me abraça a ti. Aproximo-me até um beijo de distância e pergunto-te 'Estavas a sonhar comigo?', e espero que me digas que sim. E mesmo que não te lembres como chegaste a mim, pouco importa, aninho-te no que sonho, feliz, que te vivo enquanto o corpo descansa e espera por ti. Sonho-te dia e noite no desfilar das minhas horas lentas cheias de impaciência de te chegar. Longas são as noites que passo sem dormir. Lentos são os dias que passam sem me acordares.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Prisioneira

U-Turn / Anabark, Algemadas (SET07)

Voluntariamente prisioneira do que te descubro todos os dias e das vidas que me quero embrulhada em ti, adormeço num beijo sem tempo e espero-te em sonhos de olhos fechados. Não preciso de luz, a claridade com que te vejo vem de dentro, do que alma te colecciona em mãos cheias de assombro. Reparo-te mesmo a dormir pelo que te sinto o meu centro de gravidade. Reparo-te mesmo quando tu não estás pelas saudades que ficam em teu lugar. Não sei perder-te de vista, tudo és tu e a vontade de sermos nós infinitamente orienta-me os sentidos. Nem a noite te esconde nem o dia te ilumina, adivinho-te à luz do que te sinto em mim desmesuradamente. O sorriso dos teus olhos nos meus estende-me os braços que me prendem a ti. Amanhã quando acordares, chega-te a mim, desperta-me devagarinho e deixa-me ficar sempre assim, fechada no teu coração eternamente.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Caminhar sobre as águas

Anabark, Bord de Seine (SET07)

Embrulhar-te no meu abraço é segurar o tempo à beira rio e dizer-te que os meus braços à tua volta não têm fim. Abraçar-te é garantir-te firmemente que não acabamos nas margens do rio. Seguro-te a certeza de um presente que é passado e futuro todos os dias com a mesma intensidade. Quando te encostas no meu ombro sentes-me a vontade de caminhar para além do sonho. E enquanto passeamos por cima e por debaixo de água, mergulhamos à procura do tempo perdido e, nesse entretanto, encontramo-nos completamente neste tudo com que erguemos pontes do sonho até nós. O rio navega-nos um sentir do tamanho de um mar infinito e intemporal. E se os nossos corpos se confundem embalados pela água é porque somos um só coração e uma mesma alma. Quando te espreito por dentro e te espero em cada beijo, regresso-me por inteiro por seres a minha melhor parte e porque parte de ti sou eu. Acontecemos no encontro e somos muito mais lado a lado, na soma das partes como um todo único e indivisível. Muito para além do tempo moramos nós, maiores do que a vida, eternamente Amor.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Quarto duplo

Anabark, Opera (SET07)

Para mais tarde recordar o que as paredes que nos observam seguram através dos anos, porque há momentos que fazem o tempo e a vida, porque é impossível esquecer pormenores que nos viveram e que testemunharam a nossa existência neste tudo que se estende como um mar sem princípio nem fim, colecciono-te em mil cores, formas e feitios. Porque existes em tudo à minha volta e eu só existo por inteiro no caminho que somos nós, porque és a parte de mim à qual me regresso depois de mil anos à espera de ser completamente, invento estradas de palavras em que todos os cruzamentos me levam a ti. Porque te adivinho sem saber como e te pressinto e sei porquê, porque me sei e sabendo-me sei-te a ti, porque nem a distância nos separou e nunca desistimos, aprendo a vida através do que me vai na alma e na alma tenho a calma do que me ensinou o coração. Amor és tu no que sinto tão completamente como o ar que respiro. Amor é a voz que oiço quando me falas ao ouvido. Amor é o que o coração explicou à alma num beijo que ficou para sempre tatuado debaixo da pele. Sinto-te inevitável, eterna, uma pedra precisosa que guardo num abraço que nunca chega ao fim. Colecciono-te milímetro a milímetro em pleno desassossego dentro e fora de mim.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

