Havia dias em que o mundo cabia na palma da mão com o mesmo à vontade com que se segura um berlinde feito de mil reflexos de cor. E nesses dias, poder-se-ia pensar que o mundo não seria mais do que esse insignificante tamanho, que se perde numa mão cheia de força e de muitas outras coisas infinitamente maiores do que a visão atrofiada dos pobres de espírito. Nessas alturas, o tempo acabava-se mais depressa e os dias custavam a passar na espera dos instantes em que o mundo tinha a importância relativa de uma existência paralela, inevitável e real como todas as coisas paralelas na vida. E nesses dias, um outro universo paralelo, sem limites, expandia-se sem que as leis da física conseguissem explicar a proporcionalidade entre a matéria e a anti-matéria que lhe dava consistência. E havia um sol brilhante, intenso e eterno, que chegava a todas as partes desse universo, e tudo era luz e caminhos abertos por onde a vontade passeava livre como ondas do mar ao encontro da praia. Tudo era força e intensidade. Tudo era um querer demasiado. Tudo era o desassossego de algo impossível de explicar e, também, de perceber. Esses dias eram assim, uma urgência de ser e de viver por inteiro como se fosse o último dia.
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
Por outras palavras
Obrigado N. pelo teu infinito cuidado.
Algumas respostas às perguntas que me fazem...
«Sputnik, meu amor», de Haruki Murakami:
Algumas respostas às perguntas que me fazem...
«Sputnik, meu amor», de Haruki Murakami:
"...E assim prosseguimos com as nossas vidas, cada um para o seu lado. Por mais profunda e fatal que seja a perda, por mais importante que seja aquilo que a vida nos roubou - arrebatando-o das nossas mãos -, e ainda que nos tenhamos convertido em pessoas completamente diferentes, conservando apenas a mesma fina camada exterior de pele, apesar de tudo isso continuamos a viver as nossas vidas, assim, em silêncio, estendendo as mãos para chegar ao fio dos dias que nos coube em sorte, para logo o deixarmos irremediavelmente para trás. Repetindo, muitas vezes, de forma particularmente hábil, o trabalho de todos os dias, deixando na nossa esteira um sentimento de um incomensurável vazio. (...)"
"(...) Ao perder S., muitas coisas morreram dentro de mim, como acontece quando a maré recua, levando com ela tudo o que estava depositado na areia. Ficara sozinho num mundo deformado, vazio, um mundo frio e tenebroso. Aquilo que se passara entre S. e eu nunca poderia voltar a acontecer nesse novo mundo, tinha plena consciência disso. Cada um de nós possui qualquer coisa de especial, que se revela numa determinada altura da nossa vida, e só uma vez, como uma pequenina chama. As pessoas precavidas, abençoadas pela fortuna, conservam religiosamente essa chama, fazem-na crescer, usam-na como uma tocha que ilumina as suas vidas. Mas uma vez apagada, ela não voltará nunca mais a acender-se. Eu não me limitara a perder S. Juntamente com ela, perdera também essa preciosa chama."
domingo, 4 de fevereiro de 2007
Encontrar-te
Desculpa se fico a olhar-te e se os meus olhos sorriem a olhar para ti. Não sei ser de outra maneira quando te vejo, não preciso explicar-te porquê. Desculpa por sentir coisas que não queres que sinta, se te escrevo sem saberes, se te quero perto, ouvir-te a voz. Desculpa ter-te comigo em pensamento a todas as horas do dia, ainda não aprendi a existir à margem do que sinto. Mas aprendi muitas coisas entretanto. Aprendi a guardar para mim o que gostava que soubesses. Aprendi a ficar longe para deixar-te ser feliz. O que faço por amor nunca irás compreender. A única dor que me resta é o que foges de mim, mesmo quando sabes que não te vou impôr palavras de amor que não queres ouvir. Doi-me sentir-te prisioneira, encurralada no teu próprio medo, escudada numa aparente vontade própria esvaziada de vida. Deves gostar muito mais da pessoa que escolheste do que de ti mesma e isso é triste. Não tenho esperança de coisa nenhuma, mas gostava que, de vez em quando e sem medo, me deixasses saber que estás viva.
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A propósito de medo, «LOST», Série 1- episódio 1:
KATE: You don't seem afraid at all. I don't understand that.
