domingo, 2 de outubro de 2011

O lugar que se perdeu

Queno, Sainte-Luce sur Mer, Rimouski, 2011

Pouco a pouco a paisagem desaparecia e, á vista, apenas os escombros pareciam ter vida, multiplicando-se da noite para o dia e ocupando todo o espaço que sobrava. O tempo passava apressado e deixava mais destroços de horas desgastadas á espera do que nunca havia de chegar. Deixou de haver vento há muito tempo, nada mexe, nada mudou de sítio para além do que está fora de lugar. As árvores, como promessas de vida, desapareceram deste lugar, já só restam velhos troncos, cansados, pelo chão. O verde perdeu-se desde que, um dia, tudo amanheceu cinzento do mesmo tom. O sol já não vem, deixou de ser preciso a tão pouco que sobra para aquecer ou iluminar... O silêncio tomou conta das casas, por todo lado não há vozes, não há música nem um som, tudo está vazio, ao abandono. Tudo desapareceu num abrir e fechar de olhos. Nada é para sempre, excepto esta minha minha vontade de zelar pelo impossível.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Afirmação

Sem título

Escrito nas paredes, a valer por todas as oportunidades perdidas. Aos olhos de toda a gente, ao sabor do vento e à prova de tempestades. Escrito por dentro, pela força do que se sente tão completamente a valer por ser verdade.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Desencontro

Peter Sussex, Thonet, 2010

A passo desencontrado, anda-se por aí, nem para frente nem para trás, em terreno inclinado. De vez em quando, paramos para descansar, mas partimos, de novo, cansados. Porque os passos desencontrados maçam pelo que não sabem andar, andamos porque andamos, sem grande vontade de caminhar. Entre onde estou e onde quero estar existe um largo oceano por navegar. Não sei caminhar sobre as águas e, em terra, o chão foge-me dos pés. Quem me dera ter asas e voar no vento da minha vontade, até ao longe onde fiquei à espera de me voltar! Aqui, o que resta de mim segue desencontrado do Amor que havia, dantes, por todo o lado.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Absoluto, o Amor

Anabark, Parked sky (AGO2011)

Não é, concerteza, relativo o Amor. É absoluto no que se sente de tão livre da nossa vontade. Pode desmentir-se, negar-se e mascarar-se. Pode até fingir-se outra coisa qualquer, mas não é relativo e, se assim se pensa, não será Amor certamente. Relativa é a forma como se vive de dentro para fora. Mas na alma só tem uma definição: infinito... e o infinito é a absoluta impossibilidade de indefinição. Logo, o Amor nada tem de relativo. O Amor existe e, não sendo nem  concreto nem explicável, toma conta de nós e devora-nos qualquer outra vontade que não seja a vontade do Amor, porque tudo o resto é ligeiro, opaco e escurecido, perante essa claradidade que vem de dentro de quem o sente, porque o Amor é essa aventura que não se imagina, de valor incalculado, depois de o descobrir ficamos exigentes e mal habituados. O Amor não é relativo. Pode disfarçar-se, ignorar-se, fingir que não se sente. Podemos  esconder-nos, fugir, mas dele sentimos uma falta absoluta, concreta e definida. Porque a sua ausência é um céu para sempre noite, eternamente sem sol.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Página sem palavras

Peter Sussex, Patterns Of Winter #13, 2010

Na imensidão de uma página em branco, procuro ângulos e não sei por onde começar. Vêm-me à memória palavras que deixei de usar por falta de pontuação que lhe reforce o significado. Podia reinventar histórias e percorre-las de fio a pavio, ou imaginar paisagens a perder de vista à espera de história, de impressões de vida. Numa página em branco todas as palavras são possíveis, mas nem sempre são fiéis às ideias e, não o sendo, perde-se algo e falha-se o sentido. Em vez disso, sonho a página em branco como neve imaculada, virgem, à espera de passos que caminhem e nela deixem testemunho como um princípio de história silenciosa e desapressada. Talvez encontre no sonho uma liberdade diferente para combinar as palavras que perdi pelo caminho. Porque a neve que cai repetidamente apaga vestígios e reinventa a paisagem como as palavras dão vida a uma página em branco.

sábado, 24 de setembro de 2011

Para bem!

Jola Dziubinska, Cold Cold Heart, 2008

Porque és um bocadinho a minha estrela também, ontem, hoje e sempre, desejo que cresças depressa e que sejas tu por ti mesma, forte e feliz. E que contes comigo sem medida de tempo e sem obstáculos. Não estou longe, estou á distância da tua vontade. Não fui embora de ti nem desisto do quanto gosto de ti, a minha filhota. Vive muito e vive feliz!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Muros

Anabark, Vigilante (SET2011)

E tão depressa era dia como noite escura e demorava o seu tempo a perceber, pensava. O tempo era redundante, observava. Esperava compreender um dia por que falta cor á noite escura e por que sobra luz ás horas claras. De vez em quando, olhava para dentro e via janelas fechadas. Outras vezes escalava muros para estar mais perto do que não se deixa chegar. E ficava sempre a um palmo de distância do que queria e não compreendia porque não passava do mesmo sítio. Esperava compreender um dia. Esperava. E a noite e o dia confundiam-se e deixaram de acontecer separados. E o muro que separava o dentro e o fora ficou mais alto e difícil de passar. Não compreendia e pensava muito sem perceber nada. Esperava compreender um dia. Esperava esse dia. Primeiro em silêncio, depois, desastradamente, o silêncio quebrou-se. Deixou de haver dias desde então. O muro cresceu. Esperou. As horas claras não voltaram por detrás das janelas fechadas. Esperava. Espera... Nunca compreendeu.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Lá em cima

