sábado, 31 de janeiro de 2009

Ao céu subiu uma estrela

Jardim de estrelas (Shiba Sakura - Japão)

Antes de ontem o teu mundo ficou mais pequeno, e o meu também. Antes de ontem o mundo inteiro perdeu um sorriso do tamanho do mundo e ficou menos do que era antes de antes de ontem. Ontem acordámos mais pobres, mais despidas, mais transparentes e mais rentes ao chão do que somos sob a contemplação das estrelas que, na terra, adormecem para acordar no céu. Ontem démo-nos conta que somos muito pouco no infinito mistério da vida, mas também aprendemos que o muito pouco que somos, às vezes, faz a diferença na vida do muito pouco dos outros. Ontem choviam tempestades desde a alma ao céu. Hoje o sol brilha como se nada tivesse mudado a não ser a nossa consciência de que o que importa verdadeiramente é amar todos os dias como se fosse o último, viver nesta urgência, percebendo, a cada instante, quem faz a diferença no que somos e no que queremos ser para ser felizes. Hoje à noite, quando olharmos as estrelas, uma delas reconheceremos pelo sorriso que, em nós, nunca se acaba.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Revelação

Firstbrook, The great hall, 2008

Celebro tantas coisas em ti, mas, talvez por egoísmo, festejo aquilo que não te descobriste noutros tempos para me chegares com a maturidade de quem viveu e encontrou a essência que se adivinhava. Celebro a descoberta pelo valor acrescentado que ela representa num percurso intímo que só depende de nós próprios e do que estamos dispostos a apostar para nos cumprirmos. Celebro o momento que te disseste que sou mais do que apenas o que tenho por agora. A luz que deixamos entrar, nesses momentos raros de lucidez, plena fazem a diferença entre viver realmente e o existir por existir. Porque a felicidade depende da capacidade de nos assumirmos perante a vida, de nos permitirmos sentir inteiros, dessa liberdade que aprendemos, pouco a pouco, de ser o que somos verdadeiramente. Tudo aquilo que nos acrescentamos livres faz-nos crescer por dentro. Quando sabemos quem somos é mais fácil encontrar o que nos faz falta. Ser feliz é encontrar o que nos desejamos instintivamente. Celebro-te a coragem de não desistir de procurar o que sempre quiseste para ti. Celebro o estarmos aqui nesta forma completa de quem está por muito querer.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Sem desvio

Adrian Reilly, One Way, 2006

Em todas as paredes dos lugares por onde passo, vou escrevendo o teu nome no seu verdadeiro sentido e não com as letras que o formam. Por todas as estradas, caminhos ou encruzilhadas, vou deixando pistas da direcção que te escolhe sempre antes de tudo. Em frente é por onde vou, sem memória de outra coisa senão aquilo que vivi para te encontrar. Em frente sem passado senão aquele que me esculpiu o sonho e o tornou palpável. Caminho na linha recta do indefínivel e assim te partilhas na mesma caminhada. O Amor, que ninguém sabe definir senão por aproximação, é uma estrada de sentido único sem desvios e a vertigem da velocidade de querer ir mais longe e ter mais história partilhada. O Amor, que não tem peso nem contorno, é uma direcção irreversível. Não seria Amor se nos distraíssemos a olhar para trás.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Partida, largada, fugida

Jeroen Bosman, Softning up, 2006

Anda comigo, tenho o mundo para te mostrar e o universo à nossa espera. Vem daí, vem comigo pela terra inteira à conquista do que é nosso por direito absoluto: o infinito. Dá-me a mão e acompanha-me por todo o lado, porque tudo nos pertence, tudo é nosso e nós somos o tudo que percorrermos, lado a lado, num passo único e seguro. Corre livre neste passeio pelo tempo que temos emprestado e sê comigo tudo o que sonhas e o que te queres cumprir. Vem com vontade de saltar em altura e comprimento aquilo que não nos faz falta e que nos faz perder tempo no caminho. Juntas somos uma cuja força ninguém virá que dome.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

De corrida

Yannis Logiotatides, Stair, 2008

Neste intervalo, que não tenho mas que invento para te chegar, confesso que as horas do dia acontecem mais plenas nos instantes em que te sonho e me sonho contigo. E sorrio. E tudo o resto me parece insignificante pelo que lhes falta de nós. Porque tudo o resto acontece num contra-relógio para te voltar. Neste intervalo, que o tempo real não me permite, mas que eu insisto em inventar, regresso-te vezes sem conta e, em ti, descanso da corrida, das subidas e das descidas, e em ti permaneço o tempo suficiente para recuperar a força necessária para dar a volta e fazer tudo o me falta para te poder voltar de alma inteira e corpo sedento do teu abraço. O coração fica sempre contigo, aninhado, à espera de nós no mesmo espaço. E sorrio, contente, por ser assim, sempre eu em ti e tu em mim.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Provavelmente a eternidade

Anabark, Tempo (DEZ08)

No que o tempo acrescenta à paisagem, encontro-te, camada sobre camada, com a consistência da pedra que conta a história de muitas vidas passadas junto ao mar. Em mim és sem tempo, ou melhor, talvez sejas o próprio tempo, o tempo que eu conto e desconto, a medida de todas as coisas em que aconteço dentro e fora de mim. Talvez o infinito coincida com este fora de tempo em que te sinto e vivo. Talvez eternidade seja esta paisagem alterada pelo tempo em camadas. Há em nós uma inevitabilidade demasiado grande para caber no tempo. Porque o Amor e o tempo são duas dimensões diferentes. Por vezes tocam-se e deixam marcas na alma que nos sustenta o corpo. Mas o tempo passa e acontecem mundos diferentes por entre as horas que se desenrolam. O Amor transcende o corpo porque acontece no universo da alma. E tu, nesse universo em mim, és imortal.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Celebrando...

