Amar é ser indiferente ao tempo que passa e nos envelhece porque, quando amamos, o tempo só incomoda quando estamos longe de quem não queremos deixar de abraçar por um instante que seja. Amar é acreditar que vivemos para sempre porque o que temos dentro é infinito, não se esgota numa vida nem se apaga por força da razão. Amar é confiar que somos capazes de nos dar e receber por inteiro porque no amor não há metades nem partes desiguais. Amar é ficar de pé e não desistir quanto nos foge o chão e o céu cinzento nos amanhece. Amar é saber ouvir para poder conversar porque o que ouvimos aprendemos e reduzimos o erro pela vontade que temos de acertar. O Amor é ter a paciência de gostar incondicionalmente, sem interrupções nem intermitências, de quem nos ama com igual entrega, porque é um bem raro encontrar amor de igual tamanho. Se acontecer, importa segurá-lo e torná-lo forte para que nos seja sempre firme e infinito.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Horizonte
Guiseppe Parisi, 2009
Desabituei-me da pressa de chegar, desabituei-me da noção de distância, de sentir a demora e correr com medo de faltar. Desabituei-me de olhar para o relógio e temer chegar atrasada a todo o lado e a parte nenhuma. Desabituei-me do ponto de partida como ponto de chegada e vice-versa. Desabitei-me do tempo e do espaço como medida de existência. Não tenho pressa nem destino. Porque o destino não existe e a pressa não é solução. Abraço a vontade como luz que vence a escuridão. E oiço as histórias sem tempo gravadas com o coração num horizonte infinito.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Coisas importantes
Anabark, Wilderness [AGO2011]
Olhei à minha volta e vi um mundo cheio de coisas com importância. E concentrei-me para olhar mais de perto pormenores que descurei quando morava num mundo pequeno e fechado, onde apenas havia uma casa, uma rua e um jardim. E quando olhei, descobri que, houve um tempo em vivi num mundo de importância relativa que a ilusão constrói. Dentro de mim, havia coisas cheias de importância desperdiçadas por falta de atenção. Dentro de mim havia um mundo infinito que, de não ter fim à primeira vista, foi abandonado à falta de cuidados. Eu chamava-lhe Amor, mas, se calhar, era só eu a chamá-lo assim e a vivê-lo nessa dimensão de grandeza, sem peso nem medida para além do sopro de vida que só ele contém. Um dia as minhas coisas com extrema importância desequilibram-se e espalharam-se pelo chão. E eu corri muito e corri tudo para as apanhar, mas tudo desapareceu nos buracos que faziam de chão. Hoje, reparo que o mundo à minha volta está repleto de coisas valiosas e que, das minhas coisas cheias de importância, sobrou pó levantado pela tempestade.
domingo, 28 de agosto de 2011
Pedra solta
Gordon W., Rock Leaf Abstract, 2004
A pedra que se atravessa na pressa de chegar magoa-nos a fé de chegarmos inteiros ao fim da corrida. E as pedras somos nós nos passos que damos desequilibrados e cambaliantes, sem saber ao certo o que queremos, o que temos e o que esperamos conquistar. O primeiro obstáculo no caminho seremos sempre nós pelo que não sabemos dar nem receber dos outros, pelo desencontro, pelo despropósito e pelo desperdício. Não sou tudo, não começo nem acabo sequer em mim mas no que sou aos outros no espaço que lhes ocupo na alma. Na viagem que fazemos, o caminho seguro é feito de afectos, do que me dou e do que recebo á minha passagem. Fora desse trilho atravessam-se pedras que nos magoam a caminhada e nos vão despindo de vontade e de fé. E quando deixamos as pedras chegar ao coração morremos antes de a vida se nos acabar. Perdemos e perdemo-nos do essencial. E sem darmos por isso, é tarde demais e contam-se pelos dedos de uma mão as oportunidades de voltar atrás e confiar em quem nos quer bem.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Em alto mar
Por vezes, naufragamos a vontade e carta de marear e partimos por mares incertos porque estamos vivos e acreditamos que, um dia, havemos de chegar à terra prometida. Por vezes, deitamos tudo borda fora para sentir que alguém nos segura no momento de saltarmos nós também. Por vezes, arriscamos o que temos e o que gostávamos de ter realmente, para sentir que não nos acomodámos a metade nem desistimos de querer tudo por inteiro. Por vezes, galgamos rochas pela costa adentro, para encontrar o tesouro que perdemos em alto mar. Por vezes, encontramos mares de areia onde dantes havia oceanos infinitos de vontade. Por vezes, rasgamos as velas do barco por descuido e ficamos, teimosos, no mesmo sítio à espera de soluções... Por vezes, basta pegar nos remos para evitar os rochedos que barram a chegada a bom porto.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
50 mil visitas
Sanjibm Wne, Glass Splashes, 2010
Hoje, dia 25 de Agosto de 2011, exactamente às 2 horas da manhã, este blog atingiu as 50 000 visitas contabilizadas desde Outubro de 2006. Não que isso tenha alguma coisa de especial ou que a estatística seja importante, mas apeteceu-me assinalar o facto para agradecer a todos quantos estão 'dentro do copo' desde sempre e fazem parte dele, aos que o vão descobrindo e o tornam um hábito, aos que voltam, sem compromisso, depois da primeira vez, aos que por ele passeiam timidamente sem deixar testemunho...
