sábado, 6 de setembro de 2008

Regresso a casa

Lawrence Ripsher, Double Parked, 2006

Devagar, tão lentamente quanto a ideia feliz de que os dias não têm medida porque começam e acabam em minutos precisos fora do relógio normal das horas, regresso a casa. Regresso ao tempo do mundo que deixámos adormecer e acordar sem nós, regresso à vida que fica do mesmo lado do espelho de toda a gente, ou de quase toda a gente porque há excepções à regra. Os dias e as noite quase mediterrânicos acabaram e deles já só resta a poeira do que conseguimos lembrar e sorrir no que recordamos. Mas é deste lado que nós somos por completo a vida. É deste lado que estamos sempre, mesmo quando distraimos das horas nos intervalos. Voltar a casa é voltar ao Sempre e voltar ao Sempre é acreditar no infinito para além da parede do quarto que é infinito como o Amor que nele acontece sem medida de tempo nem noção de espaço que não seja a escala do corpo, do coração e da alma. Voltar a casa é voltarmos completamente ao que é único e só nosso e encontrarmos o Sempre à nossa espera.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Ir e Voltar

Anabark, Na Parede (MAI07)

Vou, mas voltamos. Vou ao encontro do teu abraço que me espera há muitos milhões de dias, tantos que lhe perdi a conta. Finalmente parto para a chegada onde me esperas há mais de uma vida em tempo contado segundo a nossa medida. Vou agora e voltaremos as duas...
Boas férias...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Ausência

Adalberto Tiburzi, Cat on a hot fiberglass roof, 1978

Voltei. Ou talvez apareci. Para voltar era preciso que tivesse partido. Não parti. Ninguèm volta ao lugar de onde nunca partiu. Este é um lugar de partida impossível. Às vezes demora com razão, outras vezes não, demoro simplesmente. Partir não parto. Estar ausente é uma demora prolongada apenas. De resto, tudo permanece no mesmo sítio. O Amor não parte nem tira férias. O Amor é o infinito daquilo que existo sem a mais leve demora.

domingo, 27 de julho de 2008

No centro do centro

Paul Smetsers, New York - I just arrived, 2006

Acabo de chegar, ou como quem diz acabo de acordar. Acabo de chegar de ti e acabo de voltar-te ao mesmo tempo. Do sonho, onde começamos o abraço, até ao despertar na manhã seguinte, sem descansar do beijo, vão muitas viagens que quase nunca recordamos pela pressa de acordar e sentir o corpo no corpo tal como adormecemos. E todas as noites passadas são viagens ao centro de nós, ao centro da terra que nós somos e à aventura que construímos hora à hora, desde o primeiro momento no tempo que passou até ao Sempre em que nos cumprir. São mil viagens de sonho e outras tantas de caminho percorrido. São mil formas de explicar o infinito ao mundo que acredita na improbabilidade de acontecermos para toda a vida. Viajamos pelo centro de tudo em vôos rasantes por dentro e por fora de nós. E todos os dias aprendo que o Sempre é a nossa viagem de fora para dentro, de encontro ao centro onde tudo começa, tudo nasce e nada se acaba, onde somos sem fim o princípio de tudo e tudo para além do explicável. A pele que nos sabe de cor num movimento único guarda o perfume da viagem onde tu e eu nos confundimos no centro do centro da vida. Pele da minha pele, sangue e alma única, és tu em tudo o que me anima.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Transparência

MCsaba, 1st: Roundish Manifold, 2007

Tenho momentos de corpo e alma translúcidos que tu encontras e seguras docemente como quem adormece só depois do sono chegar primeiro a quem amamos. Tenho momentos de tão pura lucidez que só existes tu no que eu sou desde que a vida nos juntou num mesmo caminho. Tenho a lucidez de reconhecer que o Amor é o milagre da vida e que para além dele tudo é noite e morte anunciada. Do tanto que há para saber sei esse pouco que, em mim, é infinito. E quando te olho e me detenho no teu sorriso que se espalha pelo meu corpo, sei com toda a certeza que a vida é a tua presença em mim. Se todos os dias acordo e me lembro de respirar é porque te sei comigo abraçada na mesma intensidade. Temos sorte, temos o Amor em nossa casa, vivo e bem cuidado, que nos aninha os dias no veludo da eternidade.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Contra-relógio