JACK: Well, fear's sort of an odd thing. When I was in residency my first solo procedure was a spinal surgery on a 16 year old kid, a girl. And at the end, after 13 hours, I was closing her up and I, I accidentally ripped her dural sac, shredded the base of the spine where all the nerves come together, membrane as thin as tissue. And so it ripped open and the nerves just spilled out of her like angel hair pasta, spinal fluid flowing out of her and I... and the terror was just so crazy. So real. And I knew I had to deal with it. [He's crying]. So I just made a choice. I'd let the fear in, let it take over, let it do its thing, but only for 5 seconds, that's all I was going to give it. So I started to count, 1, 2, 3, 4, 5. Then it was gone. I went back to work, sewed her up and she was fine.
KATE: If that had been me, I think I would have run for the door.
JACK: No, I don't think that's true. You're not running now.
JACK: Well, fear's sort of an odd thing. When I was in residency my first solo procedure was a spinal surgery on a 16 year old kid, a girl. And at the end, after 13 hours, I was closing her up and I, I accidentally ripped her dural sac, shredded the base of the spine where all the nerves come together, membrane as thin as tissue. And so it ripped open and the nerves just spilled out of her like angel hair pasta, spinal fluid flowing out of her and I... and the terror was just so crazy. So real. And I knew I had to deal with it. [He's crying]. So I just made a choice. I'd let the fear in, let it take over, let it do its thing, but only for 5 seconds, that's all I was going to give it. So I started to count, 1, 2, 3, 4, 5. Then it was gone. I went back to work, sewed her up and she was fine.
KATE: If that had been me, I think I would have run for the door.
JACK: No, I don't think that's true. You're not running now.
sábado, 3 de fevereiro de 2007
Paris, je t'aime
«Paris, je t'aime»* (França, 2006) é o melhor filme que vi nos últimos meses. Dezenas de actores de várias nacionalidades, algumas estrelas e outros desconhecidos, vão passeando num filme que fala de Paris sem ter uma história definida. «Paris, je t'aime» é feito de muitas histórias breves, que acontecem na cidade-luz onde tudo é possível e onde tudo tem um charme irresistível. Umas são felizes, outras não, umas fazem-nos rir, outras não, umas falam de amor, outras não, umas são reais, quase todas são. Todas elas acontecem em Paris, poque a ideia de partida era filmar em Paris. Vinte realizadores internacionais aceitaram o desafio e filmaram histórias em vinte bairros diferentes. Podiam tê-lo feito noutra cidade qualquer, porque as suas histórias falam de pessoas, encontros e desencontros, vidas e não-vidas que acontecem em toda a parte. Mas é Paris que amamos, é Paris que nos transforma e que nos faz olhar para os personagens como especiais e únicos. Mas não são. Somos nós numa cidade qualquer a tentar viver, construindo a nossa própria história, singela, curta, à procura de um final feliz.
Aqui fica um pedaço da história ("Pigalle") interpretada por Fanny Ardant e Bob Hoskins:
Fanny: Que fazes tu por amor?
Bob: Sofro.
Fanny: Sofres?!
Bob: Sofro o que nós fomos.
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* Em exibição no Cinema Quarteto, Lisboa
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
Homem ao mar
E enquanto oiço os remos mesmo sem ver a água, mantenho a força de braços ao encontro de um mar de constrastes feitos da luz que sei que existe para além das ondas altas da tempestade. Navego ao meu encontro, o longe é para dentro, para bem fundo de mim. Procuro-me onde me perdi e assim voltarei a encontrar-me. Desistir do que não vale a pena é regressar-me e continuar por mim adentro ao encontro de terra firme. Vou deixar-te em alto mar. Quis lançar-te uma bóia e salvar-te. Mas tu dizes que nao estás em perigo e, sendo assim, levo a bóia comigo. De tanto ir ao fundo, aprendi a respirar debaixo de água, não preciso da bóia, mas alguém pode precisar e tu só precisas de ti. Salvas o comandante e condenas o marinheiro. Num barco pequeno e mal tratado, vou navegando para fora das ondas da tua tempestade. Sou o marinheiro atirado borda fora, sou quem sujeitaste à morte sem deixares sequer uma bóia. Proteges o comandante contra todos os riscos. Não és justa e nunca perceberás porque digo isto, porque não sabes ouvir nem ver para além da tua verdade e daquela que te convém. O marinheiro não perdeu as graças do mar. Deixou de ser marinheiro, tornou-se remador. E, no seu barco mal tratado, teima, rompendo a tempestade, em direcção ao mar infinito que tem dentro de si. Não desistiu do amor.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
Remar Remar
REMAR REMAR
XUTOS E PONTAPÉS
Mares convulsos, ressacas estranhas
Cruzam-te a alma de verde escuro
As ondas que te empurram
As vagas que te esmagam
Contra tudo lutas
Contra tudo falhas
Todas as tuas explosões
Redundam em silêncio
Nada me diz
Berras às bestas
Que te sufocam
Em braços viscosos
Cheios de pavor
Esse frio surdo
O frio que te envolve
Nasce na fonte
Na fonte da dor
Remar remar
Forçar a corrente
Ao mar, ao mar
Que mata a gente
Cinemateca, 12H40
«Constants are Changing»
«Aurora»
Um ano - cinco meses plenos, sete meses vazios
Um perfume que o vento não devolve
Estou cansada do não e do nada de quem nada faz por amor.