A todos quantos, por aqui passando, se deixam ficar... obrigado!
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Desfocagem
Anabark, Quadradinhos [JUL2011]
Contruir o mundo que melhor nos convém é uma forma de nos descobrirmos intrinsecamente e de espelhar o que somos para fora. Mas o mundo existe de forma independente e não se define nesse egoísmo de percepção do 'eu' como medida de todas as coisas. Acreditamos que a realidade é o que vemos e julgamos ser, mas nada, fora de nós, é o que nos parece na linearidade do nosso olhar. Queremos muito construir á nossa imagem e semelhança, porque temos necessidade de espelhos para nos vermos mais em pormenor e estarmos acompahados, no bom e no mau, que nos descobrimos. Mas o mundo é tudo o que existe antes, durante e depois de nós. E nós só existimos coexistindo, em estado de reciprocídade fundamental ao equilíbrio, pessoal e transversal. Porque o mundo não começa nem acaba em nós. Construimos o nosso tempo e o nosso espaço no mundo, não ficamos indiferentes nem passivos - empurramos, fazemos cair, caímos e somos levantados. E, nos intervalos, aprendemos a cair melhor da próxima vez e a tentar, sem desistir do que queremos. O mundo que mais nos convém não existe nem nunca vai existir. Há que estar atento para saber receber o que vem ao nosso encontro e nos acrescenta como seres humanos. Há que ser generoso e caminhar para fora de nós para encontrar o mundo a meio caminho. Temos de aprender a encaixar sem distorcer nem manipular porque nos convém ou porque nos dá jeito. Temos, sobretudo, de respeitar para merecer respeito.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Quero...
Untitled
Há tanto que eu não sei nem vou saber nunca se calhar, mas sei que me anima uma vontade teimosa de aprender caminhos para lá chegar. Não quero que a vida me aconteça como um caderno de encargos de um projecto alinhado com princípio, meio e fim. Quero essencialmente não perder de vista a noção do fim e organizar-me nos dias, um de cada vez, como se cada um deles fosse o último. Quero adormecer sem me arrepender de coisas que não fiz e acordar apressada para ganhar tempo ao dia e torná-lo feliz. Quero o sobressalto de quem espera tudo das horas decrescentes e estremecer nos pormenores. Não quero ouvir os outros contar nem emitir opiniões sobre o que não vivi. Quero saber, porque tropecei, caí e me levantei, como quero sorrir, porque abracei, amei e segurei. Quero a vida na primeira pessoa, mesmo no que estremeço por falta de jeito, ignorância e dor. Quero tudo em discurso directo, crescer com o erro e congratular-me pela vitória. Quero respirar livremente o peso da minha consciência, perdoar-me, perdoar e ser perdoada. Quero a responsabilidade das minhas próprias decisões. Quero amar e acreditar que cada dia valeu a pena e que alguém me amou com a mesma urgência. Quero porque quero a vida num só dia, todos os dias da minha vida.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Interiores
Anabark, No canto da sala [MAI2011]
Ali, na parede branca, que os meus olhos preenchem com ideias fixas todas as noites, passeiam-se sombras de coisas que-não-foram. No branco da parede ideias tomam forma como se o-que-nunca-foi pudesse acontecer ali, nos contornos que a luz define... O branco da parede teima nesse constante desafio de inventar uma outra dimensão de vida, onde tudo acontece de acordo com o plano ilumidado pela artificialidade da luz. E tudo existe e tudo é possível, nada existe e o tudo o-que-não-foi não será nunca e eu sei. Na parede branca desenho pensamentos que teimo em ter por companhia, em casa e por todo o lado, tanto de noite como de dia, como se o tempo fosse sombra sem passado, apenas presente alheio ao futuro. A certeza do que-nunca-foi tornou-se uma assombração. A saudade do que poderia-ter-sido aninhou-se ao meu lado e nela encosto a cabeça e adormeço neste canto de sala.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Em tempo real
Anabark, Jungle of thoughts {JUL2011)
E à noite os pensamentos ganham uma velocidade diferente, tudo se passa mais depressa, fundindo-se passado, presente e futuro. De manhã, quando acordo, tenho impressão que já vivi este presente, ou que o passado se repete e, á força da repetição, tornou-se presente com o á-vontade da visita de um velho amigo. E as ideias e pensamentos sucedem-se num perpétuo movimento que não sei interromper, nem sei se devo, talvez não. Tudo tem de acontecer na altura devida e, por pouco sentido que façam os dias sem tempo verbal definido, tenho de deixar acontecer o que estiver para ser. O destino, como lhe chamam, não acontece nem antes nem depois, independentemente da nossa vontade. O passado que volta a ser presente não garante segundas oportunidades. A velocidade que encontro à noite, de um pensamento ao outro, é excessiva, comporta a vertigem que esbate a noção de tempo. Tudo o que tenho a fazer é viver o momento em tempo real, só e apenas isso. Amanhã é sempre longe demais mas não vou andar mais depressa que o pensamento, nem mesmo nos dias em que a incerteza esvazia o coração do sangue que o mantém vivo.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Último recurso
Katjas, Every book tells a story
"Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer."