Always (a partir de 'Mutts 3: Mais Coijas), 3º Aniversário (JAN09)

Sabes qual é o meu maior desejo no dia de hoje?
Que multipliquemos infinitamente os 3 anos que temos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Pela chuva

Ackerl, Out there!
Em frente aos olhos um jardim suspenso, onde o verde se afoga nos lagos que a chuva deixa à superfície da terra saciada pelo inverno. E, hoje, tenho sono. A chuva que, lá fora, nos torna o dia desconfortável, surpreende-nos em diferentes esquinas da alma. As mãos e corpo gelados aguardam momentos de agasalho, enquanto vai anoitecendo no jardim. Não sei onde estou. Cá dentro e lá fora, tenho frio e sono e sei que não estou em mim.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Minimal

José Pinto, Gamelight, 2004

Enquanto, no meu colo, aninho a espera do tempo que conto e desconto para que chegues com a mesma pressa com que te espero, vou alinhando o sentido das palavras que quase nunca chegam ao que eu lhes projectei. Sei que, neste espaço de perda entre o que se pensa e o que se quer dizer e o que se lê e se interpreta, falho muitas vezes em dizer exactamente como sinto e não o que sinto. Porque o que sinto é mais fácil de dizer. Como o sinto é uma visão calesdoscópica de muitas coisas ao mesmo tempo que, embora tente, não sei dizer num sentido único, sem margem de erro interpretativo. Por mais que organize um sentido e uma geografia precisa na cadeia de palavras que me ocorrem para falar de ti, sei, com toda a certeza, que as palavras têm vida para além de mim, no que tu lês e nem sempre escrevi. Aqui e agora, tenho três palavras inequívocas para te acordar amanhã de manhã: tu, amor e sempre. Assim, de forma minimal e sem ambiguidade.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Mais do que palavras

Barbara Heide, Sous influence ou inspirée, 2006

Está escrito em todos os livros, em todas as línguas, mesmo nos livros que não são livros e em linguagens que não são línguas. Está escrito numa forma universal de comunicação. Está escrito com uma força contra a qual não existem leis nem sequer a ausências delas. Está escrito em todas as cores e em todos os tamanhos. Está escrito de trás para a frente e da frente para sempre. Está escrito simplesmente, na medida exacta do que se sente. Do que sinto. E o que sinto não sei dizê-lo de outra maneira nem ser mais convincente. Sinto-me inteira, sem fim, verdadeira. Não procuro mais do que o que sinto e o que encontro em ti. Não quero mais do que o tamanho infinito do que abraço em ti. Porque não existe mais para além disso. Mas nada no Amor é suficiente e ainda bem. Por isso, não quero mais nada para além de ti e tudo me parece pouco. Sabes porquê? Porque tu és a minha vontade de sonhar o infinito e, não querendo nada, tenho contigo todos os sonhos do mundo para cumprir. Perdoa-me se te parece impossível, mas acredito numa escala de tempo que poucos compreenderão, o que é irrelevante. Basta que tu me acredites da mesma forma em que projecto a nossa eternidade.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Decrescer

Firstbrook, With an icy blast of breath Stan brings the car to a standstill, 2008

Se tivesse escolha, se tivesse o privilégio de decidir pelo que me apetece e não pelo que tem de ser, se fosse realmente livre como ninguém o é completamente, tirava o dia e ia brincar com o frio, à procura de bonecos de neve em ruas onde não neva, num carrinho de brinquedo e um gato, um cão e um lobo amigo por companheiros quentes de brincadeira. Gostava tanto de ser um desenho animado!...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

De baixo a cima

Yannis Logiotatides, Alpen Mountain, 2008

Hoje, que viajei até ao mais profundo do centro da terra, apeteceu-me o tempo todo andar nas nuvens e vigiar a paisagem lá de cima, como os anjos, supostamente, têm como missão, nem sempre bem cumprida. Agora que o dia caminha mais lentamente, regresso ao meu infinito pessoal, o abraço do Amor, firme como as montanhas que nos observam desde o princípio do mundo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Fado

Agnes T. Ackerl, Depressed

Sem mais nem menos, somos confrontados com a fragilidade da vida. Neste dias, irreversíveis, que começam mal e não chegam ao fim, porque o que era não voltará a ser, percebemos que somos muito pequenos e insignificantes. Aprendemos pouco ou quase nada. Amanhã, quando acordarmos, somos feitos da mesma matéria e teremos sorte se acordarmos. Haverá quem não acorde para o dia seguinte e uma tristeza intrínseca nos que são tocados pela ausência. Deveríamos aprender algo, uma lição de vida. Passear os olhos tristes é muito pouco perante a urgência da mensagem: temos pouco tempo, seria um desperdício viver a adiar as coisas importantes da vida. Há que aprender a valorizar, a hierarquizar e a viver à escala humana.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

À beira de 2009

Maaike Huizer, January 1st - Let's play

Está quase e é inevitável. É ver o que acontece...
FELIZ ANO NOVO a todos dentro e fora do 'Copo...' Que 2009 nos faça mais fortes, mais felizes e melhores como seres humanos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Prémios Dardo


Obrigada Brokenangel e Angell pela distinção atribuída a este espaço, com um prémio que tem como objectivo "...distinguir blogues que contribuem de forma significativa para o enriquecimento da cultura virtual, através da veiculação de valores culturais, éticos, literários, pessoais… premiando os blogueiros que demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo e através das formas de comunicação que utilizam para o expressar...."

Aqui fica o selo do prémio, mas não a escolha de outros blogs para premiar, porque é difícil escolher e porque há demasiadas coisas boas para escolher só algumas.