Um beijo meu. Always.
A.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
Com palavras
E depois de ter dito que me faltam palavras para continuar, recebi milhares de palavras na volta do correio. Palavras daqueles que sentem as minhas com a intensidade com que eu as assumo linha a linha. E, por entre esses milhares de palavras que me dirigiram, perguntavam-me "Como é sentires o quanto tocas as pessoas? Tens consciência do que fazes?" Eu não tinha realmente nem sabia o quanto toco quem me lê. Agora que penso nisso, reformulo o que ontem aqui deixei ficar - as palavras que escrevi para a pessoa-que-prefere-o-silêncio deixam de o ser. As minhas palavras são para aquelas outras pessoas que, sem me conhecerem, conseguem ver-me e sentir-me deste lado e gostar de mim o suficiente para me segurarem e correrem a dizer:
'...Não apagues nem uma só linha. Não destruas a poesia que és tu...';
'...Obrigado por seres o que és e por teres esse poder raro de tocares profundamente os outros...';
'...A tua verdade não tem preço, fazes-me acreditar...';
'...O que escreves é demasiado belo e único para se perder...';
'...O registo do teu blog é maravilhoso porque és tu...';
'...Aceita as minhas palavras como alguém que sente as tuas de uma forma diferente das demais. Tudo o que escreves faz eco em mim...';
'...Estou aqui. Para o que der e vier, as long as you want...';
'...Não apagues as palavras. Elas nunca foram escritas em vão, têm um imenso valor. Que seria de nós se as palavras ao longo dos tempos fossem apagadas, que poesia restaria hoje?...'
'...Não apagues nada, continua a escrever...'
Não mereço, mas tenho de agradecer - desse lado há muitas pessoas, são muitas dezenas atentas todos os dias à transparência de um copo vazio: a todos quantos me encontram ao longo das diferentes horas do dia e da noite agradeço a importância com que sentem as minhas palavras. São desconhecidos, ou talvez não. Se sentem a intensidade do que escrevo e se comovem com alguém que nunca viram, estão mais perto do que muita gente que conheço bem. Aos poucos que já conheço, quero conhecer melhor ainda pelo que me sabem receber e dar dobrado. Aos amigos que me conhecem bem não agradeço, esses sabem o quanto valem para mim.
Sem palavras
Steve Price, untitled, 2006Quantas páginas tem um livro que se vai escrevendo a ele próprio na escuridão? E quanto tempo demoram a ler essas páginas na mesma escuridão? São perguntas inúteis, bem sei. Já escrevi muito, talvez demais sobre o que tenho para dizer hoje, ontem e amanhã – sempre. Vai faltando a luz que me orienta num caminho de palavras com sentido definido. As palavras pouco valem se não encontram quem as sinta com a mesma intensidade de quem as assume numa ordem precisa de verdade absoluta. Tornam-se estéreis, abandonadas em si mesmas, restos de alguém, de alguma coisa, de um tempo, de um sonho, de um amor imenso, embrulhado numa incondicionalidade rejeitada dia após dia ao longo de muitos dias que parecem uma vida inteira. Conheço poucas palavras e começam a faltar novas formas de dizer o mesmo porque não quero dizer outra coisa. Vou perdendo frases inteiras e ideias substantivas neste nevoeiro de sentidos e contradições. Sinto o que escrevo, mas também sinto a escuridão de quem não quer saber do que sinto para coisa nenhuma. Sinto que, para quem escrevo, nada do que digo tem importância, que são apenas palavras alinhadas numa ordem qualquer que não vale sequer o esforço de uma palavra pequena como resposta, fosse ela qual fosse, para além de 'Não'. Dói-me a vista, falta-me luz e tenho frio. Quantas páginas caberão ainda neste copo vazio? Que faço com esta vontade de apagar todas as palavras que escrevi? Escrevi-as a pensar em ti - pouco importam… não estás aqui.