We will always have Paris

Alain Bublex, Plan de Paris, 2006

Porque te sonhei de mão dada pelas ruas de uma cidade do nosso tamanho e porque te quero com a mesma intensidade da luz eterna que a ilumina, passeei-te de corpo, alma e coração seguindo o mapa do Amor. Não pergunto direcções, sei o quero e por onde vou, mesmo quando baralho o norte com o sul. Em todos os meus pontos cardeais estás tu e tu és do tamanho do mundo. Passear-te é viajar-te apaixonadamente e sem destino porque é infinita a minha vontade de encontrar-te em cada esquina. E não existem distâncias impossíveis quando queremos tão intensamente a viagem. Todo o longe é perto quando o abraço não tem fim. Nos beijos com que nos celebrámos na cidade que inventou o perfume, caminhámos perfumadas pela certeza de que o tanto que temos é infinito e incontornável. Uma na outra somos a vontade de sempre em qualquer lugar do mundo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Quando o mundo mudar de sítio

Anabark, Forte (MAR06)

De que serve um castelo no fim do mundo, quando o que queremos salvar e proteger fica do outro lado? A fortaleza, que será também a minha prisão, não é longe, fica à distância de um mundo de pernas para o ar. 'Longe' pode ser perto, ao virar da esquina ou até dentro da mesma casa. Mas 'longe' é também deixar de ter, ficar com menos, e ficar com menos quando se tem pouco faz a diferença de deixar de ser perto o tudo e o tanto que se tinha. Ainda que a distância seja um cálculo relativo que varia em função do que nos diz o coração, o 'longe' e o 'perto' medem-se na diferença entre uma mão cheia de coisa nenhuma e qualquer coisa sempre à mão. Ainda que o coração não meça a distância entre o ter e o não ter, sabemos que 'longe' é levar mais tempo a chegar, é escolher os dias para chegar, longe é ter a certeza da improbabilidade de te tocar ao virar da esquina. A esquina não estará lá porque o mundo vai mudar de sítio. Lado a lado continuaremos a inventar e a desenhar caminhos e pontes que abreviem o 'longe' que nos sobra da distância do tempo que não temos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Ao mesmo tempo

Anabark, Auto-retratos (ABR07)

Mesmo que ninguém acredite, nós sabemos que é verdade. Por muito que pareça impossível, sabemos que é real. Por ser tão verdadeiro, talvez por isso pareça inacreditável. Acontece, acontece-nos quando nos acontecemos. Porque corpo obedece à alma e a alma conhece bem a vontade de sermos muito mais do que um momento, reconheço em nós um coração único. No Amor acontecemos ao mesmo tempo e o Amor é tudo, prazer e dor, tristeza, alegria e felicidade, e muito mais. Acontecemos ao mesmo tempo no tudo e no muito mais que é o Amor. Somos mais do que perfeitas uma para a outra, num tempo verbal de existência partilhada, mais-que-perfeito, somos infinito. Se te digo que o Amor é maior do que a vida é porque nem a morte, que é para sempre, detém o que se reveste de eternidade. Acontecemos ao mesmo tempo numa metafísica impossível de explicar. A consistência do que não se explica surpreende-nos talvez, mas a intensidade que nos transcende é um segredo da alma que o coração reconhece incontornável. Se acontecemos em simultâneo somos Uma no que está para além do palpável.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Lentamente

Anabark, Acordar devagar (JUN07)

Adormecer lentamente, sonhar entre beijos e acordar devagar. As nossas noites começam e acabam em nós. Dormimos só às vezes e enquanto não dormimos vivemos intensamente um abraço debaixo de água sem pausas para respirar. O dia nasce depressa e nós acordamos sempre devagar. A única urgência que nos conheço é a de ficar de corpo e alma uma na outra. A cama vazia de nós perde a graça e nós morremos de saudades. Adormeço lentamente a pensar em ti, sonho-te se adormeço e acordo devagar, sem pressa de fazer a cama desfeita pelas horas em que nos desarrumamos tão completamente que amanhece e anoitece quase ao mesmo tempo sem nos darmos conta. Demora-me esta ansiedade de quem te quer voltar à velocidade da luz porque sei que nunca te chego depressa demais e cedo menos ainda. Demora-me saber que tenho de esperar. Demoram-me as memórias de nós encostadas na almofada e a antecipação do abraço em que nos quero infinitamente. Demora-me esta vontade de te mergulhar com a mesma urgência com que te respiro como sopro de vida. Na cama, demasiado arrumada, repousa a vontade de me perder contigo e de nos encontrarmos de corpo e alma em nós, acordando lentamente, vivendo intensamente. Adormecemos de cansaço, sonhando-nos amor sem fim... o coração não dorme.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Certeza