Anabark, Giants in the sky (JUN2010)

Lá em cima, onde o espaço é infinito e o sol nunca dorme, as nuvens tomam a forma da nossa imaginação. Posso imaginar apenas massas de ar ou inventar-lhes contornos e uma história para contar, em que tudo pode acontecer, ou talvez nada como numa pintura abstracta. Vejo o que quero ver, às vezes vejo fantasmas, projecções de medos difusos que não consigo nomear. Cá em baixo, as nuvens são diferentes, umas vão e outras ficam, indiferentes às estações do ano. Umas são reais, outras nem por isso. São momentos, uns felizes outros não. Vemos o que queremos, tanto bom como mau. Nem sempre os olhos são justos, nem sempre compreendem a paisagem. Às vezes vivemos às escuras e teimamos em nada ver simplesmente. O coração sei que vê para além das nuvens, mas nem sempre confiamos o suficiente para olhar de frente e abraçar a claridade - ficamos parados a inventar fantasmas maiores do que o céu que não tem fim.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Esboço

Anabark, Sky painting (JUL2011)

Por algum tempo achei que sabia o que o amor devia ser e tentei vivê-lo como uma obra-prima inacabada, acrescentada de pormenor na sucessão dos dias. Por algum tempo acreditei na perfeição da obra e dos artistas e entreguei-me ao esboço permanente de uma ideia maior. Por algum tempo ignorei que o Amor se desenha e constrói a quatro mãos, com ideias separadas que é preciso combinar. Por algum tempo confiei no traço exemplar da mais perfeita sintonia e deixei-me desenhar em cores que nunca fui nem sou. Por algum tempo achei que tinha razão, que era crescida, que sabia tudo e que vivia  tudo o que sabia. Hoje não sei nada ou sei coisas que não queria. Mas não morri pelo que sinto. Continuo a acreditar no Amor como obra-prima, não mudei de lugar - a tela, os pincéis e as tintas esperam e a técnica aperfeiçoa-se. E tenho, na alma, uma  calma diferente e uma ideia nova de Amor contra todos os riscos e contra todas as vontades.

domingo, 18 de setembro de 2011

Presunção

Anabark, Passage in time (SET2011)

E quando os dias esperam o que não sabemos, a vida acontece como areia entre os dedos das mãos. E depois entardece e tudo fica mais longínquo, talvez demasiado longe para chegar a tempo, porque o tempo não sobra quando desperdiçado. E pensamos que sabemos o que fazemos e que estamos certos e somos justos. E, por vezes, nem chegamos a dar conta do que deitamos fora com a arrogância de quem não sabe dar valor ao que milagrosamente nasceu em nós como coisa rara. Tornamo-nos coisas ruins, terra estéril, abandonados à imaturidade de tudo querer e não saber guardar o que escolhemos conquistar. Porque, uma vezes, perdemos sem culpa e sem querer, outras vezes, deixamos de cuidar por desmazelo e teimosia e morremos por dentro, aos poucos, porque ficamos sozinhos sem saber voltar atrás. O tempo, que não existe mas que inventamos por conveniência e sentido prático, passa por todos e não se detém. Tudo envelhece e morre, excepto, talvez, as pedras do caminho e o que conseguirmos guardar na alma   durante a caminhada.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Como é que se esquece...?

Anabark, Heart on my wall (SET2011)

Como é que se Esquece Alguém que se Ama? (...)
"Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? É preciso aceitar esta mágoa esta moínha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."

Miguel Esteves Cardoso in 'Último Volume'

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

De frente

Anabark, Face to face (AGO2011)

De frente para o que vem a seguir, de pé como as árvores e de alma nos olhos. Indiferente ás estações do ano, ao tempo contado no caledário. Grandes são aqueles que gostam de aprender mesmo aquilo que julgam saber, porque existem sempre um lado por descobrir. De cabeça erguida, cara a cara, com o coração aberto  e de alma á janela para receber e partilhar. Descobrir o mundo em cada minuto como se hoje fosse o último dia, porque amanhã quem sabe se vai chegar. Assim são os grandes de espírito, os valentes e nobres de coração. O mundo é infinitamente mais bonito quando descobrimos pedaços de cor numa paisagem de tanta gente e alma nenhuma. O mundo é infinitamente mais bonito quando temos a paciência de pintar o que os olhos alcançam da cor de um abraço sentido e de amar quem nos toca a alma. O Amor é uma pintura inacabada á qual se acrescentam continuamente pormenores em tons de cores infinitas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Chão de pedra

Anabark, Step by step (AGO2011)

No chão, tantas vezes de pedra dura feita de lições de vida, caminham pés cheios de cautela porque ainda não sabem tudo o que podiam ter aprendido. E quando não se sabe tudo tropeça-se aqui e ali, muitas vezes sem perceber os obstáculos. No chão de pedra fria e cinzenta não se ouvem os passos de veludo que tentam caminhar em linha recta, para além dos muros que a falta de vontade do mundo acrescenta, traiçoeiramente, ao trajecto. Caminha-se em silêncio, devagar mas com suficiente convicção. Tudo o que a vista não alcança existe no sonho e na imaginação e, todos os dias se dão passos nas nuvens à procura de realidade. E as nuvens ensinam-nos que todos os dias são uma hipótese de caminho limpo e cheio de sol. Porque o sonho aquece a pedra e a vontade contrariada. E as nuvens, mais tarde ou mais cedo, serão água. A chuva ensina-nos que nada é permanente, estável e para sempre. Excepto, talvez, a pedra que nos magoa os pés mas nos garante, pela vida, caminho disponível para o que nos falta aprender.