Clarice Lispector
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Nem a morte
Anabark, Obscuridade [JUL2011]
Seria mais fácil ser igual a toda gente e não querer mais do que os demais. Mas não quero tornar-me uma vulgar história de amor desfeita não sei como nem porquê. Não quero pensar-me igual a todas essas histórias que se contam por aí como troféus de vida, em que tudo acaba e, orgulhosamente, se exibe o fim do que, um dia, se acreditou infinito. Não quero ser esse momento de desencanto absoluto e desamor evidente dos que perdem tudo e destroem o que sobrar. Não quero ser comum e fazer conversas de passado aligeiradas de conteúdo como se quem viveu como pele da minha pele perdesse essa importância que o Amor lhe vestiu um dia. Não quero ser a vulgaridade de ter uma história para contar. Não quero ser banal e dizer que, na minha história de amor, não fui 'feliz para sempre', que tudo é passado e que para frente é caminho. Para a frente só é caminho pela esperança acarinhada no porvir, porque podemos acreditar que o melhor está para vir, fantasiar a perfeição, iludir-nos e enganarmo-nos a nós mesmos para encontrar a paz de espírito e o perdão que nos procuramos. Mas eu não quero isso para mim. Quero assumir que chorei, que lutei e que perdi. E, nesse desaprumo, celebrar-me pelo que sei sentir em mim, o Amor apesar de tudo. Quero a dignidade dos que perdem acreditando sem desistir antes da meta. Não quero a cobardia dos que afirmam que o Amor se desfaz como um castelo de areia à beira do mar. O Amor vive na alma e a alma que alberga o Amor é uma fortaleza que, talvez, nem a morte, saberá derrotar.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Espinhos em flôr
Anabark, Green Stars, AGO11
É preciso olhar com atenção. As estrelas que habitam a paisagem, por vezes, ferem a mão que se estende para as segurar. É preciso saber tocar. Por vezes, as estrelas têm pontas afiadas que rasgam a pele de mãos descuidadas. É preciso saber evitar espinhos e admirar para além deles. É preciso distinguir beleza onde ela parece menos óbvia e cuidá-la para que não seque nem se extinga por displiscência ou falta de atenção. Nem sempre é fácil, nem sempre seguro. Mas aquilo que nos é único é o nosso maior investimento. A raridade com que se instala na alma vale a vida inteira. E, por muitos espinhos que nos arranhem a pele, o que é raro não é substituível. Toda a gente aprecia flores óbvias e passivas. Só alguns conseguem perceber o encanto selvagem dos cardos e admirar para além da sua forma defensiva.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Ausência do verão
Sem título
Suponho que o verão foi roubado ou que o calendário saltou uns quantos meses atrás da chuva e do vento que vem do oceano. À minha volta, a natureza parece ignorar a estação do ano, as árvores coleccionam folhas de um outono adiantado e eu não sei muito bem se as nuvens que o céu carrega serão feitas de pesar, de tristeza ou apenas de água desencontrada das estações frias. Não que me faça diferença realmente, mas não deixo de estranhar a peculiar sintonia do meteorologia com o ritmo do mundo. No meu inverno particular, os dias coincidem com as noites frias de um verão ausente. Não que isso me incomode, o luto tem de ser feito debaixo de céu cinzento. Quando morremos a alguém pouco importam as estações do ano. Precisamos, sim, de uma primavera que nos pinte o olhar de tranquilidade do azul viajado pelas andorinhas portadoras da boa nova. O verão que aqui não chegou é um estado de ausência que transcende o próprio tempo. É um monumento cósmico erguido num buraco da alma.
domingo, 31 de julho de 2011
Conta-rotações
John Hamers, 2011
E o tempo ultrapassa-me e de nada adianta correr contra ele. Mais forte do que o vento forte, o tempo ultrapassa tudo, sonho e realidade. De tudo quanto fui, quardo o que posso num baú imaginário, como quem segura o que sente por dentro como alma. O que sou, construo todos os dias como quem quer muito aprender a melhorar. Do que serei amanhã e nos dias por vir só posso trabalhar a ideia do que gostaria que fosse, como quem sonha uma bola colorida onde cabem todos os sonhos do mundo e o mundo também. Mas o tempo corre mais depressa do que a vontade e do que sonho. O tempo corre mais depressa do que a vida. E eu, como toda a gente, sou apenas um esboço de inúmeras possibilidades. Sou sonho e coisas concretas, memórias e ideias, passado, presente e futuro. E sou também o tempo que me ultrapassa quando me deixo ficar imóvel nas horas a que nada acrescento para além do meu petulante aborrecimento e falta de assunto. E sou também a vida que quer o tempo por inteiro, sem desperdício. E quero encontrar-me e acertar o passo, como quem acredita que não há tempo a perder. Tem de ser o que estiver para ser e tem de ser agora.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Alegoria
Anabark, Debaixo do chão [JUN2008]