Bart Aldrich, Clouds 2, 2007

Há dias que passam e que quase não vivemos porque o tempo se esvai nas horas que nos apressam para chegar a tempo à irrelevância das coisas e às coisas irrelevantes. E o cansaço que fica da corrida entre dois ou três lugares incertos e outros tantos não-lugares esgota-nos o corpo e deixa-nos sem fôlego a caminho do voltar a casa. Hoje corri o dia inteiro e acelerei o que pude para chegar ao fim do dia. Hoje, que mal dormi, apressei-me em tudo o que fiz num contra-relógio para te voltar. E cheguei-te num contratempo que nos atrasou sem querer o que é nosso. E neste compasso que nos atrasa o mundo que somos nós, deixamos que a noite nos descanse os músculos e nos repouse a alma numa espécie de baloiço feito de braços e do abraço em que nos temos sempre e em toda a parte. Estou cansada, mas sei que tu me embalas no teu corpo daqui a pouco. Estou cansada, mas não me faltam forças para te embrulhar, num beijo, um sono descansado. E assim se desfazem os nós dos dias apressados, nesta simplicidade reparadora que o Amor encerra quase de forma inexplicável.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Uma na outra

Zenmatt, Heart Ribbon, 2008

Deixa-me acordar-te todas as manhãs com a felicidade da primeira noite que vivemos numa só. Deixa-me dizer-te bom-dia com o mesmo sorriso que nos adormece o corpo depois de entretido, pele na pele, entre o suor e alma. Deixa-me abraçar-te a manhã com o aconchego de um corpo noutro adormecido. Deixa-me despertar no sabor dos beijos que, no ontem, deixamos suspensos só porque o sono nos venceu. Deixa-me encontrar-te todos os dias da mesma forma absoluta com que o coração me diz, minuto a minuto, que és tu para o resto da minha vida. Deixa-me ser para sempre a vida dos teus olhos e tu a alma da minha vida. Deixa-me sempre na boca esta vontade de mais, infinitamente.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Sobremesa

Andrea Aschedamini, Yellow & Metal

Sobre a mesa estás tu. Sobre o chão, sobre a terra, sobre as montanhas que a decoram, sobre tudo e sobretudo existes tu. Não me lembro de mais nada para além da forma como ocupas os meus pequenos grandes dias. Não me lembro de existir um mundo sem ti. Não sei sequer se é possível que o mundo tenha existido sem ti. Porque mesmo antes de existir um nós, havia em mim uma ideia, um conceito e a secreta esperança de que existisses fora da minha cabeça. Eu nunca vivi sem ti. Antes de me encontrares, vivi num intervalo de tempo, numa pausa feita da experiência necessária para saber reconhecer-te como o elo primordial do sentido que me segura à vida. Sobre a mesa estamos nós numa refeição que nunca nos satisfaz porque porque tudo nos sabe a pouco. E tudo tem o valor do infinito. Bom e mau faz parte da vida. Sou maior pelo que aprendo no que nos revelamos sobre a mesa. Bom e mau, somos inteiras e nada pela metade. Não quero nenhum paraíso artifícial, quero o bolo todo e as migalhas que sobrarem. Quero-te a ti completamente, nem mais nem menos. Quero-nos condenadas pelo pecado de sermos livremente a imperfeição humana que, todos os dias, nos apaixona incondicionalmente. Quero-te como a sobremesa da vida na vida de todos os dias, assim, tão única quanto um ingrediente mágico e secreto, que vale a eternidade.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A caminho de casa

Zenmatt, Mimicry, 2008

Quando, porque estamos longe, o Tempo pára na pressa de voltar a casa, invento horas que passam a correr e coisas que aconteçam mais depressa do que é possível acompanhar. E as horas não passam, pesam-me nos olhos e nos gestos, e teimam em ficar. E assim, lentamente, eu espero e me faço esperar. Aqui e aí são pontos de partida e de chegada onde, suspensas, aguardamos em passo apressado. Por vezes, invento-nos num jardim onde nos encontramos para descansar esta pressa absoluta de não nos chegarmos tarde nas horas. A urgência de nós é o ritmo cardíaco que nos anima e nos atravessa do coração à alma. Quanto tempo tem um segundo longe de ti?... Anos, eternidades.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