sábado, 3 de setembro de 2011

Atentamente e com cuidado

Anabark, Staring (AGO2011)

A diferença está nos pequenos pormenores e na generosidade do olhar. A diferença está na atenção e no cuidado que dedicamos ás pequenas coisas. A diferença está no que estamos dispostos a aprender do mundo que nos rodeia por insignificante que, á primeira vista, nos pareça. Nada existe fora da nossa vontade de reconhecer o que fica para além de nós. Se não olharmos com atenção, ficamos no mesmo sítio e, ficando no mesmo sítio, andamos para trás, porque o mundo avança todos os dias, não espera por ninguém nem é compatível com a arrogância e o egoísmo dos que se julgam imunes aos outros e cegos a tudo o que se acontece no mundo dos outros. Se não formos generosos e se não deixarmos que a nossa atenção se prenda para além do nosso umbigo, ficamos fechados, reféns do nosso íncomodo em relação ao mundo que desconhecemos, e ficando, isolados, acabamos sozinhos ou, no limite, encostados a outros iguais, que é mesmo que dizer sós. Ninguém espera por quem é indiferente aos pormenores em que nos damos a conhecer.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Amar por definição

John Hamers

Amar é ser indiferente ao tempo que passa e nos envelhece porque, quando amamos, o tempo só incomoda quando estamos longe de quem não queremos deixar de abraçar por um instante que seja. Amar é acreditar que vivemos para sempre porque o que temos dentro é infinito, não se esgota numa vida nem se apaga por força da razão. Amar é confiar que somos capazes de nos dar e receber por inteiro porque no amor não há metades nem partes desiguais. Amar é ficar de pé e não desistir quanto nos foge o chão e o céu cinzento nos amanhece. Amar é saber ouvir para poder conversar porque o que ouvimos aprendemos e reduzimos o erro pela vontade que temos de acertar. O Amor é ter a paciência de gostar incondicionalmente, sem interrupções  nem intermitências, de quem nos ama com igual entrega, porque é um bem raro encontrar amor de igual tamanho. Se acontecer, importa segurá-lo e torná-lo forte para que nos seja sempre firme e infinito. 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Horizonte

Guiseppe Parisi, 2009

Desabituei-me da pressa de chegar, desabituei-me da noção de distância, de sentir a demora e correr com medo de faltar. Desabituei-me de olhar para o relógio e temer chegar atrasada a todo o lado e a parte nenhuma. Desabituei-me do ponto de partida como ponto de chegada e vice-versa. Desabitei-me do tempo e do espaço como medida de existência. Não tenho pressa nem destino. Porque o destino não existe e a pressa não é solução. Abraço a vontade como luz que vence a escuridão. E oiço as histórias sem tempo gravadas com o coração num horizonte infinito.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Coisas importantes

Anabark, Wilderness [AGO2011]

Olhei à minha volta e vi um mundo cheio de coisas com importância. E concentrei-me para olhar mais de perto pormenores que descurei quando morava num mundo pequeno e fechado, onde apenas havia uma casa, uma rua e um jardim. E quando olhei, descobri que, houve um tempo em vivi num mundo de importância relativa que a ilusão constrói. Dentro de mim, havia coisas cheias de importância desperdiçadas por falta de atenção. Dentro de mim havia um mundo infinito que, de não ter fim à primeira vista, foi abandonado à falta de cuidados. Eu chamava-lhe Amor, mas, se calhar, era só eu a chamá-lo assim e a vivê-lo nessa dimensão de grandeza, sem peso nem medida para além do sopro de vida que só ele contém. Um dia as minhas coisas com extrema importância desequilibram-se e espalharam-se pelo chão. E eu corri muito e corri tudo para as apanhar, mas tudo desapareceu nos buracos que faziam de chão. Hoje, reparo que o mundo à minha volta está repleto de coisas valiosas e que, das minhas coisas cheias de importância, sobrou pó levantado pela tempestade.

domingo, 28 de agosto de 2011

Pedra solta

Gordon W., Rock Leaf Abstract, 2004

A pedra que se atravessa na pressa de chegar magoa-nos a fé de chegarmos inteiros ao fim da corrida. E as pedras somos nós nos passos que damos desequilibrados e cambaliantes, sem saber ao certo o que queremos, o que temos e o que esperamos conquistar. O primeiro obstáculo no caminho seremos sempre nós pelo que não sabemos dar nem receber dos outros, pelo desencontro, pelo despropósito e pelo desperdício. Não sou tudo, não começo nem acabo sequer em mim mas no que sou aos outros no espaço que lhes ocupo na alma. Na viagem que fazemos, o caminho seguro é feito de afectos, do que me dou e do que recebo á minha passagem. Fora desse trilho atravessam-se pedras que nos magoam a caminhada e nos vão despindo de vontade e de fé. E quando deixamos as pedras chegar ao coração morremos antes de a vida se nos acabar. Perdemos e perdemo-nos do essencial. E sem darmos por isso, é tarde demais e contam-se pelos dedos de uma mão as oportunidades de voltar atrás e confiar em quem nos quer bem.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Em alto mar