Havia um mundo que eu desconhecia e que respirava sem eu alguma vez lá ter chegado. Sob o chão havia cores que o sol nunca encontrou e objectos iluminados pela luz azul dos lugares que não se conhecem e que deslumbram pelo que não conseguimos alcançar. Debaixo do chão tudo era de outra cor e o brilho de todos os objectos eram um sol, constante, quente, que chegava a todo o lado. Deixei-me ficar por ali, viajando entre estações do ano sem inverno nem folhas mortas de outono. E nesse tempo que não passava, o mundo cá fora envelheceu, fustigado pelo vento e pela falta de luz. Já não vivo debaixo de chão, voltei ao meu mundo natural. Trouxe nos bolsos um bocadinho de azul, do tom que ilumina a vontade de descobrir o tempo que aqui corre apressado, debaixo de sol ou chuva, vivo, pulsante... real.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Transparência
Kanya Hanklang, World of Ice 1
Posso, enfim, perceber, na translucidez do gelo, o tempo perdido que o Inverno nos obriga a agasalhar. Posso, enfim, distinguir o vento frio que, de forma insidiosa, nesse tempo, me acomodou em casa. Posso, então, compreender por inteiro o calor de um abraço e o aconchego de um beijo quando, por dentro, um deserto a perder de vista cresce em tempestades de areia. Posso, agora, compreender tudo e a importância de encontrar o tempo na consciência que tenho da sua finitude.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Intransmissível
Katjas, Every Book Tells a Story, 2011
Procura-se nos livros doutrinas e opiniões que nos expliquem e nos confirmem decisões e, por muito que se procure, nada nos define completamente porque somos únicos no ser e no estar. Porque aquilo que sentimos, e a forma como o sentimos, só nós sabemos e falharemos sempre em definir sem equívocos. Encontramos, por certo, aproximações e nelas embarcamos á falta de melhor porto seguro. Mas não somos nós exactamente e é preciso perceber essa margem de diferença porque é esse intervalo que nos torna originais e nos distingue entre nós. Por muito útil que nos fosse, a verdade é que não existem manuais de instruções que se nos apliquem, porque somos peças únicas e a universalidade só nos toca docemente, não nos compromete numa resposta padrão de verdade obrigatória para todos. Seria tão confortável que os livros nos justificassem fraquezas de alma e faltas de carácter! Mas não há forma de explicar a nossa própria consciência. Nos livros sábios, como na vida real, só encontraremos pontos de vista, porque nada mais existe do que pontos de vista. Cada um sabe de si, ou não sabe e queria saber... mas isso não vem nos livros.
terça-feira, 19 de julho de 2011
O que se perde
David R. Yee, Teddy On Bryant Lake
O que é nosso e deixamos de ter, nunca se perde realmente, porque a nós retorna naturalmente. O que nos pertence por lei do universo mais forte do que a própria vida, perdendo-se, voltamos a encontrar. O Amor só existe quando é nosso. O que é meu realmente nunca de mim parte e, se partir e não voltar não tem de ser, não é meu porque não é nosso. Tudo o que não tenho porque perdi completamente nunca foi meu e, não sendo meu por inteiro, não me vai voltar. Só quero aquilo que me procura livremente e me encontra no que me reconhece seu também. O que não me escolhe por força de um querer livre e absoluto nunca será meu. Dispenso tudo o que passa por mim sem vontade de ficar.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Vaguear
Bogdan Szadowski, 2008
Fechar os olhos e andar ao mesmo tempo. Apetece-me. Vaguear sem saber se torto ou a direito, inconsequentemente. Sem razão, sem destino e sem propósito, apenas andar por aí, por aqui e por além também. De olhos fechados como um recém-nascido que descobre as sombras como o mundo a tomar forma. Apetece-me não saber mais do que isso, ou menos talvez se for preciso. Apetece-me andar, sem encontrar destino, para não morrer num final de linha qualquer e poder continuar para além do razoável. Vaguear em mim mesma, ser caminho e vontade de caminhar ao mesmo tempo. Apetece-me partir descalça, sem as botas que a vida me calçou, e encontrar pelo caminho uma forma de andar sem por os pés na terra e não cair no impossível. Apetece-me desencontrar o tempo, as regras e a opinião dos outros. Apetece-me fechar os olhos, dar um passo em frente, e seguir o meu caminho, seja ele qual for. Manter-me de pé, como as árvores na sua inabalável vontade de tocar o céu... ou crescer, simplesmente, apoiada na ideia de Deus, antes, durante e depois do fim de tudo.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Dias atlânticos
Anabark, Estrelas, JUL2011