Lembrança

Christoph Joosten, 50 mm shots, 2007

Lembrei-me de um anel que nos segurasse a força de para sempre e mais um dia. Lembrei-me dessa força imparável que nos fez convergir num centro inamovível. Lembrei-me da resistência dos metais preciosos, da velocidade de um cometa ou da altura de uma montanha. Lembrei-me de tanta coisa, meu amor. E depois ficou-me a ideia obcessiva de uma argola em ferro, sem princípio nem fim, para definir a ideia em que eu habito o nós.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Do outro lado do inverno

Yannis Logiotatides, Drops on window, 2003

Enquanto a chuva desce e o abraço em que descansamos nos aquece a noite do frio em que se desfiou o dia, lembro-te a ti e a mim sem o abrigo que hoje somos. Aqui, por detrás do vidro da janela que nos separa da tarde invernosa, sabe bem recordar as muitas voltas que o mundo deu até nos encontrar num mesmo passo, num mesmo tempo, numa mesma história. Aqui, abrigadas dos dias invernosos em que derivámos na dôr, à margem uma da outra, celebramos uma fé maior do que a vida, porque ela é a própria vida quando tudo perde sentido longe do Amor. O fogo, que é como sempre foi, vive em tons escaldantes numa chama alta. Aqui não temos frio, a roupa sobra-nos despida da pele incendiada por este algo tão imenso e quanto impalpável que sentimos por dentro e nos estremece o corpo todo. Ontem já éramos tudo isto, mesmo quando, longe, chorámos o que nos julgámos impossível. Hoje somos mais e amanhã, recordando hoje, seremos mais ainda. Somos infinitas, porque o provámos a nós mesmas e aprendemos a razão desse infinito. Porque, se dúvidas houvesse, bastaria olhar para trás e repararmos na nossa sombra escura e arrastada nos tempos de abandono. Porque tu e eu temos uma razão de ser, aqui, do mesmo lado. Do outro lado do inverno, um mundo de vento, chuva e nevoeiro sem nós.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O amor no calendário

Matthew Jellings, Ice Leaf

Quase a fechar o ano e a celebrar, pela terceira vez, o dia em que a vida nos começou um fogo diferente ao nosso encontro, sorrio aos três anos que nos juntam e percorro todas as esquinas do pensamento, revivendo os caminhos que andámos para estarmos aqui, à distância de um beijo a qualquer hora do dia. Temos história. Temos tanto para contar, vivemos tanto para aqui chegar. Temos muitas histórias, sobramos em intensidade no tanto que já vivemos em tão pouco tempo. Somos o exemplo de que de nada serve lutar contra a vontade que a alma segura a ferro e fogo. Porque o coração tem vida própria, porque aos dois corações que se reconhecem na primeira hora une a promessa de sempre. Somos esse inexplicável e esse infinito que os outros nos reconhecem no olhar. Porque brilhamos por dentro e há uma luz que nos encaminha os dias, um a um, cada vez mais perto do que queremos cumprir - o nosso sempre é um estado de alma absoluto, sem sombras nem dúvidas.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Boas Festas

Jim Larkey, Christmas Tree, 2004

A todos quantos por aqui passam e se demoram e aos outros que, nunca passando por dentro de copos escritos, desejam e procuram ser felizes votos de FELIZ NATAL.
Que, esta noite, haja presentes sem preço, tão raros e únicos quanto os desejos de alma de cada um de nós. Nada do que é realmente importante está à venda em lojas...
Um abraço de boas festas!
Always & U-Turn

sábado, 20 de dezembro de 2008

Pelos cantos

Anabark, Pelos cantos, SET08


Nos cantos, pela casa, espreitam partes de nós desengonçadas. Reparamos todos os dias no que temos de arrumar e, por vezes, arranjamos tempo para deitar fora e desocupar o espaço que nos falta. Outras vezes acostumamo-nos e deixamos estar desarrumado. Porque nos doi o corpo pelas horas acordado, porque nos doi a cabeça de tanto pensar. Nos cantos, pela rua, sobram pedras abandonadas. Tropeçamos, passo a passo, nas que não conseguimos evitar. Não sabemos de onde vêm, mas apenas que ali estão à espera da gente que passa distraída, de olhos mais alto do que o chão. Os dias estão muito longe do Natal. Voltar a casa é acreditar que o que nos apetece vai acontecer. E corremos mais depressa do que as pernas podem. Todos os lugares do mundo são não-lugares longe da casa onde nos cumprimos. Pelos cantos, vão estando coisas soltas por arrumar, que nos sabemos, muito bem, onde as encontrar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Descrição

Jakob Ehrensvärd, Exploding sugar cubes

A vida acontece acontece mais depressa do que a dor tantas vezes incurável. A vida passa sem darmos conta que envelhecemos e da irreversibilidade do que vamos ficando. Aqui e ali juntamos estilhaços úteis de uma moldura que nos configura a existência, com mais ou menos sentido, dependendo do empenho que lhe dedicamos. E ainda que tudo se transforme, às vezes perdemos o jeito de criar de novo. E nesses momentos, salva-nos o espaço interior que nos faz sentir inteiros, unos e cristalinos, o que sentimos só nosso incondicionalmente, ou nada do resto faria sentido. E só o Amor assim se descreve. Nada em mim é mais verdadeiro do que o laço que me faz viver-te sem descanso porque não sei distinguir-me de ti. No que me une a ti não envelheço, recrio-me e transformo-me. Aprendo a vida do princípio, porque não sei nada e quero muito aprender sobre todas as coisas que somos sem saber. De ti nasce-me a vontade de ser para sempre porque, à medida que o tempo passa, seja qual for a estação do ano, confirmo que não sei separar-me de ti. Só o Amor assim se descreve, neste olhar para dentro e ver-te aqui, para além da pele, onde as mãos não tocam, aqui no mais intímo e autêntico do que sou e tu és num todo. Só o Amor assim se descreve, a clareza de ser contigo, indivisível.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Pedras

Frank Loehner, Cutting the stone - raw material, 2005

Pedra sobre pedra crescem muros.
Dentro de paredes há um mundo inteiro retraído,
de paisagens retalhadas

pelos muros que se erguem
em florestas de pedra descontroladas.