O mundo na mão

Zenmatt, Turn, 2006

As voltas que o mundo deu para te encontrar foram tantas, tantas que cada beijo teu sabe-me ao desejo infinito de que são feitas as paixões maiores que o Tempo com que o Amor nos embrulha corpo e alma. Antes de me chegares, andei e caí muitas vezes, cuidei que corria e que avançava. Mas não. Derivava em círculos, tropeçava e nem sempre percebia os passos pelo caminho mal decorado. E um dia o mundo deu uma volta e fiquei de pernas para o ar. Tu existias no mesmo hemisfério e chegaste-me por fim. E tudo ao contrário parecia fazer sentido pela primeira vez em todas as vidas que tive antes de ti, talvez porque antes de ti não vivi, só passei pelo mundo de forma parada. Nas voltas que deste até mim passaram para ti outras tantas vidas. Hoje, que somos Uma desde a primeira hora, pouco importa o Tempo, porque o Amor é feito de uma certeza que nos transcende em múltiplas dimensões. Hoje o mundo é do nosso tamanho e as voltas que lhe damos têm a duração exacta do nosso abraço infinito.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Viagem a cores

Jeanne Newman, Postcards from Lodz Series, 2004

Todas as horas me sabem a ti e todas as horas que passam longe do nós que somos inseparável me parecem viagens infinitas e desertas de cor. Porque a vida que descubro neste estar contigo é vida plena de alma. Quando viajo sozinha corro para te chegar porque em qualquer parte do mundo ou canto do universo tenho um único destino: tu. Não descubro nem contemplo paisagens pelo caminho, porque não há paisagem onde tu não estás comigo. Não me distraio a olhar o que não posso partilhar contigo nem perco tempo à procura de postais. Não reconheço cor na fotografia onde não te encontro. Onde não me partilho contigo não há luz. Este estado de emergência de viver-te sempre mais é uma missão sem retorno, uma forma de vida absoluta, porque viver é partilhar e encontrarmo-nos no que temos para dar e receber a toda a hora. Aprendo mais de mim no que me descobres em nós e no nós que construimos vou coleccionando partes de ti, umas que me ensinas, outras que vou desvendando na paisagem que compomos nos tons do que sentimos por debaixo da pele. De nós vem uma luz diferente que não brilhava antes isoladamente. Do nós reflectem cores e possibilidades infinitas de desenhar paisagens, mudando as montanhas de lugar. Se nós quisermos conseguimos ser imortais.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Antes de ti

Bill Warren, Building in red clay Series


Antes do Amor acontecer na sua vida coleccionava os dias coomo puzzles à espera de solução invariavelmente adiada para o dia seguinte. À noite, de regresso a casa, punha de lado os sacos pesados das horas trabalhadas sem minutos vazios e a roupa usada no corpo como papel de embrulho da intermitência da alma e instalava-se, confortável, no sossego das horas de nada. Frequentemente procurava o mesmo cd para lhe fazer companhia. O piano e o suave compasso da melodia dos Rachel's percorriam, insidiosamente, a sala transformada numa nuvem de sons contemplativos que ficavam à espreita. Mergulhada em si mesma, deixava-se observar pelos sons, enquanto pensava os dias como ficheiros temporários de vida, sem pormenores de grande importância, ausentes do essencial. Ficheiros temporários com a validade de 24 horas, facilmente descartáveis sob uma imaginária tecla de 'delete'. E os dias passavam, substituindo-se automaticamente. E a vida passava sem vida. Viver não seria apenas esconder-se atrás dos dias e da força das circunstâncias. Quando o Amor aconteceu descobriu o princípio, o meio e o fim de tudo, a grande razão de Ser para além do existir simplesmente. E, desde então, sorri naturalmente e todas as noites adormece aninhada na música que o coração lhe escreve na pauta dos dias maiores do que a vida e para além da eternidade.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