E junto ao chão havia estrelas, nascidas de terra grávida de esperança em cada Primavera. E havia debaixo do sol, e da chuva também, a vontade de renascer uma e outra vez, muitas vezes, eternamente. E todos os charcos de água eram lagos que davam de beber aos pássaros e deixavam um lençol de azul à beira do caminho. E nada era de pedra, tudo era hipótese de vida. E eu ali chegava como se o tempo não fosse tempo, fosse apenas o infinito, e ali ficava suspensa como as estrelas feitas de flores miudinhas ao sabor do vento. Debaixo dos meus pés, a terra desaparecia pouco a pouco e eu assim me perdia entre o estar e o ser. E depois do tempo bom, caíam as folhas das árvores e as flores estreladas secavam e acabavam por fugir com o vento, numa pressa precipitada. E eu ali ficava, instalada no Outono como minha casa temporária. E o Inverno chegava num empurrão de frio a curvar-me o corpo ao encontro de calor. E mal o corpo se aquecia, a chuva e o frio partiam timidamente de mãos dadas e a Primavera entrava primeiro num pedaço de pele, depois pela alma de dentro para fora para dentro, como quem, descuidamente, adormece por umas horas e depois acorda mais renovado. E tudo volta a estar no lugar, renascem, do chão para o céu, as flores feitas estrelas e os pássaros trazem nas penas a cor que, durante uns tempos, se escondeu do atlântico dos dias em que tudo era mais bonito por causa do Amor.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Memórias dos vitrais
Anabark, Catedral, JUN2011
Não há muito tempo, havia uma catedral de luz em todas as ruas por onde eu passava. Não há muito, todas as casas dessas ruas eram altas e luminosas e nunca chovia nem se ouvia o vento frio que estremece os edifícios altos. Tudo era abrigado, acolhedor, não há muito tempo. O mundo não mudou de lugar, mas as ruas tornaram-se mais estreitas, sombrias e irregulares. As catedrais desapareceram, só ficaram casas devolutas, sem telhado e janelas abertas de par em par. Continuo a passar pelos mesmos sítios, passeando a memória das catedrais. De vez em quando, os pássaros que habitavam esses lugares descem até aos passeios e contam-me histórias, nem falsas nem verdadeiras, do tempo das catedrais. E eu fico a ouvir, distraída pela luz do céu que transportam nas asas. Quando anoitece, voo com eles para lá das nuvens, ao encontro de um tempo diferente que me devolve a ideia de infinito sem a fragilidade dos vitrais dos templos.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
No jardim, ao fundo
Kelly Dempsey, Second Chance, 2006
Enquanto procuro no jardim o amor que de mim se perdeu, encontro folhas secas que o tempo não poupou e espalhou pelo chão. Mas não falta verde de vida por aqui e por ali. O cheiro da terra molhada, que alimenta a vontade de florir, toma conta de mim como um perfume inevitável, forte e sólido, uma segunda pele que não se distingue da minha. E por aqui e por ali espreito, respiro e caminho. Não conheço tudo e procuro. Não me conheço tudo e, em mim, me procuro o que me perdi. O amor que não encontro depois do que conheci. Passeio os dias pelo jardim frondoso, onde o amor morava pleno e descuidado. Caminho por um lugar que, agora, desconheço e aqui sempre vivi. Procuro o amor que conheço num lugar que só existe em mim. Só aí o irei encontrar, no lugar exacto onde eu dele me perdi.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Amor perdido
Viral infection
O Amor perdido é também uma doença, dói-nos o corpo pela ferida na alma que teima em não curar. E mesmo quando deixamos de ter pena de nós próprios, tropeçamos invariavelmente nos momentos em que nos desequilibrámos. As interrogações e as incertezas que tomam conta dos amantes em desgraça ensinam-nos que não somos donos da verdade, nem sequer da nossa própria verdade. E é nesse instante de humildade que surge a libertação. Porque tomamos consciência que, depois do Amor, já não somos tábuas rasas, somos mais por tudo o que soubemos sentir por inteiro. Aprendemos um universo, uma vida infinita. E a grandeza de um sentimento maior do que a vida, recompõe-nos na nossa certeza de que não somos estéreis, porque o Amor nos tocou e porque abraçámos infinitamente a possibilidade de ficar para sempre em nós.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Apesar de tudo, uma cabana
Daniel Shorey, 2007
Apesar de tudo o que se diz, o Amor, por si, tem de ser suficiente. Porque não conheço força maior do que a que nos vem do estado de graça de amar alguém. E se o Amor não é suficiente para ser infinitamente forte, não será Amor, mas apenas um gostar com dias contados. Porque amar é um acto de fé em cada dia renovado, que tudo quer e tudo é insuficiente. O Amor não se acomoda aos dias nem se quebra porque a vida corre mal. O Amor arruma e desarruma, baralha e torna dar. Quem ama não se contradiz, quem ama procura caminhos onde se perde e se volta a encontrar guiado por esse valer a pena que a alma lhe reconhece. O Amor tem de ser suficiente porque se não for nada o é. Se o Amor não chega para mudar as montanhas de lugar, é porque ele não existe, foi confundido com uma qualquer paixão a prazo. O Amor verdadeiro incomoda, dói e faz sofrer, não fica no mesmo sítio, quietinho e disciplinado. O Amor é sangue pulsante, é luta e revolução. O Amor tem de ser suficiente para quem ama, porque a Vida é esse desalinho e uma fé imensa em cada primeiro dia para o resto da nossa vida.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
nas decisões morremos também
J. Real, Structures
'...Optei por verdades e rotinas
definindo um percurso
que amanhã pode estar errado.
A maior valentia
é saber que fui capaz
de aceitar que falhei
nas vezes que escolhi.'
