Assim, no meio de uma paisagem aberta ao infinito, visto-me de céu e saboreio o vento que me empurra. Tenho a sorte de reparar na brisa e nos diferentes tons de azul que me espreitam lá de cima. O espaço que ocupo é pouco mais do que o meu tamanho e, por pouco que seja, não preciso de mais porque não sou mais do que eu mesma, logo dispenso o excesso ao qual não serei capaz de dar uso. A dimensão das coisas é a grandeza da vida interior que as habita e não o que a física torna lei. Do tudo ao nada vão muitas vidas num só tempo, vidas de nada e vidas de tudo. A existência perfeita é aquela em que coincidimos no que somos com o que os outros nos reconhecem. É difícil, senão impossível - somos múltiplos em nós mesmos e nos outros uma imagem apenas. Numa paisagem deserta, embrulhada de vento, tudo parece mais simples e inteligível.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
A fragilidade das horas
A fragilidade dos dias é vivida hora a hora, segundo após segundo. De um momento para o outro a luz pode tornar-se noite escura, impossível de navegar e, por vezes, definitiva. E nem sempre nos damos conta deste estado de fraqueza que é passar pelo tempo sem perceber que os dias passam sem retorno. Esbanjamos o que não é nosso, deitamos a perder o que jamais conseguiremos ganhar. De uma hora para a outra perdemos tempo de vida a pensar que temos uma vida cheia e adormecemos indiferentes à contagem decrescente que, irremediavelmente, caminhamos. Consumimos tempo por tudo e por nada menos pelo que é essencial. Ou porque achamos que os dias não têm fim ou porque não sabemos o que é importante. Passamos pela vida sem cuidar do jardim cujo o verde primavera, um dia, terá fim. Não chegaremos a tempo de salvar coisa nenhuma se não soubermos a medida exacta de cada segundo que respiramos.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Do lado de fora, o Inverno
Agora que o Inverno se aproxima da cidade onde tu e eu somos uma, dou-me conta que esta é a primeira estação fria que passamos em nossa casa. As minhas mãos frias nas tuas, tão geladas quanto as minhas, encontram debaixo da tua pele um verão tão longo quanto o Amor que nos embrulha indiferente às estações e à mudança de cor da paisagem. O tempo frio e as tempestades são meros intervalos que nos engrandecem o aconchego de um nós sempre quente e pulsante como a vida que anima as montanhas de fogo. Em nossa casa há mantas quentes em cada corredor da alma e no quarto abraça-nos um sol permanente como o centro de luz que organiza galáxias e dá forma ao Universo. O frio não nos chega, o calor que vem de dentro retem o Inverno à porta de casa. O Amor embrulha o teu corpo quente no meu e quando adormecemos sonhamos com a luz intensa que nos abraça o passado, o presente e os dias por vir.
sábado, 1 de novembro de 2008
Things to remember
Ricardo Alves, Seascapes of Portugal (Praia da Adraga), 2008"...Love Anything
Use a metaphor and tell us that your lover is the sky
Sometimes
Sometimes nothing often means the beauty of the human experience
These things are to be remembered
To be remembered"
Use a metaphor and tell us that your lover is the sky
Sometimes
Sometimes nothing often means the beauty of the human experience
These things are to be remembered
To be remembered"
PETER MURPHY, "Things to remember"
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Lá estaremos no Coliseu, hoje à noite, para lembrar com o mesmo prazer de sempre...
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Ao relento
Hoje senti frio a caminhar pelo dia soalheiro que nos amanheceu. Senti o frio de não te encontrar nos meus olhos durante o intervalo que deixámos por fazer. E o dia foi passando por mim a reclamar por atenção, indiferente ao frio instalado debaixo da pele que só aquece ao pé de ti. Agora que as horas mudaram e é quase noite sem o ser aqueço as mãos uma na outra, para que o sangue me regresse nesta pressa que tenho de chegar-te a casa. E tu, que corres mais depressa contra o tempo que não te sobra e estarás à minha espera, poderás reparar no arrepio dos dias sem ti, que disfarço no calor destes braços urgentes para te aconchegar. O meu abraço queima da impaciência que o dia me acrescentou. Se as palavras falham tantas vezes a eloquência de te fazer saber o que sinto, os braços que te abraçam têm a força de ontem e a confirmação de amanhã. Hoje celebro a certeza de que é em ti que quero morar em todas as estações do ano.