Geert Goiris, Resonance #41, Liepaja, 2004

Por vezes, naufragamos a vontade e carta de marear e partimos por mares incertos porque estamos vivos e acreditamos que, um dia, havemos de chegar à terra prometida. Por vezes, deitamos tudo borda fora para sentir que alguém nos segura no momento de saltarmos nós também. Por vezes, arriscamos o que temos e o que gostávamos de ter realmente, para sentir que não nos acomodámos a metade nem desistimos de querer tudo por inteiro. Por vezes, galgamos rochas pela costa adentro, para encontrar o tesouro que perdemos em alto mar. Por vezes, encontramos mares de areia onde dantes havia oceanos infinitos de vontade. Por vezes, rasgamos as velas do barco por descuido e ficamos, teimosos, no mesmo sítio à espera de soluções... Por vezes, basta pegar nos remos para evitar os rochedos que barram a chegada a bom porto.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

50 mil visitas

Sanjibm Wne, Glass Splashes, 2010

Hoje, dia 25 de Agosto de 2011, exactamente às 2 horas da manhã, este blog atingiu as 50 000 visitas contabilizadas desde Outubro de 2006. Não que isso tenha alguma coisa de especial ou que a estatística seja importante, mas apeteceu-me assinalar o facto para agradecer a todos quantos estão 'dentro do copo' desde sempre e fazem parte dele, aos que o vão descobrindo e o tornam um hábito, aos que voltam, sem compromisso, depois da primeira vez, aos que por ele passeiam timidamente sem deixar testemunho... 
A todos quantos, por aqui passando, se deixam ficar... obrigado!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Desfocagem

Anabark, Quadradinhos [JUL2011]

Contruir o mundo que melhor nos convém é uma forma de nos descobrirmos intrinsecamente e de espelhar o que somos para fora. Mas o mundo existe de forma independente e não se define nesse egoísmo de percepção do 'eu' como medida de todas as coisas. Acreditamos que a realidade é o que vemos e julgamos ser, mas nada, fora de nós, é o que nos parece na linearidade do nosso olhar. Queremos muito construir á nossa imagem e semelhança, porque temos necessidade de espelhos para nos vermos mais em pormenor e estarmos acompahados, no bom e no mau, que nos descobrimos. Mas o mundo é tudo o que existe antes, durante e depois de nós. E nós só existimos coexistindo, em estado de reciprocídade fundamental ao equilíbrio, pessoal e transversal. Porque o mundo não começa nem acaba em nós. Construimos o nosso tempo e o nosso espaço no mundo, não ficamos indiferentes nem passivos - empurramos, fazemos cair, caímos e somos levantados. E, nos intervalos, aprendemos a cair melhor da próxima vez e a tentar, sem desistir do que queremos. O mundo que mais nos convém não existe nem nunca vai existir. Há que estar atento para saber receber o que vem ao nosso encontro e nos acrescenta como seres humanos. Há que ser generoso e caminhar para fora de nós para encontrar o mundo a meio caminho. Temos de aprender a encaixar sem distorcer nem manipular porque nos convém ou porque nos dá jeito. Temos, sobretudo, de respeitar para merecer respeito.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Quero...

Untitled

Há tanto que eu não sei nem vou saber nunca se calhar, mas sei que me anima uma vontade teimosa de aprender caminhos para lá chegar. Não quero que a vida me aconteça como um caderno de encargos de um projecto alinhado com princípio, meio e fim. Quero essencialmente não perder de vista a noção do fim e organizar-me nos dias, um de cada vez, como se cada um deles fosse o último. Quero adormecer sem me arrepender de coisas que não fiz e acordar apressada para ganhar tempo ao dia e torná-lo feliz. Quero o  sobressalto de quem espera tudo das horas decrescentes e estremecer nos pormenores. Não quero ouvir os outros contar nem emitir opiniões sobre o que não vivi. Quero saber, porque tropecei, caí e me levantei, como quero sorrir, porque abracei, amei e segurei. Quero a vida na primeira pessoa, mesmo no que estremeço por falta de jeito, ignorância e dor. Quero tudo em discurso directo, crescer com o erro e congratular-me pela vitória. Quero respirar livremente o peso da minha consciência, perdoar-me, perdoar e ser perdoada. Quero a responsabilidade das minhas próprias decisões. Quero amar e acreditar que cada dia valeu a pena e que alguém me amou com a mesma urgência. Quero porque quero a vida num só dia, todos os dias da minha vida.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Interiores

Anabark, No canto da sala [MAI2011]

Ali, na parede branca, que os meus olhos preenchem com ideias fixas todas as noites, passeiam-se sombras de coisas que-não-foram. No branco da parede ideias tomam forma como se o-que-nunca-foi pudesse acontecer ali, nos contornos que a luz define... O branco da parede teima nesse constante desafio de inventar uma outra dimensão de vida, onde tudo acontece de acordo com o plano ilumidado pela artificialidade da luz. E tudo existe e tudo é possível, nada existe e o tudo o-que-não-foi não será nunca e eu sei. Na parede branca desenho pensamentos que teimo em ter por companhia, em casa e por todo o lado, tanto de noite como de dia, como se o tempo fosse sombra sem passado, apenas presente alheio ao futuro. A certeza do que-nunca-foi tornou-se uma assombração. A saudade do que poderia-ter-sido aninhou-se ao meu lado e nela encosto a cabeça e adormeço neste canto de sala.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Em tempo real

Anabark, Jungle of thoughts {JUL2011)