As ondas de um copo água

Charles Rettner, Liquid Ice

E as tempestades de que, às vezes, escrevo, são ondas num copo de água. São feitas de vento e de vontade de ser tudo mais e sempre melhor. São tempestades em que as agulhas de chuva são faíscas de Amor em lume, num incêndio permanente. São quase nada e tudo na mesma hora. São um querer desesperado porque impaciente. As tempestades que nos acordam numa côr diferente são a força de nos querermos mais do que nos podemos imaginar. As tempestades que nos agitam momentos nem por isso inteligentes são a intensidade que nos segura o abraço em que sempre adormecemos. A tempestade só é tempestade quando não percebemos que somos maiores do que o mar insignificante que acontece num copo de água agitado. Porque somos um universo sem princípio nem fim. Se somos mar que sejamos sempre sem limites o beijo que nos navega infinitamente corpo, alma e coração.

sábado, 28 de junho de 2008

Intervalos de chuva

Zenmatt, A Hard Rain Is Gonna Fall, 2007

Nem sempre o que brilha são estrelas, nem sempre o que dizemos é ouvido como foi dito à partida. Nem sempre reagimos com razão universal. Nem sempre pensamos ao encontro do outro. Nem sempre nos encontramos à mesma distância. Nem sempre sabemos o que pensar. Nem sempre percebemos o que nos querem dizer. Nem sempre estamos no mesmo sítio na altura certa. Nem sempre estamos de olhos abertos atentos a tudo como gostaríamos. Nem sempre acertamos. Falhamos e nem sempre comprendemos como. Falhamos. Conheço a culpa do que digo com intenção e a impotência perante uma má interpretação. Sei de cor a minha culpa nas coisas que digo pensadamente. E sei também as coisas que digo por dizer sem prejuizo intencional. Falho de ambas as maneiras, como quem não sabe dizer sem magoar e magoar-se. Um dia saberei interpretar tempestades e andar por entre os intervalos da chuva. Um dia serei capaz de evitar as poças de água de um lado e do outro do nosso caminho. O meu coração continua no mesmo sítio, abraçado a ti.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Simplicidade

GeorgeV'Myer, Drawing with light series

Das coisas mais simples que existem gostar naturalmente de alguém é a essência da simplicidade. Não sei explicar porque gosto, gosto simplesmente. Amar é gostar tão infinitamente que saber porquê é uma profunda redundância. Acontece e todas as explicações são dispensáveis porque sentimos e o que se sente explica-se na forma como nos damos ao outro e sabemos receber. Hoje quero dizer-te uma coisa que de tão simples chega a ser complicado escrevê-la na mesma forma simples e natural que te sinto em mim. Hoje quero dizer-te o que encontro em mim em cada segundo à espreita para te fazer saber. Porque tenho medo que te esqueças. Porque tenho medo de não dizê-lo vezes suficientes. Porque preciso dizê-lo em cada instante. Porque sou eu contigo e tu és vida em mim. Hoje quero dizer-te tudo o que já sabes numa palavra apenas: amo-te... Assim simplesmente.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Ao acordar

George V'Myer, Rock Forms Series, 2005

Acordei só para te dizer que estava a sonhar sontigo. Acordei para te chegar mais de perto. Acordei porque não durmo muito tempo sem te abraçar. Acordei só para te dizer isto meia a dormir. Volto a fechar os olhos não tarda nada. Só tarda a tua vinda e neste tempo em que te espero desespero no espaço que me sobra nos braços da tua ausência. Durmo o que falta à manhã e vou deslizar pelo dia, suavizando as arestas das horas sem ti. Vem cedo, Meu Amor, porque cedo é sempre tarde para quem te quer sem intervalos.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Iluminada

Linda Alstead, Sunshine on Teasel, 2005

Todos os dias nasces em mim como a Terra amanhece debaixo do mesmo Sol de sempre. Todos os dias és mais centro e mais verdade em mim. E a minha verdade é aquela que me faz ter a certeza de que existem histórias de amor felizes, porque a felicidade de amar é sentir profundamente cada instante debaixo de sol ou chuva e amanhecer inteira a vontade de um sempre incondicionalmente. O Amor, aprendi, não é um estado superficial de embriaguez dos sentidos. O Amor é extâse e contratempos e um constante bem-querer que nos transcende e que nos segura cada passo mesmo que caminhemos às escuras. Porque nunca é noite no Amor. Sei por onde vou, caminho sob a luz que me amanhece todos os dias num beijo infinito e num toque de pele sem tempo. O Amor não sabe contar as horas que passamos lado a lado. No Amor só existe o tempo infindável da espera e da saudade. Sei por onde vou. Vou contigo para todo o lado. Porque sou esse caminho de vontade e nós somos um destino de eternidade.

