À minha porta cresceram três flores de um rosa quase lilás que me impedem de sair. São inesperadas como o tempo mas estão lá, a marcar território, abertas ao vento e contentes, parece-me, por viverem mesmo em frente a uma porta, como um bom presságio ou um pensamento feliz à nossa espera do lado de fora. Não posso deixar de assinalar o inesperado e a falta de propósito da natureza que, de uma vasta porção de terra verde e fértil, escolheu um espaço limiar para se expandir por sua conta e risco.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
terça-feira, 11 de maio de 2010
Antinatural
Hoje, que não é sábado nem feriado, apetecia-me organizar as coisas e partir como na semana passada. Voltar de férias é tudo menos motivador... O egoísmo de ter os dias feitos por medida é um prazer supremo que a 'alegria do trabalho' não consegue igualar. E aqueles que dizem que 'adoram trabalhar' são loucos ou não têm vida para além daquela que o ambiente de trabalho proporciona – não são ninguém, apenas uma ilusão que se mantém em horário de expediente. Ser o dia inteiro implica uma liberdade rara, um luxo, algo só atingível pelo dom da contemplação. Há ruído por toda a parte e distracções por todo lado - estamos demasiado habituados a acreditar que somos o que nunca seremos realmente. A liberdade de ser completamente é um estádio de evolução. Nascemos, morremos: talvez um dia, se tudo correr bem, tenhamos novas oportunidades.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Reticências
Dragomir Vukovic, All, 2010Que acontece aos espaços em branco que ficam dos dias? Porque há dias incompletos e horas que não se esgotam totalmente no que esperamos delas. Que acontece a esses intervalos de tempo imaterial? Acumulam como pontos de um crédito impalpável para usar numa outra ocasião de maior conveniência? É confortável a ideia de que existem vazios, intervalos e branco, espaços de tempo disponível, alternativas de voltar a fazer e fazer melhor o que ainda não aprendemos totalmente, o que perdemos ou o que não demos conta que existiu. É importante agarrar essa possibilidade como fruta fora de época que nos desperta maior vontade, porque viver é mais do que tempo contado, universal. A vida é a subjectividade do espaço temporal que ocupamos combinada com o desejo de rosas quando não as possa haver. Se assim não fosse, o universo inteiro seria uma imensa maçada, porque a previsibilidade é cansativa e porque não vivemos realmente se sabemos invariavelmente o que vem a seguir.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Se calhar hospital
S. Sabine Krause, A try at perfection, 2010
Hoje acordei mais envelhecida do que o habitual, hoje dói-me o corpo e o dia pesa demasiado. Deitei-me doente. Durante a noite senti a tua mão cheia de calor aninhar-me e o sono veio e levou-me. Ou então, acordada, esqueci-me de tudo, dos ossos fora de sítio e de nervos inflamados, debaixo da tua mão quente reparadora. Durante o dia, quando o corpo se impacienta dorido, regresso à palma da tua mão quente sobre a minha pele da noite anterior e aí me recomponho e restabeleço a força que preciso para chegar a casa...
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Tu também não
Maria João Arcanjo, Theatre of the escape, 2010
Sou capaz de não ter razão. E tu também não. E talvez ninguém tenha a razão que quer ter porque é essencial acreditarmos em nós mesmos íntegros, sobretudo quando sobramos em fragmentos, onde não cabemos nem sabemos encaixar. Querer ter razão é uma procura de sentido quando nos apercebemos em pedaços, sem nexo, pelo chão. Sou capaz de não ter razão. Sou capaz até de nem saber o que é ter razão. Talvez não conheça, de todo, a razão. Talvez assim me justifique a minha intolerância e o desejo, oblíquo talvez, de razão. Ou talvez não. Talvez queira apenas aprender a reconhecer a razão e não teimar em tê-la simplesmente. Talvez a ti te seja indiferente a diferença, mas para mim são dois mundos à parte e um barco entre eles que não sei equilibrar. Não espero que percebas, entende apenas o esforço do meu querer, em ti e por nós, navegar.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
terça-feira, 9 de março de 2010
Parece que é