domingo, 26 de outubro de 2008
Segundo a segundo
Sheila Smart; Dali's clock with second clock, 2002A vida é a soma das horas e do que deixamos construido nelas. Depois do fim dos dias, seremos apenas o que deixarmos ficar da nossa presença no tempo que percorremos dentro e fora de nós. Nada acontece sem consequências, tudo é um princípio um meio e um fim. Cada gesto, cada palavra contam, fazem a diferença de um antes e um depois na distância que vai daqui a ali. A vida é esse contra-o-tempo em que corremos todos os dias de olhos fixos no relógio. Por vezes, perdemos tempo e envelhecemos nessa inconsciência. E quando damos por isso é tarde demais para regressar ao ponto útil das coisas, porque o momento certo não se repete, é único e quando acontece é nossa missão fâze-lo durar para toda a vida. Sensatez e sabedoria é perceber que o tempo que dispomos, que é tão pouco para o tanto por fazer, é valioso em cada segundo.
sábado, 25 de outubro de 2008
Escada
Subimos e descemos quilómetros de vida. Aqui e ali paramos e depois continuamos, nem sempre descansamos. Subimos e, por vezes, caímos. Descemos e, por vezes, escorregamos. Por vezes magoamo-nos e magoamos. Subimos e descemos quilómetros de incerto, de corpo tremido pela dor dos estilhaços da queda. Subimos e descemos em círculos e partimos e chegamos ao mesmo sítio incansavelmente. O caminho é uma escada em caracol, porque a vida não é uma recta. São montanhas e planícies que nos olham de frente como desafios à grandeza da alma.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Sem igual
Sabes o que é tão único como o inexplicável do Amor? É encontrar em cada beijo teu uma nova casa com a dimensão de lar. Nos lábios que se queimam neste encontro de almas há uma transcendência que apenas alguns poderão testemunhar. Tenho a sorte de aprender contigo a vida e o que houver depois disso, se alguma coisa houver depois de nós. E se nada houver, viveremos em tudo o que ensinarmos agora. O que é urgente é este Amor infinito que torna caminhos de pedra em passadeiras de veludo. A minha pressa é apenas essa, percorrer-te passo a passo como um milagre que me faz maior por dentro e mais inteira pelo entendimento da verdadeira essência das coisas. E vejo-te crescer como eu e repouso nessa tranquilidade de quem tem a mesma terra debaixo dos pés. Sabes por que é, afinal, tão único e inexplicável o Amor? Porque nos abraçámos por debaixo da pele contra todos os improváveis. Que outra coisa existirá com a mesma força de infinito?
sábado, 18 de outubro de 2008
Noite e dia
Porque queremos tudo ao mesmo tempo e desejamos infinitamente o que não conseguimos ter no mesmo momento. Porque inventamos caminhos e pintamos de nós o céu e a terra por onde viajamos. Porque procuramos canções em que a rima vem de dentro e não da forma arrumada das palavras. Porque acreditamos uma na outra mesmo quando o que dizemos, desastradas, não faz muito sentido. Porque sabemos que não há vida sem nós porque tu e eu somos uma. Porque sentimos para além da pele a aflição da ausência e sabemos que sem nós morremos. Porque a vida só é vida quando o sonho existe. Porque vivo um sonho. Porque tu existes, porque te encontrei. Porque nos temos. Para sempre e mais um dia. Sweet dreams are made of this...
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
domingo, 12 de outubro de 2008
Quinta Dimensão
Olho à minha volta e para dentro também. Observo as marcas, os rasgos na paisagem que vai mudando na sucessão dos dias. Tudo acontece naturalmente como uma queda de água durante o degelo que anuncia a Primavera. Tudo é tão inevitável, tão cheio e dramático também. À minha volta observo objectos envelhecidos e todas as outras coisas que, a seu tempo, chegarão ao fim maltratadas pela inevitabilidade dos anos que passam. O tempo envelhece por fora mas nem sempre por dentro, nem sempre nós e o tempo que nos assiste caminhamos em simultâneo. Nós, por exemplo, respiramos à margem do tempo e vivemos para além dele. Nós, por exemplo, rejuvenescemos por dentro ao cumprir cada beijo que nos falta dar, porque te devo, e tu a mim, todos os beijos que não demos antes de nos encontrarmos. Nós, por exemplo, abraçamos o Amor como se os dias tivessem pouca importância na força do abraço que é sempre mais intenso e mais demorado, imenso. Nós, por exemplo, não somos o tempo, somos a força de vontade contra a qual o tempo nada pode. Porque queremos passado, presente e futuro tudo na mesma hora, porque o que nos habita não é tridimensional. O Amor é a nossa dimensão de corpo e matéria sem fim.