E à noite os pensamentos ganham uma velocidade diferente, tudo se passa mais depressa, fundindo-se passado, presente e futuro. De manhã, quando acordo, tenho impressão que já vivi este presente, ou que o passado se repete e, á força da repetição, tornou-se presente com o á-vontade da visita de um velho amigo. E as ideias e pensamentos sucedem-se num perpétuo movimento que não sei interromper, nem sei se devo, talvez não. Tudo tem de acontecer na altura  devida e, por pouco sentido que façam os dias sem tempo verbal definido, tenho de deixar acontecer o que estiver para ser. O destino, como lhe chamam, não acontece nem antes nem depois, independentemente da nossa vontade. O passado que volta a ser presente não garante segundas oportunidades. A velocidade que encontro à noite, de um pensamento ao outro, é excessiva, comporta a vertigem que esbate a noção de tempo. Tudo o que tenho a fazer é viver o momento em tempo real, só e apenas isso. Amanhã é sempre longe demais mas não vou andar mais depressa que o pensamento, nem mesmo nos dias em que a incerteza esvazia o coração do sangue que o mantém vivo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Último recurso

Katjas, Every book tells a story


"Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer."

Clarice Lispector

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Nem a morte

Anabark, Obscuridade [JUL2011]

Seria mais fácil ser igual a toda gente e não querer mais do que os demais. Mas não quero tornar-me uma vulgar história de amor desfeita não sei como nem porquê. Não quero pensar-me igual a todas essas histórias que se contam por aí como troféus de vida, em que tudo acaba e, orgulhosamente, se exibe o fim do que, um dia, se acreditou infinito. Não quero ser esse momento de desencanto absoluto e desamor evidente dos que perdem tudo e destroem o que sobrar. Não quero ser comum e fazer conversas de passado aligeiradas de conteúdo como se quem viveu como pele da minha pele perdesse essa importância que o Amor lhe vestiu um dia. Não quero ser a vulgaridade de ter uma história para contar. Não quero ser banal e dizer que, na minha história de amor, não fui 'feliz para sempre', que tudo é passado e que para frente é caminho. Para a frente só é caminho pela esperança acarinhada no porvir, porque podemos acreditar que o melhor está para vir, fantasiar a perfeição, iludir-nos e enganarmo-nos a nós mesmos para encontrar a paz de espírito e o perdão que nos procuramos. Mas eu não quero isso para mim. Quero assumir que chorei, que lutei e que perdi. E, nesse desaprumo, celebrar-me pelo que sei sentir em mim, o Amor apesar de tudo. Quero a dignidade dos que perdem  acreditando sem desistir antes da meta. Não quero a cobardia dos que afirmam que o Amor se desfaz como um castelo de areia à beira do mar. O Amor vive na alma e a alma que alberga o Amor é uma fortaleza que, talvez, nem a morte, saberá derrotar.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Espinhos em flôr

Anabark, Green Stars, AGO11

É preciso olhar com atenção. As estrelas que habitam a paisagem, por vezes, ferem a mão que se estende para as segurar. É preciso saber tocar. Por vezes, as estrelas têm pontas afiadas que rasgam a pele de mãos descuidadas. É preciso saber evitar espinhos e admirar para além deles. É preciso distinguir beleza onde ela parece menos óbvia e cuidá-la para que não seque nem se extinga por displiscência ou falta de atenção. Nem sempre é fácil, nem sempre  seguro. Mas aquilo que nos é único é o nosso maior investimento. A raridade com que se instala na alma vale a vida inteira. E, por muitos espinhos que nos arranhem a pele, o que é raro não é substituível. Toda a gente aprecia flores óbvias e passivas. Só alguns conseguem perceber o encanto selvagem dos cardos e admirar para além da sua forma defensiva.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Ausência do verão

Sem título

Suponho que o verão foi roubado ou que o calendário saltou uns quantos meses atrás da chuva e do vento que vem do oceano. À minha volta, a natureza parece ignorar a estação do ano, as árvores coleccionam folhas de um outono adiantado e eu não sei muito bem se as nuvens que o céu carrega serão feitas de pesar, de tristeza ou apenas de água desencontrada das estações frias. Não que me faça diferença realmente, mas não deixo de estranhar a peculiar sintonia do meteorologia com o ritmo do mundo. No meu inverno particular, os dias coincidem com as noites frias de um verão ausente. Não que isso me incomode, o luto tem de ser feito debaixo de céu cinzento. Quando morremos a alguém pouco importam as estações do ano. Precisamos, sim, de uma primavera que nos pinte o olhar de tranquilidade do azul viajado pelas andorinhas portadoras da boa nova. O verão que aqui não chegou é um estado de ausência que transcende o próprio tempo. É um monumento cósmico erguido num buraco da alma.

domingo, 31 de julho de 2011

Conta-rotações

John Hamers, 2011


E o tempo ultrapassa-me e de nada adianta correr contra ele. Mais forte do que o vento forte, o tempo ultrapassa tudo, sonho e realidade. De tudo quanto fui, quardo o que posso num baú imaginário, como quem segura o que sente por dentro como alma. O que sou, construo todos os dias como quem quer muito aprender a melhorar. Do que serei amanhã e nos dias por vir só posso trabalhar a ideia do que gostaria que fosse, como quem sonha uma bola colorida onde cabem todos os sonhos do mundo e o mundo também. Mas o tempo corre mais depressa do que a vontade e do que sonho. O tempo corre mais depressa do que a vida. E eu, como toda a gente, sou apenas um esboço de inúmeras possibilidades. Sou sonho e coisas concretas, memórias e ideias, passado, presente e futuro. E sou também o tempo que me ultrapassa quando me deixo ficar imóvel nas horas a que nada acrescento para além do meu petulante aborrecimento e falta de assunto. E sou também a vida que quer o tempo por inteiro, sem desperdício. E quero encontrar-me e acertar o passo, como quem acredita que não há tempo a perder. Tem de ser o que estiver para ser e tem de ser agora.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Alegoria