No fundo, vemos o que queremos, da forma que melhor nos convém. A realidade será outra coisa qualquer, nem concreta nem definida, algo elástico, variável em função de factores inconstantes como a luz, o ponto de observação ou a capacidade cognitiva do sujeito, por exemplo. No fundo, nada do que parece é e de nada do que é realmente temos absoluta certeza. E ainda que acreditássemos na realidade tal como a observamos, erraríamos, porque a verdade é inatingível como a essência do tempo, que só usamos de forma conceptual por uma questão funcional e porque temos absoluta necessidade de medir o universo à escala humana. Porque não sabemos de onde viemos nem para onde vamos. No fundo, a dúvida define-nos como espécie viva. No fundo, a maior parte dos mortais não tem a menor ideia do seu propósito de vida. Respiram apenas um dia atrás do outro. A realidade é o que cada um conseguir perceber de si próprio na sua relação com o mundo. No fundo, o Amor é um estado avançado de percepção do ser.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Sobreaquecimento
Tocar o corpo a caminho da alma encontrada. Sentir o corpo com a intensidade da vida que o coração controla. Fundir a alma no mesmo compasso que nos descontrola o corpo. Derreter por dentro a queimar por fora. Ontem é também hoje e assim será deste lado do universo, onde tu e eu somos o espaço infinito de um corpo só.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Capricho da Natureza
Continua a chover por todo o lado. A chuva passeia-se pela rua e dentro de algumas casas, não poucas, também. E de pouco nos adianta a saudade de dias de roupa leve e céu aberto e lento. De nada serve queixarmo-nos do corpo encharcado e cheio de frio que arrastamos todos os dias por entre os intervalos da chuva, vento ou as duas coisas ao mesmo tempo. O Inverno reina no tempo dele, indiferente à indignação humana. E nós queixamo-nos por haver estações do ano umas menos azuis do que outras. Queixamo-nos da falta de água quando a chuva não chove e, quando chove, achamos sempre que é em demasia, convencidos de que sabemos melhor do que a Mãe-Natureza em que quantidades deve vir e ficar o Inverno. Melhor seria preocuparmo-nos em pensar soluções para melhorar o tempo dos homens em vez de dedicarmos os nossos dias debaixo de chuva a discursos inúteis sobre a metereologia, cheios de queixas infantis e caprichosas contra aquilo que realmente não podemos mudar nem alterar de acordo com vontades, jeitos e conveniências... e ainda bem.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Antes de chegar
Ponto de partida, de chegada, ou simplesmente porto de abrigo. Os dias são viagens numa viagem desconhecida. O destino pouco importa, é durante a viagem que acontecemos e que o mundo muda de sítio e nas voltas que o mundo dá multiplicamos a nossa oportunidade de crescer. Ser adulto é assumir a responsabilidade e o compromisso dessa evolução. O erro e o medo fazem parte da viagem, assim como a vontade de descobrir e de vencer os dias pela experiência e conhecimento adquiridos no dia anterior. E do medo se faz força e do erro sabedoria. Durante a viagem podemos escolher viver.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Viver com urgência
Talvez não sentisses frio se te abandonasses à fome de viver e percebesses que o resto da tua vida não começa amanhã, mas ontem ou hoje o mais tardar. Talvez não sentisses frio se te permitisses essa urgência de sangue a queimar por dentro pela falta de tempo a que, inevitavelmente, todos estamos condenados pelo simples facto de nascermos e morrermos demasiado depressa.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Escrever de luvas
Anabark a partir de Mischa Bronstring, Lockedbibles, 2007Hoje lembrei-me de ir buscar as polaroids que nunca tirámos à gaveta das coisas impalpáveis e publicá-las aqui ou arquivá-las noutro sítio, de acordo com a sua importância. Assim, a olhar para elas, percebo que são muitos os momentos que ocupam este armário a guardar dentro a memória do que somos e do que erámos quando tudo começou. Hoje, sem mais nem menos, lembrei-me de desarrumar a memória e reviver o tempo desordenado. Foi assim que passei o meu dia, não me apeteceu fazer mais nada. Porque está a chover e está frio, refugiei-me no cheiro reconfortante de um móvel de madeira imaginário cheio de coisas nossas quentes, momentos de agasalho de ontem, hoje e sempre, que nos embrulham até que as massas de ar frio, que lá fora sopram os dias, deixem de o ser.