Anabark, Eu Sei (MAI05)

O que eu sei é que sei muito pouco ou quase nada. Ou talvez pense que sei alguma coisa e não sei coisa nenhuma. Talvez este nada de que nem tenho certeza seja ainda menos do que isso. Entre o que penso e o que sei são duas vidas de distância. Umas vezes penso sem saber, outras vezes sei o que penso. E não são raras as vezes em que quase tenho a certeza do nada que sei e tento não pensar nisso. Mas sei o que sinto, conheço bem o que me vai dentro do coração. Não penso que sei o que sinto, tenho a certeza. Sinto-te a ti sem dúvida nem sombra e muito mais do que concretamente. Sinto-te como a única verdade em mim. Sei que és vida e tudo o resto são pormenores sem a mínima importância. Sei o tudo em que te acredito por inteiro. Sei o tanto que te quero por mil vidas. Do sempre em que te sinto tenho absoluta certeza. E mesmo que não saiba dizer-te este infinito amar em que te embrulho todos os dias, sei a intensidade em que o sinto e a verdade em que o confesso: indómita no meu querer-te para além de tudo e sempre, insubmissa na minha vontade de amar-te tudo infinitamente.

Muitos anos de vida

Crystal Mcdonald, Remembering, 2004

A data é-me querida e o meu maior desejo é que vivas eternamente. Dois dias depois porque só agora cheguei aqui. Não chego tarde porque estive sempre contigo. E ainda que não possas viver para sempre, o meu coração desconhece o tempo, nele vives eternamente. O amor é maior do que a vida. Parabéns.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Quase a adormecer

Stu Egan, B sides Series (3), 2007

Adormeço sem dar conta e acordo quando me apercebo que estou a dormir. Às vezes é de dia, outras vezes nem por isso. O corpo não resiste e adoece no cansaço de quem, noite após noite, estica o tempo para que as horas tenham um bocadinho mais de vida. O corpo não obedece à vontade de ficar mais uns instantes a lembrar-te tudo com a minúcia de um coração embalado pelo infinito amor em que te vive. O corpo cansado adormece, mas a alma não descansa nem se cansa de procurar-te de olhos fechados, num caminho que sabe de cor, por entre sonhos, imagens e memórias que colecciono de ti. A alma conhece-te por debaixo da pele e, nesse tanto que te vai sabendo, vive ansiosamente a vida num só dia. A alma não dorme, passa noites em claro a ouvir o bater do coração e eu encontro-te no compasso desse ritmo apaixonado de querer abraçar-te tudo com a força com que gosto de ti. Adormeço para te regressar em sonhos porque não sei estar longe de ti, mesmo se no intervalo de distância os lábios se tocam. O corpo quer dormir porque está cansado há muitas noites e muitos dias. A alma resiste, embrulha-me na saudade e baralha-me o tempo a pensar em ti sempre e em toda a parte, mesmo quando me abraças o sono colada a mim. Adoeço o corpo do que me falta dormir para alimentar a alma do que me falta de ti, porque sinto infinitamente a tua falta acordada e a dormir. O corpo, a alma e o coração precisam de ti, tudo o que sou precisa de ti. No que me falta para adormecer fico, aninhada no teu corpo, a olhar para ti, na esperança de que me sintas, também, a embrulhar-te a alma e a olhar por ti.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