sábado, 4 de outubro de 2008
Toda a vida
Se 'para-toda-a-vida' fosse uma paisagem, eu seria o farol a abraçar-te o caminho, a olhar-te por ti incansavelmente, da noite escura às manhãs cheias de sol, através do nevoeiro ou da transparência dos dias de cristal, sempre no mesmo sítio de porto seguro, de terra firme onde podes descansar confiante de que o nosso abraço vale a eternidade. Sou essa vontade de horizonte sem fim, de braços estendidos para um nós cada vez mais além, forte e infinito como tudo o que nos prometemos com absoluta certeza do que sentimos. Se 'para-toda-a-vida' fosse o instante de beijo apaixonado, eu beijar-te-ia com o desejo de quem te descobre os lábios pela primeira e última vez, como se não houvesse mais dias a não ser o momento exacto em que duas almas se encontram e se fundem num único corpo. O que tenho como certo é que 'para-toda-a-vida' é hoje e o que sabemos ser hoje, o que aprendemos agora, o que damos de nós livremente e recebemos com a mesma vontade. Vivemos no encadeado dos dias, sei que o resto da minha vida é feito de hoje e, hoje, eu aposto tudo.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Inexistência
Se o mundo, amanhã, chegasse ao fim teria pena, muita pena, pelo tempo que não tive contigo, pelo tempo que não nos sobrou, pelo tempo que tardámos desencontradas. Este tudo que tenho em nós me parece sempre pouco, porque o Amor não tem medida e nada esgota a vontade de mais longe e mais além, de mais caminho, mais luz e mais céu e terra ao mesmo tempo. A imensidão que me embrulha em ti não tem fim, porque não tem princípio senão na essência do que sou, de tudo quanto me começa e me acaba. Sem ti não seria eu, porque eu sou aquilo que sinto e me define e este tanto que te quero e que me faz sentir vida é a minha própria certeza de existir. O Amor é tudo o que vale a pena, o resto são formas de enganar o vazio de quem se procura sem se encontrar. O Amor dá-nos a certeza de um lugar próprio e um sentido que nos cumpre e nos completa. Eu-sem-ti é uma vida impossível, porque não há vida para além de nós. Sem ti, só imagino a inexistência.
domingo, 28 de setembro de 2008
Lembra-te...
A nossa casa, sem pedra nem ferro, tem a força das árvores que rompem o chão, debaixo para cima, num abraço a tocar o céu cada vez mais alto e aberto. A nossa casa é feita de um querer segurar e por a salvo todas as pequenas e grandes coisas que embrulhamos no tempo e nas recordações que coleccionamos. E enquanto escrevo, recordo o que, ontem à noite, te embalei ao ouvido: deixa-me abraçar-te com a imponência da vontade que o Amor fortalece e nunca põe em causa. Quero abraçar-te e passar o resto da minha vida a tornar mais alto e mais aberto este abraço permanente e este querer-te sem medida. Ainda que nem sempre me acredites as palavras, a verdade vem de dentro e o que escrevo vem do centro da alma que não sabe mentir nem inventar com talento suficiente o que o coração sente simplesmente. Assim te sinto eu, sempre infinita no ar que me mantém viva. E porque te encontro em toda a parte em mim, sinto que a nossa casa é feita da vida que, ambas, desejamos e acreditamos sem fim.
sábado, 27 de setembro de 2008
Algures
Adalberto Tiburzi, Looking East, 2005
Há dias em que tenho dificuldade em acordar. E não acordo. Passo pelo dia sem abrir os olhos, lenta e inconsistente, sem que as horas, as coisas e as pessoas cheguem a dar por mim. Há dias que acordam a minha indisponibilidade e, por mais que eu tente arrastar-me para fora desse quarto perdido dentro da minha cabeça, não depende de mim mas de uma chave nem sempre combinada com a fechadura. E os meus olhos fechados, ainda que reconheçam o ruído de um relógio que me dá notícias do mundo lá fora, revestem-me o corpo de uma invisibilidade necessária, que me protege da não-presença das coisas e das pessoas como eu as imagino. Porque, às vezes, só existem as horas e, nelas, imagens que não nos abraçam e nem reparam nós.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
De fora para dentro
Adormeço à beira de uma janela de fora para dentro e, enquanto me sossega a alma, revisito o tempo de dentro para fora como quem percorre de memória paisagens que só existem na nossa cabeça e só de vez em quando. Adormeço à procura de sono, debruçada nessa janela onde a luz não falta, mesmo à noite quando a terra vira costas ao centro feito de fogo. Restam-me alguns minutos de conversa interior antes de vaguear, por onde ainda nem imagino, no sonho de daqui a bocado. E encontro-te a ti, aqui e ali, em todo o lado. Sei-te a dormir, por isso falo devagarinho e faço barulho baixinho e corro o risco de te acordar. A noite dá-me o tempo que o dia te retira e teimo em ficar assim, à janela, a imaginar que, debruçada nela, me sonhas um mundo cheio de nós e que, depois, entre o eu acordada e o teu a dormir, há uma ponte de beijos que atravessamos sem chegarmos a margem nenhuma, de um lado ou do outro. Porque não há margens quando concordamos que o Amor é uma passagem infinita. Debaixo da minha janela, imagino-nos um mar alto esticado até ao céu, num azul único feito da mesma luz da meia noite ao meio dia. Daqui, da minha janela de onde, de fora, espreita o sono, só lamento as horas que se perdem sem nós. Beijo-te não tarda nada...