Debaixo das pedras vivem escorpiões assustados.
Pedra sobre pedra deixamos acontecer
muros mais altos do que altura segura para saltar.
Que nos falte o cimento
e nos sobre a força para os derrubar.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Chega-te a mim

Wenche Aune, Winter 06, 2007

E havia fogo sepultado no gelo das horas vazias porque a chama permanece na alma tão naturalmente como a fome e a sede habitam o corpo vivo. E o gelo nunca fica porque se transforma em água que mata a sede ou que aquece o estômago à procura de conforto. Longe de nós pouco existe, a consistência perde-se e as coisas derivam numa lógica imprópria porque incompreensível. Até as palavras que nos abandonam procuram formas de nos alcançar com uma urgência incontornável que, por vezes, não sabemos acompanhar. Erros de percepção são reflexos no espelho, imagens imperfeitas que se sustentam numa inversão da realidade. Descubro-te lentamente descubrindo-me. Os dias de tempestade são apenas nuvens num céu de azul infinito. Por cima das nuvens o sol não dorme. A luz permanece num plano absoluto de imortalidade. Assim nos sinto eu, assim nos vivo sem equívoco do que te sinto em mim. Porque há um lume aceso em nós como o céu luminoso e sem limites para além das nuvens.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Dias úteis

Jakob Ehrensvärd, Conclusion, 2006

Nos dias em que nos são úteis, sinto o mundo encolher e tornar-se tão pequenino que, às vezes, chega a desaparecer. Outras vezes, vai ficando tão difuso e indefinido que se torna, simplesmente, invisível. Nesses dias raros, porque únicos para nós, a matéria que nos funde é de uma outra grandeza e consistência que só estremece perante uma catástrofe natural. E somos sem tempo e sem fim encostadas uma à outra, a ordem de todas as coisas, mesmo daquelas que ainda não são. Tudo quanto existe perde centralidade e a pertinência relativiza-se numa inversão voluntária de prioridades. Tudo quanto existe somos nós, o princípio e o fim de tudo e não o mundo que nos sobra. Nos dias que nos são úteis, o universo deixa de ser uma ideia da física e da matemática combinadas. Nos dias que nos são úteis, somos o infinito e todas as combinações e probabilidades de existência.

sábado, 29 de novembro de 2008

Meteorologia

Zenmatt, Snow slidding down, 2006

O frio que, lá fora, despe as árvores até à próxima estação e pinta o chão de folhas em tons de Outona quase Inverno, aconchega-nos num abraço que queremos sempre mais quente e mais demorado. O calor que procuramos no corpo uma da outra prolonga-nos a vida numa estação única e a certeza da escolha - o Amor escolheu-nos e nós escolhemos o Amor. Sinto, no abraço que nos recolhe ao fim do dia, a essência desse encontro feliz que nos devolve a vida que antes de 'nós' só existiu enquanto promessa. Sinto, no beijo em que nos damos e recebemos por inteiro, a alma e o corpo encontrados e a eternidade que ouvi dizer, sem acreditar, tantas vezes antes de ti. Hoje sei que o Inverno é apenas uma estação do ano e que a lã das mantas que nos cobre, embrulhadas uma na outra, não nos deixa passar frio. E que depois do Inverno virá a Primavera e assim sucessivamente. Tenho sorte, porque, às vezes, a vida é um deserto de gelo onde o sonho esmorece e morre, porque ouço dizer a alguns que o Verão é uma apenas promessa. Eu acredito no calor que me aninha todo o ano. Tenho-te a ti, não dependo da meteorologia.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Sem lugar

Adrian Reilly, The Chimneys of Griffithstown, 2006

Recordo a rua que nos encontrou ou em que nos encontrámos pela primeira vez. Já não existo no mesmo sítio e faltam-te poucos dias para deixares a vizinhança que me tem ausente. Pouco importa quando conquistámos um mundo depois disso. Para trás ficam instantes feitos de primeiros momentos, coisas nossas que não morrem no tempo. Para trás ficam apenas lugares que continuam nossos para além do espaço que ocupam. Nada se perde numa partida de mãos cheias. Os dias que aí vêm são o resto da nossa vida e será sempre assim. Tu e eu existimos em todos os cantos do mundo, tu e eu não temos nem tamanho nem distância porque não existe medida quantificável que nos contenha no que vivemos por debaixo da pele que nos embrulha numa só. Os dias que aí vêm são mares infinitos por onde nos navegamos de corpo e alma. O lugar que nos acolhe é a nossa certeza de ser sempre sem limite e incondicionalmente. A rua que, um dia, nos encontrou continua no mesmo sítio, mas nós, que deixámos de por lá passar, existimos muito para além dessa recordação do princípio. Somos os dias por vir e a esperança de que o tempo não tenha fim. Recordo a rua pelo prazer eterno de te revisitar ao meu encontro pela primeira vez. Será sempre assim.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Na terra inteira