domingo, 15 de junho de 2008

Dias livres

Niki Conolly, Lost in Cool, 2008

Agora que o Verão se instalou do outro lado da esquina, espero-te à sombra, sob a frescura quase azul que carrego numa garrafa de água fresca. Nestes dias cheios de calor em que eu te espero e tu me chegas a correr, entretenho as horas, distraindo os minutos com histórias sem muito sentido ou, talvez, sem sentido sequer. Espero que chegues e que tragas sede e que eu te sossegue nesta sombra que mantive, do meu lado, fresca à tua espera. Quero que te sentes ao meu lado e deixes o teu dia para trás e que sintas comigo a brisa que pintei de azul de mar aqui deste lado da esquina em que fui trabalhando a tua chegada. Quero que descanses no meu tempo os contratempos que te demoraram até casa. Quero abraçar-te as horas do dia em que os braços se ausentaram e sentir-te o corpo aninhar a noite em nós e assim adormecer numa única almofada. Desperta-me quando for dia com a ternura que te conheço em todas as manhãs na mesma esquina do sonho. Vou preparar-te a noite durante o dia e quando voltares vou embrulhar-te num sopro de vento fresco, a lembrar os dias de mar que nos aguardam a chegada. Tenho água sempre fresca nos lábios que te beijam o regresso a casa.

domingo, 8 de junho de 2008

Ensina-me...

George V'Myer, Eucalyptus Bark

Por mais camadas em que te descubra há um querer-te mais porque és mais em mim por cada cor em que te revelas. E tudo tem um encanto próprio e um sentido cada vez mais definido mesmo quando não me encontras exactamente no sítio em que me procuras. Por vezes perco tempo precioso a brincar às escondidas, mas só aparentemente deixo de estar onde tu estás. Por vezes perdemos tempo que não devemos desperdiçar escondidas por detrás de pensamentos descarrilhados que nos escapam e nos distraem do essencial. Mas a vida é também essa indiciplina que nos reforça o laço e nos faz mais inteiras nas nossas múltiplas camadas. Se te quero para o resto da minha vida quero viver-te nas mil cores que reflectes nos meus olhos que nunca te perdem de vista. Porque és mais tu e sou mais eu no que nos deixamos conhecer e tocar. Porque somos mais nós no tanto que nos sabemos amar. Não me leves a mal a imperfeição, pensa-me um projecto em construção, uma obra inacabada. Cresço e aprendo contigo um mundo inteiro. Aprender-te é amar-te e querer-te sempre mais.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Inquebrável

CM Kwan, Grey Hairs, 2008

Se tudo correr bem, e vai tudo correr bem, os meus e os teus cabelos serão tornados brancos, sem excepção, pelo tempo por onde passeamos demasiado depressa para viver mais e chegar mais além. E eu vou olhar para esse teu branco de neve que os anos acumularem na tua cabeça e vou sorrir feliz como quem chega ao cimo de uma montanha. Por dentro pouco muda porque o Amor não envellhece. O Amor nasce e cresce e nunca chega a morrer. Amadurece porque isso é conhecer mais um bocadinho de nós a dois. O Amor é a força com que vencemos a montanha, a mão que nos segura a queda e nos levanta do chão para continuar. O Amor é a habilidade de olhar para dentro e mudar de sítio as peças soltas para arrumar melhor o lado de fora. E mesmo que tudo nos pareça virado ao avesso, o Amor é acreditar numa ordem primeira e inalterável, aquela que nos segura uma vontade de vida infinita, um querer intocável. Mesmo quando os dias acontecem fechados num círculo escurecido, sei que te tenho comigo tão de dentro que não perco de vista essa luz que és em mim e que me aquece a alma que se me aninha no coração.