Diogo Cabrita
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Demónios interiores
Don Nieman, Living among the dead, 2005
Como tudo o que se promete, a vida acontece umas vezes cumprida outras vezes por cumprir. E o carácter de cada um define-se pelas escolhas que se fazem e pelo bem que somos capazes de perceber nos outros. Ver para além do umbigo é difícil, mas é preciso para não morrermos fechados em nós mesmos como vítimas das circunstâncias. Se formos generosos percebemos que o Mal não está nos outros, mas sim no egoísmo da autocomiseração e na nossa incapacidade de trocar o sofrer pelo agir. Se tivermos coragem de assumir o que é verdadeiro e optar pelo lado positivo, em que a vontade é igual ao Bem, o Mal passa e não nos toca, porque o Mal ocupa apenas o lugar deixado vago pela nossa passividade. E isso é suficiente para nos percebermos um bocadinho melhor e não imputamos aos outros a culpa de tudo o que nos acontece. Porque a culpa dos outros não é mais do que a incapacidade de nos gerirmos a nós mesmos, porque não gostamos de quem somos e projectamos esse desamor nos outros como um mecanismo de autopreservação, uma estratégia de sobrevivência. É mais fácil escolher ser vítima do que agir em nós mesmos. É fundamental compreender que não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar o que em nós está desordenado. Escolher ver o Bem é, antes de mais, aprender a gostar nós e privilegiar a paz de espírito. A partir daí, a visão do mundo altera-se, os demónios desaparecem e os outros deixam de ser uma ameaça. Evoluímos.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Pedra sobre pedra
Mike Davis, Stonework, 2009
E agora que tudo mudou e eu já não sou a mesma, os dias são também diferentes - as horas, embora as mesmas em número, parecem acontecer numa outra dimensão onde consigo encaixar todas as partes de mim que encontro desordenadas. Deixo para trás tudo o que não me reconheço, o que sei que não sou, e guardo apenas o que me faz sentido, o que consigo entender e cumprir em mim mesma. Em tudo o que me conheço e sei que sou existo sem conflito, com a tranquilidade de quem tem noção dos defeitos tanto como das virtudes. Não posso ser mais do que este estar assumido de obra imperfeita ao encontro de oportunidades de aperfeiçoamento.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Liberdades?
Zonedout, Liquid Krystal 9, 2011
Perdemos tanto tempo e saúde a pensar e a investir no que não vale a pena, é triste e quase patético! Não acredito em tanta coisa e depois dou por mim entretida a pensar que sim, que pode ser que aconteça, que talvez seja como dizem e que o defeito é meu por não vislumbrar. Tenho os valores que me educaram, e me fizeram a pessoa que sou, e alguma inteligência que fui construindo sobre o mundo. Acredito que a Liberdade é um bem fundamental. Não a liberdade no sentido amplo e vulgar que se confunde com anarquia e desordem geral, mas a Liberdade que estabelece que nenhum homem escravize outro ou penalize uma forma de pensar diferente da sua. Hoje é o dia em que se comemora essa condição. Mas, enquanto nação, Portugal não existe. Os portugueses não sabem construir um país, não têm noção do que deve ser para que Portugal se cumpra como adulto. Estou farta de não saber por onde ir por não ter em quem confiar. Tudo é mediocre e oportunista. Só me restam os artistas porque deixam obra pela paixão à arte.
Acredito que Amor é a maior virtude do ser humano. Acredito que somos melhores em tudo quando nos sentimos amados. Precisamos todos de um abraço sentido, verdadeiro, forte. Precisamos de amor, de saber o que isso é no corpo, no coração e na alma. Sem isso não seremos nunca nem fortes nem felizes. Talvez, nos dias que correm pela minha vida, eu tivesse razões para pensar o contrário, mas não. Ainda que o Amor seja também sofrimento, ele é vida e capacidade de superação, coragem no seu estado mais puro. Isso, hoje, eu sei. Nunca me senti tão viva e tão inteira, tão disponivel para me dar ao mundo como quando vivi nesse estado de graça.
Os portugueses têm vidas vazias, desinteressantes, porque não amam, não sentem completamente, são demasiado quadrados para privilegiar o que não é palpável. São tacanhos, condenam-se condenando o que não sabem compreender. E eu sei do que estou a falar, fazendo parte de uma minoria de comportamento diferente em termos de sexualidade. Eu gostava de acreditar que, um dia, não fará diferença a ninguém eu beijar a mulher que amo em público, como qualquer casal hetero que se despede ou se cumprimenta naturalmente. Mas a minha Liberdade ainda não me chegou e eu nem culpa tenho de ser o que sou, como não tenho culpa de ter cabelo preto e pele branca. Hoje é também o dia em que penso em tudo isto, em que a Liberdade devia ser também o triunfo do Amor entre os homens, o seu reconhecimento como príncipio fundamental da felicidade humana.
Ontem, que foi domingo de Páscoa, um homem chamado Jesus Cristo, reza o mito, ressuscitou em nome do Amor, depois de ter morrido na cruz por ser diferente da maioria e por assumir essa diferença como revolução (ou para nos limpar de pecados...). E, ao fim de mais de dois mil anos, pergunto eu, como na canção-senha 'E depois do Adeus': quem somos nós, o que fazemos aqui? Quero saber quem sou e o que faço aqui. E não sei. Existo apenas? Só o Amor me dá sentido e até nisso sou discriminada.
37 anos depois
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”
Sophia Mello Breyner Andresen
domingo, 24 de abril de 2011
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Lucidez
Dick Keely, Sloblands, 2010
E há dias em que os caminhos se cruzam com a vontade de caminhar em frente e em que as coisas caídas não passam do chão onde ficaram. E nesses dias em que a luz é, de certo, mais cristalina, tudo parece mais claro e resolvido. E não restam dúvidas. E desvanescem-se os fios de incerteza que seguravam, teimosamente, uma esperança pouca e frágil. A luz desses dias devolve-nos a lucidez perturbada. Para trás é tarde demais, apenas o chão ficou. Amanhã pode ser também tarde demais para esperar. Hoje é tudo o que tenho, tudo o que vivo e sou, à chuva, ao vento, ao sol, em movimento num espaço e num tempo palpáveis. Nos dias que passam confirma-se o presente como prova de vida.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Interiormente
John Hamers (Jan. 2011)
Não se pode dar mais do que se tem nem querer receber mais do que nos é dado. Não podemos exigir o que não temos para dar nem pedir o que nos é negado. Não podemos receber sem ter vontade de retribuir nem insistir dar a quem não quer receber. Não podemos continuar onde não há lugar para nós nem ficar à espera do que não existe. Não se pode ser sem acreditar nem se pode acreditar sem saber quem somos e qual é o nosso lugar. Não se pode querer dos outros o que não sabemos sobre nós nem procurar fora as respostas a perguntas que são só nossas. Temos de aceitar que somos imperfeitos, frágeis e inseguros e que precisamos de acreditar que, acima de tudo, somos bonitos por dentro e confiar que somos gostados mesmo que nem sempre nos seja óbvia a razão desse gostar. Temos de ser mais interiormente em tudo o que nos achamos suficientes...