Anabark, Debaixo do chão [JUN2008]

Havia um mundo que eu desconhecia e que respirava sem eu alguma vez lá ter chegado. Sob o chão havia cores que o sol nunca encontrou e objectos iluminados pela luz azul dos lugares que não se conhecem e que deslumbram pelo que não conseguimos alcançar. Debaixo do chão tudo era de outra cor e o brilho de todos os objectos eram um sol, constante, quente, que chegava a todo o lado. Deixei-me ficar por ali, viajando entre estações do ano sem inverno nem folhas mortas de outono. E nesse tempo que não passava, o mundo cá fora envelheceu, fustigado pelo vento e pela falta de luz. Já não vivo debaixo de chão, voltei ao meu mundo natural. Trouxe nos bolsos um bocadinho de azul, do tom que ilumina a vontade de descobrir o tempo que aqui corre apressado, debaixo de sol ou chuva, vivo, pulsante... real.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Transparência

Kanya Hanklang, World of Ice 1

Posso, enfim, perceber, na translucidez do gelo, o tempo perdido que o Inverno nos obriga a agasalhar. Posso, enfim, distinguir o vento frio que, de forma insidiosa, nesse tempo, me acomodou em casa. Posso, então, compreender por inteiro o calor de um abraço e o aconchego de um beijo quando, por dentro, um deserto a perder de vista cresce em tempestades de areia. Posso, agora, compreender tudo e a importância de encontrar o tempo na consciência que tenho da sua finitude.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Intransmissível

Katjas, Every Book Tells a Story, 2011

Procura-se nos livros doutrinas e opiniões que nos expliquem e nos confirmem decisões e, por muito que se procure, nada nos define completamente porque somos únicos no ser e no estar. Porque aquilo que sentimos, e a forma como o sentimos, só nós sabemos e falharemos sempre em definir sem equívocos. Encontramos, por certo, aproximações e nelas embarcamos á falta de melhor porto seguro. Mas não somos nós exactamente e é preciso perceber essa margem de diferença porque é esse intervalo que nos torna originais e nos distingue entre nós. Por muito útil que nos fosse, a verdade é que não existem manuais de instruções que se nos apliquem, porque somos peças únicas e a universalidade só nos toca docemente, não nos compromete numa resposta padrão de verdade obrigatória para todos. Seria tão confortável que os livros nos justificassem fraquezas de alma e faltas de carácter! Mas não há forma de explicar a nossa própria consciência. Nos livros sábios, como na vida real, só encontraremos pontos de vista, porque nada mais existe do que pontos de vista. Cada um sabe de si, ou não sabe e queria saber... mas isso não vem nos livros.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O que se perde

David R. Yee, Teddy On Bryant Lake

O que é nosso e deixamos de ter, nunca se perde realmente, porque a nós retorna naturalmente. O que nos pertence por lei do universo mais forte do que a própria vida, perdendo-se, voltamos a encontrar. O Amor só existe quando é nosso. O que é meu realmente nunca de mim parte e, se partir e não voltar não tem de ser, não é meu porque não é nosso. Tudo o que não tenho porque perdi completamente nunca foi meu e, não sendo meu por inteiro, não me vai voltar. Só quero aquilo que me procura livremente e me encontra no que me reconhece seu também. O que não me escolhe por força de um querer livre e absoluto nunca será meu. Dispenso tudo o que passa por mim sem vontade de ficar.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Vaguear

Bogdan Szadowski, 2008

Fechar os olhos e andar ao mesmo tempo. Apetece-me. Vaguear sem saber se torto ou a direito, inconsequentemente. Sem razão, sem destino e sem propósito, apenas andar por aí, por aqui e por além também. De olhos fechados como um recém-nascido que descobre as sombras como o mundo a tomar forma. Apetece-me não saber mais do que isso, ou menos talvez se for preciso. Apetece-me andar, sem encontrar destino, para não morrer num final de linha qualquer e poder continuar para além do razoável. Vaguear em mim mesma, ser caminho e vontade de caminhar ao mesmo tempo. Apetece-me partir descalça, sem as botas que a vida me calçou, e encontrar pelo caminho uma forma de andar sem por os pés na terra e não cair no impossível. Apetece-me desencontrar o tempo, as regras e a opinião dos outros. Apetece-me fechar os olhos, dar um passo em frente, e seguir o meu caminho, seja ele qual for. Manter-me de pé, como as árvores na sua inabalável vontade de tocar o céu... ou crescer, simplesmente, apoiada na ideia de Deus, antes, durante e depois do fim de tudo.  