Adrian Reilly, Love like Blood, 2007

Está escrito em todo o lado, nas paredes, nos muros, no chão, o que corpo reconhece infinito no coração. Tudo à minha volta me fala de ti. Está escrito em toda a parte que tem de ser para toda a vida, que nós somos sem tempo em todas as dimensões. Este nós em que crescemos cada vez mais uma é um estado de existência superior. Porque crescemos para além de um 'eu' e aprendemos a melhor parte de nós. Porque nos cumprimos, partilhando. Porque o ser é mais inteiro por ser capaz de integrar o outro e renascer nessa união. O Amor para toda vida é capacidade de nos reaprendermos uma na outra num nós forte e adulto. A minha vida é hoje infinitamente mais rica pelo que te aprendo e o que dou de mim. Eu e tu somos em tudo mais porque amamos e sabemos a importância do Amor. Está escrito na terra inteira que tu e eu somos um lugar infinito, um caminho único, um universo por descobrir. Debaixo da minha pele o nós é imortal.

sábado, 15 de novembro de 2008

Cá em cima

Jakob Ehrensvärd, Windows of the past Series,2008

Lá fora, as horas avançam de um lado para o outro e ignoram-nos. Espreitamos cá de cima o que não nos apetece e ficamos coladas à janela ausentes do tempo que, lá fora, não é nosso. Aqui, onde nós estamos, o tempo é História - a nossa era, passado, presente e futuro. Por debaixo da janela, na rua, onde as horas correm apressadas, as pessoas vivem indiferentes a esta ideia de imortalidade. Tu e eu sentimos e vivemos uma outra dimensão, onde a medida de tempo é o ritmo cardíaco do teu toque na minha pele, do teu beijo no meu coração. E nesta eternidade de sentidos em que nos concebo, nada nos interrompe. Nesta História heróica e exemplar vivemos muitos anos, ontem, hoje e depois disso. Tu e eu somos o espaço e o tempo do Amor - indiferente à vida e à morte, absoluto e incondicional. Para além do Amor, não há matéria nem outro tipo de partículas - só vazio, escuridão, o nada.

domingo, 9 de novembro de 2008

Am(arte)

Sharon Rrogers, Lace, 2006

Haverá arte maior do que o rendilhado do Amor? Porque a malha que o tece exige-nos uma inegualável disponibilidade e porque somos absolutos e verdadeiros para nós mesmos quando amamos. Se te sinto de forma plena nada me faz desistir da parte que és em mim, porque sem ti não sou eu, sou apenas um estado de existência transitório. Amar-te é ser mais do que apenas eu, é acreditar que tenho um sentido e que me cumpro na arte de viver. Porque o Amor é vida e o contrário é morrer. Sem ti cuidei que morria e morri todos os dias e todos os dias sobrevivi porque acreditava que eras tu a minha vida e que, um dia, me voltarias. Porque, apesar da dor do longe e da distância, acreditei em nós, porque o Amor vivia em mim e sempre soube que em ti também. Haverá maior arte do que esta que me esculpe, no coração, o teu nome?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Mistério

John Lamb, A small place in the country

Assim, no meio de uma paisagem aberta ao infinito, visto-me de céu e saboreio o vento que me empurra. Tenho a sorte de reparar na brisa e nos diferentes tons de azul que me espreitam lá de cima. O espaço que ocupo é pouco mais do que o meu tamanho e, por pouco que seja, não preciso de mais porque não sou mais do que eu mesma, logo dispenso o excesso ao qual não serei capaz de dar uso. A dimensão das coisas é a grandeza da vida interior que as habita e não o que a física torna lei. Do tudo ao nada vão muitas vidas num só tempo, vidas de nada e vidas de tudo. A existência perfeita é aquela em que coincidimos no que somos com o que os outros nos reconhecem. É difícil, senão impossível - somos múltiplos em nós mesmos e nos outros uma imagem apenas. Numa paisagem deserta, embrulhada de vento, tudo parece mais simples e inteligível.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A fragilidade das horas

Jakob Ehrensvärd, More glass crushing, 2005

A fragilidade dos dias é vivida hora a hora, segundo após segundo. De um momento para o outro a luz pode tornar-se noite escura, impossível de navegar e, por vezes, definitiva. E nem sempre nos damos conta deste estado de fraqueza que é passar pelo tempo sem perceber que os dias passam sem retorno. Esbanjamos o que não é nosso, deitamos a perder o que jamais conseguiremos ganhar. De uma hora para a outra perdemos tempo de vida a pensar que temos uma vida cheia e adormecemos indiferentes à contagem decrescente que, irremediavelmente, caminhamos. Consumimos tempo por tudo e por nada menos pelo que é essencial. Ou porque achamos que os dias não têm fim ou porque não sabemos o que é importante. Passamos pela vida sem cuidar do jardim cujo o verde primavera, um dia, terá fim. Não chegaremos a tempo de salvar coisa nenhuma se não soubermos a medida exacta de cada segundo que respiramos.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Do lado de fora, o Inverno

John Lamb, Gathering Storm

Agora que o Inverno se aproxima da cidade onde tu e eu somos uma, dou-me conta que esta é a primeira estação fria que passamos em nossa casa. As minhas mãos frias nas tuas, tão geladas quanto as minhas, encontram debaixo da tua pele um verão tão longo quanto o Amor que nos embrulha indiferente às estações e à mudança de cor da paisagem. O tempo frio e as tempestades são meros intervalos que nos engrandecem o aconchego de um nós sempre quente e pulsante como a vida que anima as montanhas de fogo. Em nossa casa há mantas quentes em cada corredor da alma e no quarto abraça-nos um sol permanente como o centro de luz que organiza galáxias e dá forma ao Universo. O frio não nos chega, o calor que vem de dentro retem o Inverno à porta de casa. O Amor embrulha o teu corpo quente no meu e quando adormecemos sonhamos com a luz intensa que nos abraça o passado, o presente e os dias por vir.

sábado, 1 de novembro de 2008

Things to remember

Ricardo Alves, Seascapes of Portugal (Praia da Adraga), 2008

"...Love Anything
Use a metaphor and tell us that your lover is the sky
Sometimes
Sometimes nothing often means the beauty of the human experience
These things are to be remembered
To be remembered"
PETER MURPHY, "Things to remember"
_______________________________
Lá estaremos no Coliseu, hoje à noite, para lembrar com o mesmo prazer de sempre...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Ao relento