No centro

Niki Conolly, 18 days without rain... the color of delirium, 2007

Nas minhas horas desocupadas de bom senso sofro a angústia de estar a desperdiçar tempo com pensamentos supérfluos que me desviam do centro e da essência das coisas. O centro é o espaço onde apenas tu e eu cabemos num ponto único, convergente e tão concreto quanto absoluto. Divagar em círculos mais ou menos concêntricos, mais ou menos equidistantes, fora do que somos nós, é deixar acontecer hiatos de sentido e neles errar de forma quase patética. Quando não sei exactamente de ti, procuro-te no centro e ali estás sempre. E no centro onde te encontro ao centro tu és eternamente a minha vida, o princípio de tudo o que não tem fim. De que me servem as horas de alma vaga quando te sei o centro do universo? Que perda de tempo insensata pensar-te num sentido incerto e impreciso quando te sei tão mais profundamente para além das impressões que ficam. No centro do que eu sou tu habitas-me completamente numa certeza absoluta e translúcida de terra, água, ar e fogo. O Amor é a verdade com que te sinto e vivo nas horas e fora delas. No centro que é a essência de tudo somos o Amor indelével e infinito que muitos imaginam como mito. Meu Amor, a distância possível entre nós é a de lábios contra lábios num beijo.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Nuvens


Kenny Goh, Silver Lining

Há momentos em que me apetece deitar nas nuvens, adormecer na sua imensidão impalpável e amanhecer por lá para olhar lá de cima, bem cedo sob a luz cristalina da manhã, e perceber melhor a paisagem cá em baixo. A terra que me aguarda o despertar nem sempre é plana e, por vezes, tropeço em coisas que não alcanço completamente. Invejo as nuvens que nos observam, altaneiras, e sabem por onde caminhamos, onde caímos e nos levantamos tantas vezes sem nos darmos conta. Esta noite sonho com um colchão de nuvens e uma almofada de luz.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Infinito

Mathew Jellings, Timeless, 2007

Nos dias bons, nos dias maus, nos não-dias ou dias assim-assim. Nos dias de ausência ou na ausência dos dias em nós. Na distância daqui ao outro lado do mundo ou à distância de lábios que se beijam. Incondicionalmente para sempre. O meu 'sempre contigo' não tem tempo nem lugar. Sempre é a perpétua vontade de te ter comigo e a certeza de um amor absoluto. O meu 'sempre' é o mar infinito e intemporal em que te estendo os braços para tentar dizer-te 'Amo-te tudo'. Tudo não tem fim, é o tamanho do 'sempre' a que acrescento mais um dia por cada dia que passa por nós. Nem passado nem presente nem futuro. A vida que me anima a alma e que o coração sente tão completamente neste 'nós' que somos abraça-te e segura-te a eternidade. Depois de ti não há nada. O 'tudo' é o infinito que há em ti e em mim lado a lado.

domingo, 2 de setembro de 2007

Daqui a nada

Oleg O. Moiseyenko, Time XII (Kandisnky Time Series)

Quantas horas faltam para 'daqui a nada'? Quando faltava 'quase nada' para te ter olhos nos olhos, eu adormecia a sonhar esse 'daqui a nada' que tu dizias que faltava. E, na febre dessa ansiedade a queimar-me o corpo, as horas que contei 'daqui' a 'nada', desse quase nada de distância para nos voltarmos, eram muitos dias, tantos que nem sonhava porque acordava no sobressalto dos ponteiros fixos do tempo de espera. Voltaste mais depressa do que 'daqui a nada', tão depressa que nem me deste tempo de perguntar-te pelo caminho 'Agora já é logo?'. Logo era o 'daqui a nada' prometido e tu chegaste mais cedo, enquanto eu te seguia o rasto, segundo a segundo, no meu relógio lento de tanto tempo à espera.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Àcerca de ausência

Jim Warthman Eternity, 2005

«Absence is to love what wind is to fire: it extinguishes the small, it inflames the great.»