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
E se depois?
E se depois? Quantas vezes nos refugiamos na pergunta à qual não podemos responder, pelo simples facto de não haver resposta no momento em que nos ocorre perguntar. Não sei, nunca soube, responder ao que se espera de um 'E se depois?'. E o que é que isso interessa agora? Muito pouco, quase nada. Vejo-te suspensa naquilo que se vai passar daqui a bocadinho e só me apetece sossegar-te, porque, mesmo que nada aconteça, mesmo que permaneças no mesmo sítio depois de uma longa espera, vai correr tudo bem. Sabes porquê, meu amor? Talvez não saibas, mas eu sei. Porque continuas igual a ti, intacta, inteira. Porque continuas tudo o que sempre foste e mais ainda pela experiência que os dias te acrescentam. Porque esse tudo é incorruptível e isso é uma vitória. Porque o teu caminho é tudo o que sabes construir num universo maior que transcende o mundo dos outros. Porque vales mais do que eles conseguem perceber e não podemos torná-los mais espertos do que a imperfeita humanidade que lhes assiste. E se depois de tudo eu pudesse escolher, serias tu, sempre única e incontornável. E depois disso serias ainda a minha razão de sentir o infinito.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Repetição
Deixa-me dizer-te outra vez o que te digo todos os dias quase por necessidade primeira: tenho esta certeza infinita que, de tão certa, me parece imbatível. Tenho a certeza que a forma como, debaixo da pele, te sinto fluir como sangue eterno é tão absoluta em mim que passou a ser a medida de todas as coisas visíveis e invisíveis, como se nada mais tivesse valor porque nada mais existe para lá do que me habitas. Por vezes, fico a pensar no que te diria se, algum dia, te escrevesse uma carta de amor, e depois desisto. Não saberia dizer a certeza de sentir-te sempre antes, durante e depois de tudo certamente. E, por mais que tentasse, falharia em descrever um coração que te vive e revive constantemente na absoluta certeza de que viveremos para sempre. Por isso, deixa repetir-me vezes sem conta a dizer-te, todos os dias, este amor sem carta que te chega sem princípio, meio ou fim. Deixa-me dar-te conta assim desta luz que nenhuma noite escura apaga em mim.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Anos sem fim
Quando for amanhã, que é daqui a bocadinho para mim e hoje para ti, serás um bocadinho mais crescida e eu estarei à tua volta à espera de muitos amanhãs comigo, aninhada num único pensamento – que a vida nos seja eterna, que nunca te acabes, que vivas para sempre na minha vida e eu na tua e depois disso. Quando acordares o dia é teu – quero um sol infinito na tua mão e um abraço sem fim desde a ponta dos teus dedos até ao coração. Quero ser o resto da tua vida nos meus braços que serão sempre pequenos para te dar conta da imensidão que és em mim. Segura nos lábios um beijo meu desde a hora em que nasceste até ao fim dos dias.
domingo, 7 de setembro de 2008
Luz de dentro
Vamos misturar a luz ao encontro dos milhões de cores que ainda desconhecemos debaixo deste sol que nos descobrimos desde o primeiro momento. Anda brincar com a cor dessa luz da qual os nossos olhos, olhos nos olhos, não descansam. Anda fazer uma pintura com essa tinta que o Amor mistura num brilho que os braços embrulham como vida e eternidade. Vem cobrir as paredes e o chão, o tecto e também o céu de toda a nossa luz que nos segura, do mais claro ao escuro, nos mil tons de infinito. E quando anoitecer e estivermos um pouco cansadas e precisarmos de descansar, olha-me sempre com o mesmo sol que te vem de dentro e basta-me esse ponto de luz para continuar, porque é único, o mais luminoso e aquele que me dá sentido, a vida eterna em que acredito. Porque sem ti tudo é negro e fundo e à beira do fim do mundo.
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