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Inesperado
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Horas de gelo
F-Pappenheimer, Starlight, 2010
Conto as horas gota a gota, o tempo estende-se, torna-se longa a espera. Reparto os grãos de areia que ficam entre o que eu aguardo e o que me separa. Conto sem fim o fio de areia que vejo esvaziar lentamente minuto a minuto. Espero. E tudo anda mais devagar no tempo em eu espero. As gotas de água que substituem a areia cansada de contar as horas quase se tornam gelo e suspendem o tempo na ponta das folhas das árvores. Tenho as mãos e o corpo frio, porque me fazem falta os teus braços durante as horas geladas que as gotas de chuva prolongam na distância em que não estamos embrulhadas e no tempo que, daqui até aí, nos demora o calor do abraço.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Chão de água
E, caminhando o Inverno, o chão tornou-se água, que abraça os pés em toda a volta, como se fosse essa a forma de fazer entender que assim é mais fácil a caminhada. Aqui e ali encontramos pedras, reais e imaginárias, pequenas, grandes, do tamanho que nós lhe inventarmos à nossa medida. Aqui e ali perdemos o pé e estremecemos. Depois olhamos para baixo. A água continua a embrulhar-nos os pés, como se fosse essa a forma de nos fazer saber que a carícia translúcida das ondas nos faz ver melhor por onde vamos. De resto, pouco importa se o Inverno se mantém invernoso, se a maré sobe ou desce, se o ceú se abre ou escurece. Não faz diferença a quem tem a claridade de saber onde quer ir.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Dentro, uma janela
Nem sempre reparamos nos diamantes que tropeçam no nosso andar. Nem sempre perdemos tempo para contemplar a luz que nos ilumina, não a noite mas os dias por inteiro para além do tempo contado em unidades. Nem sempre estamos há altura de ver mais longe, para lá da matéria em que fixamos o olhar. Nem sempre encontramos a beleza onde ela existe sem senão - pura, translúcida, infantil. Perdemos tanto e percebemos quase tudo pela metade. Os olhos enganam-se e, às vezes, derrapamos numa cegueira continuada. Perdemos. Anoitecemos sem reparar. E o tempo foge mais depressa do que a nossa teimosia. O tempo é curto. Não nos espera. Vem, meu amor, à procura de tudo o que ainda não sabemos, e sabemos quase nada. A casa que construimos é o que nos falta descobrir e o que já encontrámos pelo caminho. A viagem é uma janela aberta virada para os diamantes que guardamos dentro e que nos oferecemos generosamente quando saimos à rua ao encontro uma da outra.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Podemos almoçar?...
Não foi há muitos anos, mas já passaram alguns. Não temos muito tempo, mas temos uma outra vida. Podia ter sido ontem, lembro-me como se tivesse sido hoje, há poucas horas atrás. Podia ser amanhã e eu saberia reconhecer-nos, como me reconheceste da primeira vez. Seria fácil, como foi quando inesperadamente nos chegámos. Seria fácil hoje, amanhã, sempre. Porque há momentos instintivos, como nascer, respirar e morrer. Reconhecer-nos esse instinto de quem se acolhe na manta quente que corpo e alma sempre precisaram e nunca antes desse dia nos embrulhou, é renascer, crescer e viver. A vida só existe nesse acto instintivo que reconhecemos como Amor. Foi neste dia que te conheci e, reconhecendo-te, conheci-me. De forma inesperada, aprendi a respirar e a correr riscos pelo prazer de viver. Viver é amar-te e continuar a reconher-nos todos os dias.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
A dimensão do básico
Espaço básico, a dimensão do que somos dentro de nós e não o espaço que apropriamos. Espaço básico. As fronteiras são por dentro e por dentro o espaço tem o tamanho da alma que nos anima. Na alma tenho-te a ti e a fronteira do que te quero não tem fim. O espaço básico do meu querer é um infinito de nós, sempre em frente um horizonte sem longe em que o abraço em que nos embrulho tudo torna perto aqui e agora. Neste espaço básico em que te enlaço não existem recantos abertos ou pontos de fuga. Tudo é amplo, tudo é desejo de mais. Maior e mais além. Porque nada limita o tamanho do coração. O que somos dentro do espaço que a vista não alcança, tem a grandiosidade de todas as coisas impossíveis de medir numa escala precisa. O que sentimos é palpável como espaço básico de existência. Por dentro existes como minha vontade infinita de vida.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
A culpa é da vontade, amor da minha vida
Uma canção que não me sai da cabeça quando penso em ti. 'A culpa é da vontade que vive dentro de mim e só morre com a idade, com a idade do meu fim':
A culpa não, não é do sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa não, não é do sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te abraçar
A culpa não, não é da praia
Se o meu corpo se ferir
A culpa não, não é da praia
Se o meu corpo se ferir
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te sentir
A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim
A culpa é da vontade
A culpa não, não é do mar
Se o meu olhar se perder
A culpa não, não é do mar
Se o meu olhar se perder
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te ver
A culpa não, não é do vento
Se a minha voz se calar
A culpa não, não é do vento
Se a minha voz se calar
A culpa é do lamento
Que sufoca o meu cantar
A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim
A culpa é da vontade
ANTÓNIO VARIAÇÕES
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