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Dias atlânticos

 Anabark, Estrelas, JUL2011

E junto ao chão havia estrelas, nascidas de terra grávida de esperança em cada Primavera. E havia debaixo do sol, e da chuva também, a vontade de renascer uma e outra vez, muitas vezes, eternamente. E todos os charcos de água eram lagos que davam de beber aos pássaros e deixavam um lençol de azul à beira do caminho. E nada era de pedra, tudo era hipótese de vida. E eu ali chegava como se o tempo não fosse tempo, fosse apenas o infinito, e ali ficava suspensa como as estrelas feitas de flores miudinhas ao sabor do vento. Debaixo dos meus pés, a terra desaparecia pouco a pouco e eu assim me perdia entre o estar e o ser. E depois do tempo bom, caíam as folhas das árvores e as flores estreladas secavam e acabavam por fugir com o vento, numa pressa precipitada. E eu ali ficava, instalada no Outono como minha casa temporária. E o Inverno chegava num empurrão de frio a curvar-me o corpo ao encontro de calor. E mal o corpo se aquecia, a chuva e o frio partiam timidamente de mãos dadas e a Primavera entrava primeiro num pedaço de pele, depois pela alma de dentro para fora para dentro, como quem, descuidamente, adormece por umas horas e depois acorda mais renovado. E tudo volta a estar no lugar, renascem, do chão para o céu, as  flores feitas estrelas e os pássaros trazem nas penas a cor que, durante uns tempos, se escondeu do atlântico dos dias em que tudo era mais bonito por causa do Amor.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Memórias dos vitrais

Anabark, Catedral, JUN2011

Não há muito tempo, havia uma catedral de luz em todas as ruas por onde eu passava. Não há muito, todas as casas dessas ruas eram altas e luminosas e nunca chovia nem se ouvia o vento frio que estremece os edifícios altos. Tudo era abrigado, acolhedor, não há muito tempo. O mundo não mudou de lugar, mas as ruas tornaram-se mais estreitas, sombrias e irregulares. As catedrais desapareceram, só ficaram casas devolutas, sem telhado e janelas abertas de par em par. Continuo a passar pelos mesmos sítios, passeando a memória das catedrais. De vez em quando, os pássaros que habitavam esses lugares descem até aos passeios e contam-me histórias, nem falsas nem verdadeiras, do tempo das catedrais. E eu fico a ouvir, distraída pela luz do céu que transportam nas asas. Quando anoitece, voo com eles para lá das nuvens, ao encontro de um tempo diferente que me devolve a ideia de infinito sem a fragilidade dos vitrais dos templos.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

No jardim, ao fundo

Kelly Dempsey, Second Chance, 2006


Enquanto procuro no jardim o amor que de mim se perdeu, encontro folhas secas  que o tempo não poupou e espalhou pelo chão. Mas não falta verde de vida por aqui e por ali. O cheiro da terra molhada, que alimenta a vontade de florir, toma conta de mim como um perfume inevitável, forte e sólido, uma segunda pele que não se distingue da minha. E por aqui e por ali espreito, respiro e caminho. Não conheço tudo e procuro. Não me conheço tudo e, em mim, me procuro o que me perdi. O amor que não encontro depois do que conheci. Passeio os dias pelo jardim frondoso, onde o amor morava pleno e descuidado. Caminho por um lugar que, agora, desconheço e aqui sempre vivi. Procuro o amor que conheço num lugar que só existe em mim. Só aí o irei encontrar, no lugar exacto onde eu dele me perdi.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Amor perdido

Viral infection

O Amor perdido é também uma doença, dói-nos o corpo pela ferida na alma que teima em não curar. E mesmo quando deixamos de ter pena de nós próprios, tropeçamos invariavelmente nos momentos em que nos desequilibrámos. As interrogações e as  incertezas que tomam conta dos amantes em desgraça ensinam-nos que não somos donos da verdade, nem sequer da nossa própria verdade. E é nesse instante de humildade que surge a libertação. Porque tomamos consciência que, depois do Amor, já não somos tábuas rasas, somos mais por tudo o que soubemos sentir por inteiro. Aprendemos um universo, uma vida infinita. E a grandeza de um sentimento maior do que a vida, recompõe-nos na nossa certeza de que não somos estéreis, porque o Amor nos tocou e porque abraçámos infinitamente a possibilidade de ficar para sempre em nós.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Apesar de tudo, uma cabana

Daniel Shorey, 2007

Apesar de tudo o que se diz, o Amor, por si, tem de ser suficiente. Porque não conheço força maior do que a que nos vem do estado de graça de amar alguém. E se o Amor não é suficiente para ser infinitamente forte, não será Amor, mas apenas um gostar com dias contados. Porque amar é um acto de fé em cada dia renovado, que tudo quer e tudo é insuficiente. O Amor não se acomoda aos dias nem se quebra porque a vida corre mal. O Amor arruma e desarruma, baralha e torna dar. Quem ama não se contradiz, quem ama procura caminhos onde se perde e se volta a encontrar guiado por esse valer a pena que a alma lhe   reconhece. O Amor tem de ser suficiente porque se não for nada o é. Se o Amor não chega para mudar as montanhas de lugar, é porque ele não existe, foi confundido com uma qualquer paixão a prazo. O Amor  verdadeiro incomoda, dói e faz sofrer, não fica no mesmo sítio, quietinho e disciplinado. O Amor é sangue pulsante, é luta e revolução. O Amor tem de ser suficiente para quem ama, porque a Vida é esse desalinho e uma fé imensa em cada primeiro dia para o resto da nossa vida.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

nas decisões morremos também

J. Real, Structures

'...Optei por verdades e rotinas
definindo um percurso
que amanhã pode estar errado.
A maior valentia
é saber que fui capaz
de aceitar que falhei
nas vezes que escolhi.'