Bussy-Rabutin (1618-1693)

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Arrumações

C. Evans, 10-29-05 My Room, Dammit!, 2005

E quando tu não estás nada está no seu devido lugar. Arrumo objectos, planos e pensamentos e tudo permanece fora de sítio. Faltas tu e sem ti a casa está desarrumada. Vejo a desordem acontecer sozinha e não faço nada contra este estado de sítio inevitável em que as coisas divagam durante a tua ausência. Não posso fazer nada, deixo tudo acontecer sem mim, porque sem ti eu existo em parte incerta. A desordem é uma forma de distrair a espera. Enquanto não chegas transformo os dias em puzzles e em equações indecifráveis. Não procuro soluções. O Universo tem uma ordem precisa que voltará a ser amanhã, quando voltares.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Chegar-te

Adalberto Tiburzi, Unstable Triangles 1
Conto as horas que nos separam e elas passam tão lentamente que confundo os dias com as noites. O meu calendário é uma página em branco em que só deixei ficar os dias em que abrevio a distância para ir ao teu encontro. Todas as encruzilhadas são possibilidades de chegar-te, mas tenho partida e chegada em dia e hora marcados. Desespero. E tu esperas e desesperas. Falta sempre muito tempo quando estamos à espera, mesmo sem longe nem distância entre entre aqui e agora...

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Longe, a Sul

Adalberto Tiburzi, Frames 3, 2002

Há espaços que são nossos, meus e teus apenas, ainda que, por eles, milhares de pessoas se passeiem antes de depois de nós. Este espaço onde te escrevo é nosso. Inventei-o para ti como a única ponte em que me senti segura a atravessar para te chegar do outro lado, na margem da ausência, numa distância imaginada, feita do tempo que é preciso para nos encontrarmos por dentro, no mais profundo e verdadeiro da alma. Inventei-te e procurei-te meses a fio aqui neste lugar. De tanto te procurar acabaste por me encontrar num acaso que, se calhar ou quase certamente, foi escrito por uma vontade superior cujos desígnios nos escapam, mas que nos ensinam que há uma força maior em nós que não podemos contrariar. E, nesta ponte que construí e que soubeste atravessar vivemos eternamente nas palavras que nos desenham graficamente o Amor. Aqui volto todas as noites e todas as manhãs me encontras. Às vezes parto em viagem, mas nunca em pensamento. Depois de amanhã partes tu, num sopro de tempo para a beira do mar. E até eu seguir ao teu encontro, as palavras multiplicam-se, e depois disso também. E quando tu voltares, este lugar cresceu em saudades nos dias que nos separaram, a provar que a ausência é sempre falta e que o Amor é fogo que incendeia infinitamente.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Supercalifragilisticexpialidocious

JD Anderson, Love is..., 2003 (1 Coríntios 13:4-8)

Há palavras que não sei dizer mesmo na língua que melhor conheço. Há palavras que tenho dificuldade em utilizar porque não me dizem nada e é suposto as palavras dizerem sempre alguma coisa. Há palavras que nunca me lembro de dizer porque nunca me fizeram falta para me fazer ouvir. Há palavras que utilizo quando valia mais estar calada. Há palavras que ficam a meio porque mudei de ideias enquanto falava. Há palavras que não sei o que querem dizer e, mesmo assim, teimo em dar-lhes um sentido único. Há palavras que me escapam e que nunca mais voltam ao mesmo sítio. Há palavras que não sei escrever, mas conheço-lhes o significado. Há palavras que confundo e, por isso, hesito e apresso-me a explicá-las por sinónimos. Há palavras que digo sem querer e sou mal interpretada. Há palavras que quero dizer e que me faltam. Há palavras que digo sempre da mesma maneira e nem sempre são ouvidas com a mesma intenção. Há palavras que escrevo e que não digo por ter receio de redundâncias. Há palavras que sinto intensamente e não sei dizê-las com eloquência. Há palavras, muitas e eu conheço tão poucas! E há uma palavra que aprendi contigo e sei senti-la, dizê-la e escrevê-la correctamente: 'Amo-te'. É uma forma do verbo 'amar' que eu só sei conjugar no Infinito quando penso em ti.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Pequeno-almoço?