Douglas Allchin, Branches totally encased, 2007

Hoje senti frio a caminhar pelo dia soalheiro que nos amanheceu. Senti o frio de não te encontrar nos meus olhos durante o intervalo que deixámos por fazer. E o dia foi passando por mim a reclamar por atenção, indiferente ao frio instalado debaixo da pele que só aquece ao pé de ti. Agora que as horas mudaram e é quase noite sem o ser aqueço as mãos uma na outra, para que o sangue me regresse nesta pressa que tenho de chegar-te a casa. E tu, que corres mais depressa contra o tempo que não te sobra e estarás à minha espera, poderás reparar no arrepio dos dias sem ti, que disfarço no calor destes braços urgentes para te aconchegar. O meu abraço queima da impaciência que o dia me acrescentou. Se as palavras falham tantas vezes a eloquência de te fazer saber o que sinto, os braços que te abraçam têm a força de ontem e a confirmação de amanhã. Hoje celebro a certeza de que é em ti que quero morar em todas as estações do ano.

domingo, 26 de outubro de 2008

Segundo a segundo

Sheila Smart; Dali's clock with second clock, 2002

A vida é a soma das horas e do que deixamos construido nelas. Depois do fim dos dias, seremos apenas o que deixarmos ficar da nossa presença no tempo que percorremos dentro e fora de nós. Nada acontece sem consequências, tudo é um princípio um meio e um fim. Cada gesto, cada palavra contam, fazem a diferença de um antes e um depois na distância que vai daqui a ali. A vida é esse contra-o-tempo em que corremos todos os dias de olhos fixos no relógio. Por vezes, perdemos tempo e envelhecemos nessa inconsciência. E quando damos por isso é tarde demais para regressar ao ponto útil das coisas, porque o momento certo não se repete, é único e quando acontece é nossa missão fâze-lo durar para toda a vida. Sensatez e sabedoria é perceber que o tempo que dispomos, que é tão pouco para o tanto por fazer, é valioso em cada segundo.

sábado, 25 de outubro de 2008

Escada

Zenmatt, Stairs, 2006

Subimos e descemos quilómetros de vida. Aqui e ali paramos e depois continuamos, nem sempre descansamos. Subimos e, por vezes, caímos. Descemos e, por vezes, escorregamos. Por vezes magoamo-nos e magoamos. Subimos e descemos quilómetros de incerto, de corpo tremido pela dor dos estilhaços da queda. Subimos e descemos em círculos e partimos e chegamos ao mesmo sítio incansavelmente. O caminho é uma escada em caracol, porque a vida não é uma recta. São montanhas e planícies que nos olham de frente como desafios à grandeza da alma.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Sem igual

Lawrence Ripsher, New Home, 2006

Sabes o que é tão único como o inexplicável do Amor? É encontrar em cada beijo teu uma nova casa com a dimensão de lar. Nos lábios que se queimam neste encontro de almas há uma transcendência que apenas alguns poderão testemunhar. Tenho a sorte de aprender contigo a vida e o que houver depois disso, se alguma coisa houver depois de nós. E se nada houver, viveremos em tudo o que ensinarmos agora. O que é urgente é este Amor infinito que torna caminhos de pedra em passadeiras de veludo. A minha pressa é apenas essa, percorrer-te passo a passo como um milagre que me faz maior por dentro e mais inteira pelo entendimento da verdadeira essência das coisas. E vejo-te crescer como eu e repouso nessa tranquilidade de quem tem a mesma terra debaixo dos pés. Sabes por que é, afinal, tão único e inexplicável o Amor? Porque nos abraçámos por debaixo da pele contra todos os improváveis. Que outra coisa existirá com a mesma força de infinito?

sábado, 18 de outubro de 2008

Noite e dia

Zenmatt, Wrong channel, 2008

Porque queremos tudo ao mesmo tempo e desejamos infinitamente o que não conseguimos ter no mesmo momento. Porque inventamos caminhos e pintamos de nós o céu e a terra por onde viajamos. Porque procuramos canções em que a rima vem de dentro e não da forma arrumada das palavras. Porque acreditamos uma na outra mesmo quando o que dizemos, desastradas, não faz muito sentido. Porque sabemos que não há vida sem nós porque tu e eu somos uma. Porque sentimos para além da pele a aflição da ausência e sabemos que sem nós morremos. Porque a vida só é vida quando o sonho existe. Porque vivo um sonho. Porque tu existes, porque te encontrei. Porque nos temos. Para sempre e mais um dia. Sweet dreams are made of this...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Alimento

Jakob Ehrensvärd, Ice and water, 2004

porque sim, porque és tudo, porque te prometi e
amar-te é ter a ousadia de acreditar na eternidade
para além de nós nada existe
amar-te é caminhar inteira,
mais segura e mais verdadeira,
e encontrar-me e cumprir-me de corpo e alma

domingo, 12 de outubro de 2008

Quinta Dimensão

Jakob Ehrensvärd, Stockholm Gloom, 2005

Olho à minha volta e para dentro também. Observo as marcas, os rasgos na paisagem que vai mudando na sucessão dos dias. Tudo acontece naturalmente como uma queda de água durante o degelo que anuncia a Primavera. Tudo é tão inevitável, tão cheio e dramático também. À minha volta observo objectos envelhecidos e todas as outras coisas que, a seu tempo, chegarão ao fim maltratadas pela inevitabilidade dos anos que passam. O tempo envelhece por fora mas nem sempre por dentro, nem sempre nós e o tempo que nos assiste caminhamos em simultâneo. Nós, por exemplo, respiramos à margem do tempo e vivemos para além dele. Nós, por exemplo, rejuvenescemos por dentro ao cumprir cada beijo que nos falta dar, porque te devo, e tu a mim, todos os beijos que não demos antes de nos encontrarmos. Nós, por exemplo, abraçamos o Amor como se os dias tivessem pouca importância na força do abraço que é sempre mais intenso e mais demorado, imenso. Nós, por exemplo, não somos o tempo, somos a força de vontade contra a qual o tempo nada pode. Porque queremos passado, presente e futuro tudo na mesma hora, porque o que nos habita não é tridimensional. O Amor é a nossa dimensão de corpo e matéria sem fim.