Diogo Cabrita

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Demónios interiores

Don Nieman, Living among the dead, 2005

Como tudo o que se promete, a vida acontece umas vezes cumprida outras vezes por cumprir. E o carácter de cada um define-se pelas escolhas que se fazem e pelo bem que somos capazes de perceber nos outros. Ver para além do umbigo é difícil, mas é preciso para não morrermos fechados em nós mesmos como vítimas das circunstâncias. Se formos generosos percebemos que o Mal não está nos outros, mas sim no egoísmo da autocomiseração e na nossa incapacidade de trocar o sofrer pelo agir. Se tivermos coragem de assumir o que é verdadeiro e optar pelo lado positivo, em que a vontade é igual ao Bem, o Mal passa e não nos toca, porque o Mal ocupa apenas o lugar deixado vago pela nossa passividade. E isso é suficiente para nos percebermos um bocadinho melhor e não imputamos aos outros a culpa de tudo o que nos acontece. Porque a culpa dos outros não é mais do que a incapacidade de nos gerirmos a nós mesmos, porque não gostamos de quem somos e projectamos esse desamor nos outros como um mecanismo de autopreservação, uma estratégia de sobrevivência. É mais fácil escolher ser vítima do que agir em nós mesmos. É fundamental compreender que não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar o que em nós está desordenado. Escolher ver o Bem é, antes de mais, aprender a gostar nós e privilegiar a paz de espírito. A partir daí, a visão do mundo altera-se, os demónios desaparecem e os outros deixam de ser uma ameaça. Evoluímos.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Pedra sobre pedra

Mike Davis, Stonework, 2009

E agora que tudo mudou e eu já não sou a mesma, os dias são também diferentes - as horas, embora as mesmas em número, parecem acontecer numa outra dimensão onde consigo encaixar todas as partes de mim que encontro desordenadas. Deixo para trás tudo o que não me reconheço, o que sei que não sou, e guardo apenas o que me faz sentido, o que consigo entender e cumprir em mim mesma. Em tudo o que me conheço e sei que sou existo sem conflito, com a tranquilidade de quem tem noção dos defeitos tanto como das virtudes. Não posso ser mais do que este estar assumido de obra imperfeita ao encontro de oportunidades de aperfeiçoamento.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Liberdades?

Zonedout, Liquid Krystal 9, 2011

Perdemos tanto tempo e saúde a pensar e a investir no que não vale a pena, é triste e quase patético! Não acredito em tanta coisa e depois dou por mim entretida a pensar que sim, que pode ser que aconteça, que talvez seja como dizem e que o defeito é meu por não vislumbrar. Tenho os valores que me educaram, e me fizeram a pessoa que sou, e alguma inteligência que fui construindo sobre o mundo. Acredito que a Liberdade é um bem fundamental. Não a liberdade no sentido amplo e vulgar que se confunde com anarquia e desordem geral, mas a Liberdade que estabelece que nenhum homem escravize outro ou penalize uma forma de pensar diferente da sua. Hoje é o dia em que se comemora essa condição. Mas, enquanto nação, Portugal não existe. Os portugueses não sabem construir um país, não têm noção do que deve ser para que Portugal se cumpra como adulto. Estou farta de não saber por onde ir por não ter em quem confiar. Tudo é mediocre e oportunista. Só me restam os artistas porque deixam obra pela paixão à arte.
Acredito que Amor é a maior virtude do ser humano. Acredito que somos melhores em tudo quando nos sentimos amados. Precisamos todos de um abraço sentido, verdadeiro, forte. Precisamos de amor, de saber o que isso é no corpo, no coração e na alma. Sem isso não seremos nunca nem fortes nem felizes. Talvez, nos dias que correm pela minha vida, eu tivesse razões para pensar o contrário, mas não. Ainda que o Amor seja também sofrimento, ele é vida e capacidade de superação, coragem no seu estado mais puro. Isso, hoje, eu sei. Nunca me senti tão viva e tão inteira, tão disponivel para me dar ao mundo como quando vivi nesse estado de graça.
Os portugueses têm vidas vazias, desinteressantes, porque não amam, não sentem completamente, são demasiado quadrados para privilegiar o que não é palpável. São tacanhos, condenam-se condenando o que não sabem compreender. E eu sei do que estou a falar, fazendo parte de uma minoria de comportamento diferente em termos de sexualidade. Eu gostava de acreditar que, um dia, não fará diferença a ninguém eu beijar a mulher que amo em público, como qualquer casal hetero que se despede ou se cumprimenta naturalmente. Mas a minha Liberdade ainda não me chegou e eu nem culpa tenho de ser o que sou, como não tenho culpa de ter cabelo preto e pele branca. Hoje é também o dia em que penso em tudo isto, em que a Liberdade devia ser também o triunfo do Amor entre os homens, o seu reconhecimento como príncipio fundamental da felicidade humana.
Ontem, que foi domingo de Páscoa, um homem chamado Jesus Cristo, reza o mito, ressuscitou em nome do Amor, depois de ter morrido na cruz por ser diferente da maioria e por assumir essa diferença como revolução (ou para nos limpar de pecados...). E, ao fim de mais de dois mil anos, pergunto eu, como na canção-senha 'E depois do Adeus': quem somos nós, o que fazemos aqui? Quero saber quem sou e o que faço aqui. E não sei. Existo apenas? Só o Amor me dá sentido e até nisso sou discriminada.

37 anos depois


“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”


Sophia Mello Breyner Andresen

domingo, 24 de abril de 2011

Correcção

Noel Saratan, Poetry in a Tree


"Things fall apart so that other things can fall together"