sábado, 16 de abril de 2011
Despojamento
Normagerber, Net sails on side walk, 2008
No fim perdemos sempre, tudo o que temos perdemos, a morte encarrega-se disso. Mas ao menos que, enquanto tivermos, tenhamos a certeza de ter completamente e de viver a intensidade de dar e receber de forma inteira e infinita. Que seja uma entrega sem reservas e sem limites, porque só quem tem essa disponibilidade acima de si mesmo, pode entender a dádiva no seu pleno sentido e valorizar, de forma justa, aquilo que nos chega pela mão do Amor. Porque há no Amor uma condição implícita: o despojamento. Temos de saber ficar sem nada para valorizar a grandeza do que nos é dado e poder dar o que sentimos com a mesma generosidade com que o recebemos. Assim amei eu, em total despojamento.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Naturalmente
Gerd Benninger, Blatt
O rio deve correr por sua conta e risco... naturalmente. Não adianta forçar o curso de águas na nossa direcção. Aquilo que nos estiver destinado vem de livre vontade, porque a inevitabilidade do que tem de ser ninguém pode contrariar. Não quero mudar nenhuma montanha de lugar, quero aceitar os acidentes da paisagem e caminhar para além deles. Quero subir e descer montanhas e atravessar os rios que tiver de atravessar para chegar ao meu lugar. Sem passado nem futuro, sem planos nem ambições, sem mágoas nem ressentimento. Sem dúvidas ou dilemas. Tudo o que tiver de ser, será. Quero apenas que a vida me aconteça com a naturalidade das águas de um rio ou da flor que nasce livremente na sua margem.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Feliz e quase nada
Gordon W. Rock Sand, 2005
Como é possível ter pouco ou quase nada e ser infinitamente feliz e, depois, ter tudo, ou quase tudo e perder o essencial como areia entre os dedos? O sonho cumpre-se e perde-se o Amor? É a pressa de viver ou o viver depressa demais que o Amor não acompanha? Ou é o ruído do mundo onde antes era apenas o som de duas vozes que assusta e retrai a força desse Amor que nasceu e cresceu incondicional? Dava tudo para voltar a ter quase nada mas ter a luz do infinito nos braços desse Amor.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Uma vez
Linda Mingay, Is it a sign, 2005
Quantas vezes o Amor nos acontece na vida? Quantas vezes descobrimos alguém e esse alguém nos descobre em sintonia? Quantas vezes, na vida, acontece essa descoberta absoluta e sublime? Quantas vezes podemos dizer com certeza 'És o amor da minha vida!"? E quantas vezes podemos esperar ouvir, com verdade, o mesmo da boca de alguém com a mesma intensidade com que o sentimos? Quantas vezes o Amor vem bater à nossa porta aberta de par em par para o receber? Quantas vezes na vida teremos disponibilidade para amar, segurar e cuidar para sempre?... Uma, se tivermos sorte... muita sorte.
terça-feira, 12 de abril de 2011
O que sinto...
Linda Mingay, Broken Hearts On The Mend, 2004
E se o Amor é esta força incontornável que descobri em mim, através de ti, que outras forças me sobram senão o bem que te quero e o bem que quero que sintas em mim?...
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Lado esquerdo
Susan Rovira, Owl Creek Pass
Á medida que vou vivendo, vou cada vez mais tomando consciência de que sei muito pouco da vida. Quanto mais conheço menos sei. E neste assumir, com todos os riscos, a minha ignorância, assumo também a minha humildade perante o mundo e perante tudo quanto desconheço. A verdade é que, embora haja diferenças significativas no que diz respeito aos fragmentos de conhecimento que dispomos, somos todos iguais no infinito da nossa ignorância. E eu não sou melhor do que ninguém. A minha razão é e será sempre relativa. O meu lado esquerdo é, por conseguinte, o meu chão, porque não tenho dúvidas em relação ao que me anima. Não duvido do que sinto. Se duvidasse, mergulharia num enorme vazio e perdia-me de mim mesma. E nada seria pior do que a deriva nesse vazio em que já vivi quase uma vida inteira, onde nem a razão me fazia sentido nem o eco da minha voz eu ouvia... O meu lado esquerdo é a vida, o que sou e o que existo, a prova de que a alma existe e de tudo o que em mim vale a pena. Ignorar esta intensidade é esvaziar-me de conteúdo e abandonar-me à escuridão. Naquilo que sei que sinto tenho a certeza de mim mesma.