sábado, 4 de outubro de 2008

Toda a vida

Katie Jones, 5th January 08

Se 'para-toda-a-vida' fosse uma paisagem, eu seria o farol a abraçar-te o caminho, a olhar-te por ti incansavelmente, da noite escura às manhãs cheias de sol, através do nevoeiro ou da transparência dos dias de cristal, sempre no mesmo sítio de porto seguro, de terra firme onde podes descansar confiante de que o nosso abraço vale a eternidade. Sou essa vontade de horizonte sem fim, de braços estendidos para um nós cada vez mais além, forte e infinito como tudo o que nos prometemos com absoluta certeza do que sentimos. Se 'para-toda-a-vida' fosse o instante de beijo apaixonado, eu beijar-te-ia com o desejo de quem te descobre os lábios pela primeira e última vez, como se não houvesse mais dias a não ser o momento exacto em que duas almas se encontram e se fundem num único corpo. O que tenho como certo é que 'para-toda-a-vida' é hoje e o que sabemos ser hoje, o que aprendemos agora, o que damos de nós livremente e recebemos com a mesma vontade. Vivemos no encadeado dos dias, sei que o resto da minha vida é feito de hoje e, hoje, eu aposto tudo.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Inexistência

Barbara Heide, Wet Colours, 2008

Se o mundo, amanhã, chegasse ao fim teria pena, muita pena, pelo tempo que não tive contigo, pelo tempo que não nos sobrou, pelo tempo que tardámos desencontradas. Este tudo que tenho em nós me parece sempre pouco, porque o Amor não tem medida e nada esgota a vontade de mais longe e mais além, de mais caminho, mais luz e mais céu e terra ao mesmo tempo. A imensidão que me embrulha em ti não tem fim, porque não tem princípio senão na essência do que sou, de tudo quanto me começa e me acaba. Sem ti não seria eu, porque eu sou aquilo que sinto e me define e este tanto que te quero e que me faz sentir vida é a minha própria certeza de existir. O Amor é tudo o que vale a pena, o resto são formas de enganar o vazio de quem se procura sem se encontrar. O Amor dá-nos a certeza de um lugar próprio e um sentido que nos cumpre e nos completa. Eu-sem-ti é uma vida impossível, porque não há vida para além de nós. Sem ti, só imagino a inexistência.

domingo, 28 de setembro de 2008

Lembra-te...

Barbara Heide, Rust Series, 2007

A nossa casa, sem pedra nem ferro, tem a força das árvores que rompem o chão, debaixo para cima, num abraço a tocar o céu cada vez mais alto e aberto. A nossa casa é feita de um querer segurar e por a salvo todas as pequenas e grandes coisas que embrulhamos no tempo e nas recordações que coleccionamos. E enquanto escrevo, recordo o que, ontem à noite, te embalei ao ouvido: deixa-me abraçar-te com a imponência da vontade que o Amor fortalece e nunca põe em causa. Quero abraçar-te e passar o resto da minha vida a tornar mais alto e mais aberto este abraço permanente e este querer-te sem medida. Ainda que nem sempre me acredites as palavras, a verdade vem de dentro e o que escrevo vem do centro da alma que não sabe mentir nem inventar com talento suficiente o que o coração sente simplesmente. Assim te sinto eu, sempre infinita no ar que me mantém viva. E porque te encontro em toda a parte em mim, sinto que a nossa casa é feita da vida que, ambas, desejamos e acreditamos sem fim.

sábado, 27 de setembro de 2008

Algures


Adalberto Tiburzi, Looking East, 2005

Há dias em que tenho dificuldade em acordar. E não acordo. Passo pelo dia sem abrir os olhos, lenta e inconsistente, sem que as horas, as coisas e as pessoas cheguem a dar por mim. Há dias que acordam a minha indisponibilidade e, por mais que eu tente arrastar-me para fora desse quarto perdido dentro da minha cabeça, não depende de mim mas de uma chave nem sempre combinada com a fechadura. E os meus olhos fechados, ainda que reconheçam o ruído de um relógio que me dá notícias do mundo lá fora, revestem-me o corpo de uma invisibilidade necessária, que me protege da não-presença das coisas e das pessoas como eu as imagino. Porque, às vezes, só existem as horas e, nelas, imagens que não nos abraçam e nem reparam nós.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

De fora para dentro

Ray Petit, No Exit (Anxiety Series), 2005

Adormeço à beira de uma janela de fora para dentro e, enquanto me sossega a alma, revisito o tempo de dentro para fora como quem percorre de memória paisagens que só existem na nossa cabeça e só de vez em quando. Adormeço à procura de sono, debruçada nessa janela onde a luz não falta, mesmo à noite quando a terra vira costas ao centro feito de fogo. Restam-me alguns minutos de conversa interior antes de vaguear, por onde ainda nem imagino, no sonho de daqui a bocado. E encontro-te a ti, aqui e ali, em todo o lado. Sei-te a dormir, por isso falo devagarinho e faço barulho baixinho e corro o risco de te acordar. A noite dá-me o tempo que o dia te retira e teimo em ficar assim, à janela, a imaginar que, debruçada nela, me sonhas um mundo cheio de nós e que, depois, entre o eu acordada e o teu a dormir, há uma ponte de beijos que atravessamos sem chegarmos a margem nenhuma, de um lado ou do outro. Porque não há margens quando concordamos que o Amor é uma passagem infinita. Debaixo da minha janela, imagino-nos um mar alto esticado até ao céu, num azul único feito da mesma luz da meia noite ao meio dia. Daqui, da minha janela de onde, de fora, espreita o sono, só lamento as horas que se perdem sem nós. Beijo-te não tarda nada...