Cheryl Ridge, Making Scones
Amor, os verdadeiros scones (receita inglesa) não levam ovos e há uma série de regras que temos de cumprir, ainda que, às 2h da manhã, a disposição para cumprir regras não seja por aí além, já que temos mais do que fazer durante a noite, para além de comer scones para repôr energia.... Havemos de chegar à perfeição também a fazer scones...
Scones
12 colheres de sopa de Farinha
6 colheres de sopa de leite
3 colheres de sopa de açucar
1 colher de sopa de manteiga
2 colheres de chá de fermento
1 colher de chá de sal
É só juntar os ingredientes (DE ACORDO COM AS REGRAS ABAIXO INDICADAS), fazer umas bolinhas e colocá-las num tabuleiro previamente untado com manteiga e polvilhado com farinha.
Rules to make perfect scones:
  • Preheat oven to 200C 15 minutes before making scones. A hot oven is essential to cook evenly risen, golden-brown scones with crisp crusts.
  • Cook scones in the top half of the oven. Adjust shelves before turning on the oven.
  • Grease a flat baking tray with a little melted butter only where you intend putting the scones.
  • Always measure then sift the flour. Sifting adds lightness and removes large lumps.
  • Only use butter and use it straight from the fridge. Cut into small cubes, then add to flour.
  • Rub in with your fingertips only. Using the palms of your hands will cause the butter to melt and the result will be oily scones.
  • The water and milk mix is used because water adds lightness and milk adds flavour.
  • Use a table knife in a cutting motion to mix liquids with flour. Do not over-mix or you will make tough, heavy scones.
  • Turn dough out onto a lightly floured surface. Knead gently with your fingertips until dough just comes together. Pat out till about 2.5cm thick. Do not roll.
  • Use a sharp cutter on dough. Do not twist cutter, it causes unevenly risen, lopsided scones.
  • Bake dough immediately. Wrap cooked scones in a clean tea towel or linen serviette to give a softer crust. a Scones should be eaten within a couple of hours of baking.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Dias de espuma

Zane Paxton, Foam & Rock, 2006

Desabituei-me do relógio, mudei de vida ou, pelo menos, mudei de tempo e do espaço que o tempo se demora. As minhas horas são as tuas e a disciplina que lhes impomos para vivê-las infinitamente. Mas, ainda assim, a vertigem do que nos queremos altera-nos os planos e, por isso, vivemos mais depressa do que o resto do mundo sem nós. Os nossos dias são mares de espuma pelo tempo que se esgota entre o aqui e o agora do que nos passeamos de pele na pele e olhos nos olhos. E porque o Amor é viver em estado de urgência, tudo o que em nós se passa deixa rasto. As saudades medem-se pelos segundos do relógio que ficou para trás e que recupero agora, para poder contar o tempo que falta para a nossa ausência de gravidade - porque o tempo é relativo, mas nem o Amor nem as saudades o são.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

O fogo e o gelo

Gary Fairhead, Blue Glow
Porque está calor e dentro há um fogo a arder, guardo-te água fresca numa nuvem de gelo que segurei ao passar. O fogo que arde vê-se e sente-se nos dedos das mãos. O fogo que se sente a queimar o corpo começa e acaba no coração. O calor que seca a boca, à procura de água, deixa-nos nos lábios uma única palavra 'Amo-te'. O incêndio em que nos sinto não é novo e, no que nos consome, parece não ter fim. Ardes-me em vontade e desejo por debaixo da pele. Refresquei água no glaciar que pus dentro de um frasco antes de correr ao teu encontro. E agora que aqui estou, não me sobra gelo. Quero dar-te de beber com urgência, a mesma urgência que sinto em mim. Conservo-te água fresca no gelo que desaparece pelo que incendiamos à nossa passagem. Descobri que o gelo queima, incendeia o corpo desassossegado pela paixão. A sede de nós é sempre a mesma e o fogo que nos consome também.