terça-feira, 30 de janeiro de 2007
Sombra
De mãos enormes erguidas no ar, a sombra caminha rente ao chão. A sombra não dá nem sabe segurar porque a inconsistência da matéria que a define torna inviável uma vontade própria e a libertação do corpo em que permanece condenada. A sombra é um esboço de vida, uma projecção de um corpo contra luz, a impalpabilidade do ser que existe e que passa ao lado. A sombra é retrato de gente mas nunca será mais do que isso e por isso se distorce e se prolonga pelo chão. E nesse vazio de ser e na inconsistência de querer eu te encontro e te quero resgatar. Dei um passo e a distância não diminuiu. A ponte que seguro entre os dedos de nada me serve, tenho de ficar aqui na sombra da promessa que te fiz de não atravessar. Suspensa nesta ponte de silêncio que me estendes e que esperas de mim. Que fazes tu por amor?...
domingo, 28 de janeiro de 2007
Em Exibição
Anabark, Poster de Cinema (JAN07)
Não faz mal. Pelo bem que te quero, não faz mal. Fico-me pelo que os meus olhos te alcançam nos breves instantes em que passeiam pelos teus. Já que não posso tocar-te a pele que já foi a 'pele da minha pele' também, nem abreviar-te o medo de me quereres como eu te quero, seguro-te no olhar e guardo o que me é permitido neste longe que fica entre nós. O meu querer é-te indiferente. A dor é minha e a falta que me fazes também. Não faz mal, porque te quero bem.
sábado, 27 de janeiro de 2007
Sem dúvida
Todas as respostas pressupõem a anterioridade de uma pergunta e alguém a quem perguntar. E há perguntas que se fazem às quais só queremos ouvir uma resposta e uma única voz a responder. Perguntei-te. Queria muito saber e queria muito que tu soubesses a minha resposta à mesma pergunta. É importante para mim, porque acredito realmente, porque é a única coisa da qual nunca duvido, mesmo quando duvido de tudo. Repouso agora na certeza com que me respondeste. Acreditas em Deus? 'Claro que sim'. Nem todas as perguntas têm resposta, mas também nem todas as perguntas têm a mesma importância.
quinta-feira, 25 de janeiro de 2007
Self Pitty
Self-Pity
by
D.H. Lawrence
I never saw a wild thing sorry for itself.
A small bird will drop frozen dead from a bough
without ever having felt sorry for itself
I never saw a wild thing sorry for itself.
A small bird will drop frozen dead from a bough
without ever having felt sorry for itself
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
Incondicionalmente amanhã
Bruce Berrien, Revealed, 2004
Pela janela mal fechada vejo o que não consegues disfarçar. A propósito de incondicionalidade, acreditas em mim? Invento respostas ao que me escreves e que deixas para enviar amanhã, enquanto acendo mais um cigarro como naquela canção que diz 'amanhã é sempre longe demais'. E nos anéis de fumo baço, escondo palavras que não posso escrever sabendo que não queres ouvi-las - espero pelo teu amanhã que será sempre amanhã sem luz do dia. E vai-se o tempo desfiando numa esperança fugidia. Não sei o que não me dizes, mas sei o que sinto que tu sentes e tu sabes como estou. Estou bem... como tu. Quando dizes que só fazes o que queres, quererás ouvir-me e estar comigo? Não tem de ser nada que não queiras, só e apenas o que desejas. Colecciono sinais de fumo no sussurro que me diz que sim. Sem condições - confias em mim?...