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

E se depois?

Lawrence Ripsher, This Forgotten Place, 2006

E se depois? Quantas vezes nos refugiamos na pergunta à qual não podemos responder, pelo simples facto de não haver resposta no momento em que nos ocorre perguntar. Não sei, nunca soube, responder ao que se espera de um 'E se depois?'. E o que é que isso interessa agora? Muito pouco, quase nada. Vejo-te suspensa naquilo que se vai passar daqui a bocadinho e só me apetece sossegar-te, porque, mesmo que nada aconteça, mesmo que permaneças no mesmo sítio depois de uma longa espera, vai correr tudo bem. Sabes porquê, meu amor? Talvez não saibas, mas eu sei. Porque continuas igual a ti, intacta, inteira. Porque continuas tudo o que sempre foste e mais ainda pela experiência que os dias te acrescentam. Porque esse tudo é incorruptível e isso é uma vitória. Porque o teu caminho é tudo o que sabes construir num universo maior que transcende o mundo dos outros. Porque vales mais do que eles conseguem perceber e não podemos torná-los mais espertos do que a imperfeita humanidade que lhes assiste. E se depois de tudo eu pudesse escolher, serias tu, sempre única e incontornável. E depois disso serias ainda a minha razão de sentir o infinito.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Repetição

Adalberto Tiburzi, La Luce di Eraclito, 2006

Deixa-me dizer-te outra vez o que te digo todos os dias quase por necessidade primeira: tenho esta certeza infinita que, de tão certa, me parece imbatível. Tenho a certeza que a forma como, debaixo da pele, te sinto fluir como sangue eterno é tão absoluta em mim que passou a ser a medida de todas as coisas visíveis e invisíveis, como se nada mais tivesse valor porque nada mais existe para lá do que me habitas. Por vezes, fico a pensar no que te diria se, algum dia, te escrevesse uma carta de amor, e depois desisto. Não saberia dizer a certeza de sentir-te sempre antes, durante e depois de tudo certamente. E, por mais que tentasse, falharia em descrever um coração que te vive e revive constantemente na absoluta certeza de que viveremos para sempre. Por isso, deixa repetir-me vezes sem conta a dizer-te, todos os dias, este amor sem carta que te chega sem princípio, meio ou fim. Deixa-me dar-te conta assim desta luz que nenhuma noite escura apaga em mim.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Anos sem fim

TomTom... Sempre em frente...

Quando for amanhã, que é daqui a bocadinho para mim e hoje para ti, serás um bocadinho mais crescida e eu estarei à tua volta à espera de muitos amanhãs comigo, aninhada num único pensamento – que a vida nos seja eterna, que nunca te acabes, que vivas para sempre na minha vida e eu na tua e depois disso. Quando acordares o dia é teu – quero um sol infinito na tua mão e um abraço sem fim desde a ponta dos teus dedos até ao coração. Quero ser o resto da tua vida nos meus braços que serão sempre pequenos para te dar conta da imensidão que és em mim. Segura nos lábios um beijo meu desde a hora em que nasceste até ao fim dos dias.

domingo, 7 de setembro de 2008

Luz de dentro

Jeanne Newman, Postcards from lodz Series, 2004

Vamos misturar a luz ao encontro dos milhões de cores que ainda desconhecemos debaixo deste sol que nos descobrimos desde o primeiro momento. Anda brincar com a cor dessa luz da qual os nossos olhos, olhos nos olhos, não descansam. Anda fazer uma pintura com essa tinta que o Amor mistura num brilho que os braços embrulham como vida e eternidade. Vem cobrir as paredes e o chão, o tecto e também o céu de toda a nossa luz que nos segura, do mais claro ao escuro, nos mil tons de infinito. E quando anoitecer e estivermos um pouco cansadas e precisarmos de descansar, olha-me sempre com o mesmo sol que te vem de dentro e basta-me esse ponto de luz para continuar, porque é único, o mais luminoso e aquele que me dá sentido, a vida eterna em que acredito. Porque sem ti tudo é negro e fundo e à beira do fim do mundo.

sábado, 6 de setembro de 2008

Regresso a casa

Lawrence Ripsher, Double Parked, 2006

Devagar, tão lentamente quanto a ideia feliz de que os dias não têm medida porque começam e acabam em minutos precisos fora do relógio normal das horas, regresso a casa. Regresso ao tempo do mundo que deixámos adormecer e acordar sem nós, regresso à vida que fica do mesmo lado do espelho de toda a gente, ou de quase toda a gente porque há excepções à regra. Os dias e as noite quase mediterrânicos acabaram e deles já só resta a poeira do que conseguimos lembrar e sorrir no que recordamos. Mas é deste lado que nós somos por completo a vida. É deste lado que estamos sempre, mesmo quando distraimos das horas nos intervalos. Voltar a casa é voltar ao Sempre e voltar ao Sempre é acreditar no infinito para além da parede do quarto que é infinito como o Amor que nele acontece sem medida de tempo nem noção de espaço que não seja a escala do corpo, do coração e da alma. Voltar a casa é voltarmos completamente ao que é único e só nosso e encontrarmos o Sempre à nossa espera.