domingo, 10 de abril de 2011
Consequências
Raymond Ma, EMP
Por vezes, as coisas que dizemos são tão sufocantes como um edifício alto que nos tapa o sol e nos condena à sombra dia após dia. E, por vezes, nem dizemos mais do que um suspiro de momento desencantado e triste e, no desencantamento do momento, um suspiro é suficiente para elevar paredes cada vez mais altas, duras e surdas. Outras vezes, dizemos o que nos vai na alma desencantada e triste, mas não vencida e com amor na voz, e não nos ouvem ou, se ouvem, não querem ouvir. Por vezes, dizem-se coisas como um grito, à espera que reparem em nós do lado de fora da muralha. Chamamos a atenção com o que temos à mão, à bruta como as crianças que partem coisas para não serem ignoradas. Outras vezes, põem-nos tão injustamente de castigo, que não apetece dizer mais nada a não ser coisas que vão cair sobre nós como estilhaços que perpetuam, infinitamente, o castigo. Como as crianças negligenciadas que estão sempre a ser castigadas... acabamos sempre a apostar numa asneira maior.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
O mesmo de sempre
Mysterious Heart
Porque há coisas na vida que não mudam e nos tornam cativos para sempre. Porque hoje é especial e porque o coração não reconhece distância. Porque os afectos que se criam não desaparecem porque o mundo mudou de lugar. Porque as 'minhas' estrelas brilharão para sempre em mim, aqui fica um beijo de parabéns a uma delas embrulhado em saudades que não têm fim.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
O que não sei
Se nós soubéssemos toda verdade sobre todas as coisas e todas as respostas certas para todas perguntas difíceis, não seríamos seguramente pessoas. E não sendo pessoas não poderíamos apreciar as coisas que, normalmente, as pessoas sentem, tocam e vivem. Um abraço, por exemplo. A força dos braços que nos abraçam quando desejamos abraçar e ser abraçados. Coisas simples e humanas, imperfeitas e, tantas vezes, inexplicáveis. O que faz duas pessoas apaixonarem-se? Como se explica o Amor entre duas pessoas? Que respostas podemos dar a perguntas que transcendem a própria resposta? Se soubesse responder a todas as incertezas que nos sobram enquanto humanos, não seria livre porque estaria refém de respostas correctas e formatadas. A vida não existe abrigada num terreno seguro de respostas para todas as perguntas. A vida acontece nas perguntas que nos desalinham no que sentimos e não sabemos explicar. A vida é o caminho que fazemos à procura de respostas e de sentidos, porque nada acontece por acaso.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Identidade
Ann LT, By the sea
Quando não sabemos quem somos e pensamos que sabemos, ou fingimos para nós mesmos saber, cheios de certezas mal trabalhadas e aparente controle sobre a situação, alguma coisa está fora de lugar. Quando não sabemos quem somos está tudo tão fora de sítio que a vida acaba por se tornar um comboio em permanente descarrilamento. Porque a questão da identidade individual é o pilar da nossa construção pessoal e do que nos damos no mundo outros, porque sem essa estrutura assente e consolidada, somos pouco mais do que plasticina ao sol. Porque é a nossa identidade que nos define no que existimos nos outros. Se ela é vivida de forma intermitente, ou tão superficialmente como uma imagem num espelho, mais tarde ou mais cedo, surgem a dúvida e a insegurança de um lado e do outro do espelho. Se não sabemos quem somos, tendemos a acreditar que os outros divagam na mesma incerteza, porque queremos estar acompanhados na nossa angústia, porque não gostamos de ser nós o problema, porque temos dificuldade em assumir que ainda não chegámos onde julgamos estar interiormente, porque tal dói e é muito incómodo. Para quem observa não é menos incómodo nem menos doloroso, porque é inevitável o desconforto e a insegurança desse território estranho e indecifrável que fica no canto mais recôndito do ser, sem caminho certo para lá chegar. Porque as identidades não estruturadas, ou assumidas com pés de barro, são limbos de sofrimento agravado, cada vez mais profundo, por tudo quanto falha, e não se assume, pelo caminho da responsabilidade própria. Porque o peso, cada vez mais pesado, que vamos acumulando e carregando sobre os ombros, não se dilui nem desaparece no conforto, aparente e ilusório, de acreditar que se é vítima e que a responsabilidade não nos pertence. Todos os erros que cometemos podem ser "endireitados", a não ser o crime supremo de tirar a vida a alguém. A identidade adulta é a pessoa precisamente não se fazer de vítima. É tomar o controlo reconhecendo em que é que o outro é mais forte, e não ter de competir, para além da nossa própria força. A identidade adulta é assumir o compromisso do equilíbrio. Porque há tanta coisa que aprendemos tarde, mas raramente é tarde demais se a pessoa pensar que o que aprendeu, e conquistou em si mesmo, não se reflecte nem se esgota no 'hoje', mas vale para a vida inteira.
domingo, 3 de abril de 2011
Paciência
Anabark, Caído no chão #4 [Telemóvel, MAR2011]
"Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém...
Posso apenas dar boas razões para que gostem de mim... E ter paciência para que a vida faça o resto..."
William Shakespeare
quinta-feira, 31 de março de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
Frustação
"O que mais nos incomoda é ver os nossos sonhos frustrados. Mas permanecer no desânimo não ajuda em nada para a concretização desses sonhos. Se ficamos assim, não vamos em busca dos nossos sonhos nem recuperamos o bom humor! Este estado de confusão, propício ao crescimento da ira, é muito perigoso."
Dalai Lama
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