Ter e Não Ter
Imagino a sedução a preto e branco, como uma cena perfeita num fime antigo, assim, como Howard Hawks filmou em «To Have And Have Not» (Ter e Não Ter), a partir do que Hemingway escreveu. Imortais Humphrey Bogart (Steve) e Lauren Bacall (Slim), na melhor cena de sedução de sempre. As palavras ficam aqui, o resto puxem pela imaginação ou vejam (e revejam) o filme que vale sempre a pena:
Slim sits on Steve's lap. Before kissing the seated man for the first time, she acts the aggressor role as they engage in flirtatious sexual repartee:
Slim: You know, Steve, you're not very hard to figure. Only at times. Sometimes I know exactly what you're going to say - most of the time. The other times (She sits in his lap), the other times you're just a stinker. (She plants a kiss on his lips.)
Steve: What'd you do that for?
Slim: Been wondering whether I'd like it.
Steve: What's the decision?
Slim: I don't know yet.
Her verdict of his kissing talent requires a second kiss. Then, after kissing him again, he appears baffled. She suggests to her passive partner as she stands:
- It's even better when you help.
When this remark doesn't work and produce a satisfactory reaction, she propositions him midway from leaving his room with other famous lines, delivered with a purring, warm voice:
Slim: (She holds up the bills again.) Uh, sure you won't change your mind about this?
Steve: (affirmatively) Uh-huh.
Slim: This belongs to me and so do my lips. I don't see any difference.
Steve: Well, I do.Slim: Okay. You know you don't have to act with me, Steve. You don't have to say anything and you don't have to do anything. Not a thing. Oh, maybe just whistle. (She opens his door and pauses.) You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and blow.
- It's even better when you help.
When this remark doesn't work and produce a satisfactory reaction, she propositions him midway from leaving his room with other famous lines, delivered with a purring, warm voice:
Slim: (She holds up the bills again.) Uh, sure you won't change your mind about this?
Steve: (affirmatively) Uh-huh.
Slim: This belongs to me and so do my lips. I don't see any difference.
Steve: Well, I do.Slim: Okay. You know you don't have to act with me, Steve. You don't have to say anything and you don't have to do anything. Not a thing. Oh, maybe just whistle. (She opens his door and pauses.) You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and blow.
terça-feira, 23 de janeiro de 2007
Volta - Não Volta
Se eu conseguisse dar-te a volta como tu dizes que sim, não estarias tu aí e eu aqui. Se eu conseguisse dar-te a volta que quero dar, quem sabe o que ganharias em vez do que pensas perder se isso acontecesse. Assim, vou dando outras voltas até chegar-me a mim e, entre as voltas que dou e as que dá o mundo, reparo em quem me dá balanço para dar a volta por outro lado. E, assim, um dia não voltarei a dar a volta por ti. Sei que precisas de mim, embora eu não seja completamente o que precisas. A paz de espírito que não tens não virá nunca nos conselhos fáceis dos que procuras como voz 'amiga'. São conselhos asseados, muito correctos, que outra coisa esperas que te digam? Se fossem verdadeiramente amigos olhavam bem para ti e ouviam seriamente o que ainda não sabes dizer em voz perceptível. E, então, aconselhar-te-iam algo realmente útil, em vez de se apressarem na resposta mais fácil e oca que a desatenção lhes dita, porque até vozes desconhecidas dizem bem mais do que isso. Precisas de mim, porque só eu conheço verdadeiramente o outro lado de ti e tu sabes que sim. Se eu não existir onde tu me sabes, morre mais um bocadinho do que te resta de ti, até te perderes num insuportável vazio... se eu conseguisse, realmente, dar-te a volta, percebias ao menos isso que te quis dizer. Leva-me a dar uma volta que o inverno chega mais depressa do que tu imaginas.
segunda-feira, 22 de janeiro de 2007
Metáfora
Através do vidro, do lado de fora, uma espera de teia estendida. Silenciosamente atenta. Não há vida daquele lado, mas não desiste. Não lhe ouço o movimento, mas vejo que ele existe. Sinto-lhe ansiedade na guarda à vítima que observa. Admiro-lhe a paciência faminta da vida que todos os dias encurta sem nada lhe sobrar, a não ser o que lhe fica da espreita metódica e silenciosa ao que está por detrás do vidro. O que ela não sabe é que na teia é sempre Outono e por fim, fatalmente, o Inverno. E, alguém escreveu, há só um caminho para a vida, que é a vida...
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
De que são feitos os teus dias?
De que matéria é feita a corrente que nos prende a alguém contra todas as probabilidades de segurar o que foi desfeito? Há elos invisíveis que o tempo não corrói e que a distância não consegue abrir. A minha verdade é diferente da tua. A tua verdade não me inclui para coisa nenhuma, a tua verdade desconsidera-me e segura-te no teu caminho. Compreendo a tua escolha, mas isso é tão pouco quando me pergunto 'afinal o que compreendeste de mim?' A minha verdade alguma vez te fez perder as horas da noite a pensar que tenho alguma razão ainda que não concordes comigo? Compreendes o que sinto? Não podes - adivinho-te resposta. Não podes porque eu não existo no teu aqui e agora, sou um resto de ontem e ontem já não existe também e não se perde tempo a compreender o que é passado e já não tem importância, o que está arrumado numa qualquer prateleira invisível do armário que guardas interiormente, fechado a cadeado. A minha verdade é feita da matéria das correntes que me prendem ainda a ti. Incomoda-te o que eu sinto, eu sei, mas sinto. Não tenho nada a ganhar ou a perder. Seja como fôr, não te vou atrapalhar com o meu querer, importa-me apenas que, mesmo longe, sejas feliz. Conseguiste cumprir o que a tua razão impera? 'O teu coração e o teu corpo já desistiram de mim' como querias? Gostava tanto de saber como preenches, por dentro, os teus dias...
quinta-feira, 18 de janeiro de 2007
'U' turn
Porque há histórias de coragem. Porque há pessoas que num determinado momento da vida dão a volta ao contrário e decidem outras coisas que não o socialmente aceitável, contrariando as expectativas de toda a gente. Porque há quem descubra um outro mundo de repente e, de forma inesperada, sinta que tem de mudar de vida por si e não pelos outros. Porque há quem não desista contra todos os riscos e pressões. Porque há quem, perdendo o que deixou para trás, ganhe uma nova vida no que encontrou entretanto. Porque há quem perceba que há outras saídas que não apenas o modelo em que fomos formatados. Porque há quem, tendo uma família e vida construída, tenha decidido pelo amor e não se tenha arrependido. Porque a verdade é o melhor caminho que podemos ensinar aos filhos. Porque temos obrigação de ensinar mais do que nos foi ensinado. Porque o amor protege e segura... Porque o mundo pula e avança / como bola colorida nas mãos de uma criança, como diz a canção que fala do sonho... hoje escolhi um testemunho de coragem e maturidade - obrigado Blue, por me deixares publicar este pedacinho de ti que partilhaste comigo em privado:
"O facto de uma pessoa ser mãe (o que poderás pensar que condiciona as decisões) não é um impedimento sério caso uma pessoa leve uma determinada relação a sério. Podes fazer sacrifícios em nome dos filhos, todas as mães os fazem, mas virar as costas a alguém que tanto se ama... os filhos não servem como justificação para isso! Nem eles algum dia reconhecerão tudo o que fizeste por eles! É nossa obrigação fazermos o melhor que podemos e sabemos, mas isso não inclui abrirmos mão da nossa felicidade ou, pelo menos, de tentar alcancá-la da maneira que melhor entendermos. Os filhos justificam decisões quando as pessoas não querem mudar as coisas... mas, nesse caso, não é por eles que não mudas, é mesmo por ti! Sabes... acho que talvez seja isso... talvez haja quem não tenha maturidade suficiente para assumir e enfrentar as suas opções, independentemente de ser mãe ou não. Claro que não sendo mãe é mais fácil, não tens de pensar nos danos colaterais e nos impactos na vida deles... mas, sendo mãe também podes escolher o teu caminho, desde que esse caminho seja verdadeiro e honesto e que, obviamente, não prejudique a relação que tens com os teus filhos. (...) ser mãe faz parte de mim, parte do que eu sou e a pessoa com quem me relacionar tem de aceitar o facto de que parte do meu tempo é dedicado às minhas filhas, pelo menos enquanto elas forem pequenas.
(...) As pessoas são para nós aquilo que mostram ser, os seus actos, mais do que as suas palavras, tornam-nas mais admiráveis (ou menos) aos nossos olhos. É no seu modo de vida que tu encontras a veracidade daquilo que elas são..."
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