Que mal é pior, viver num pedaço de passado ou ir acontecendo num presente ausentes de nós mesmos? Nada do que sinto faz sentido a não ser pela certeza que me fica de saber sentir o que sinto tão intensamente. Tenho a sorte de ser amada e o azar de não amar quem me ama. E arrasto-me na infelicidade de um amor que perdi no instante de um relâmpago. E neste desencontro carrego a tristeza de magoar todos os dias quem me quer incondicionalmente. O meu presente é feito deste incómodo de querer o que não posso ter e não corresponder a quem me espera. No peito há um buraco vazio, o lugar do coração que ficou no passado; seguro nas mãos as mãos de quem, no presente, me quer bem. Espero que o coração me regresse para poder abraçar o amor que agora rejeito a quem me vai cuidando da ferida que só o tempo pode curar. Os dias passam lentamente e eu vou andando devagarinho como tu... desencontrando-me.
sábado, 30 de dezembro de 2006
Bom Ano Novo
Para os amigos, os conhecidos e os ilustres desconhecidos que se demoram neste copo, subtraindo-lhe o vazio.
Saúde e alegria.
Não te quero senão porque te quero

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.
Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.
Pablo Neruda
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Perspectivas:Deixar de querer
Bocadinhos mistos #1 - Aim higher
sexta-feira, 29 de dezembro de 2006
O que diria a alma?
(Foto de David Assante)
E de repente há vozes que falam e dizem coisas que eu sempre soube, mas que esqueci nestes instantes em que fixo o chão. Estão próximas, demasiado próximas para serem ignoradas. E de repente também, oiço a minha voz que vem de longe e que espera a sua vez. Não é a voz do coração, essa grita em desespero e de tanto gritar sem se ouvir, vai perdendo nexo e ganhando ruído. A voz que se ouve é a voz da razão, é pausada, distinta, com frases organizadas num sentido único. De repente há uma sobreposição de sons. Coração e razão falam ao mesmo tempo e eu reparto a minha atenção a tentar decifrar o que dizem. Gosto do timbre do coração e, ao mesmo tempo, deixo-me levar pelo conforto da razão. O coração fala-me da alma e do sonho que carrega dentro. A razão alerta-me, repete avisos infindáveis de um perigo qualquer que ainda não sei bem. A voz do coração embrulha-me na melhor parte de mim, naquilo que tento preservar intacto e vivo. A razão desperta-me, deixa-me séria, cinzenta e fechada numa ideia fixa. Sou duas pessoas ao mesmo tempo, divido-me entre o que sinto intensamente e o que penso desse sentir. O que me pode dizer a alma para desempatar?...
quinta-feira, 28 de dezembro de 2006
A areia dos dias
Se entre ontem e amanhã não houvesse a fragilidade das horas que nos medem o respirar, seria mais fácil viver o tempo que passa sem nos apercebermos da sua irreversibilidade. Viveríamos livres e inconsequentes, provavelmente felizes. Mas os dias passam e, sem que o possamos evitar, passam também anos. E envelhecemos. Umas vezes de fora para dentro, outras vezes de dentro para fora. E há um momento em que, finalmente, percebemos que não podemos perder mais tempo com faltas de assunto e coisas poucas e sem importância quando há uma falta de nós por resolver. E nesse instante, o tempo começa a passar mais depressa e nessa contagem acelerada dos dias, tomamos consciência de nós, do que queremos, do que não temos, do que ainda nos falta fazer. E então compreendemos que não podemos desperdiçar-nos mais, porque o tempo é impiedoso, não pára, não espera, esgota-se, e sem que demos por isso pode ser demasiado tarde para viver o tanto que nos falta. E quando olhamos para trás o que nos sobra daquilo que quisemos ser e viver? E quanto tempo teremos ainda para sermos o que não cumprimos? O dia depois de amanhã é uma incógnita, amanhã pode nem chegar a ser. Envelhecemos sem reparar que não temos muito tempo para tentar ser felizes. Passamos pelos dias como se tivéssemos a eternidade por nossa conta, sem a responsabilidade de fazer de cada dia um tempo único, cheio, bem vivido.
Amanhã quando acordar estarei um dia mais velha, tenho menos um dia de vida ou mais uma oportunidade de me resgatar e viver mais perto de mim?...
terça-feira, 26 de dezembro de 2006
Abraça-me
Dá-me um abraço com a força com que gostas de mim. Sabes o que é um abraço? De que é feito? Sabes o que estou a pedir? Dá-me um abraço que me faça sentir que gostas de mim. Assim, sem pensares nas consequências, porque a única consequência de um abraço é o calor de dois corpos que se tocam e a força dos braços que seguram. Dá-me um abraço, não porque te peço mas porque gostas de mim. Um abraço apenas, da forma que entenderes, às horas que quiseres. Só um abraço, com a força que souberes e que me faça saber que gostas de mim. Prometo guardar debaixo da pele as marcas dos teus braços para me lembrar sempre que, longe, ainda gostas de mim.
segunda-feira, 25 de dezembro de 2006
Deixar de querer
Marisa D.L. , ...I'll be watching you, 2006 O ano está à beira de acabar. Quero chegar-me ao fim e iniciar-me em algo novo e melhorado, longe do que me mantém aprisionada e me limita os movimentos. De ti nada me chega a não ser a certeza de que não voltarás. Gostava que, por um dia que fosse, trocasses de lugar comigo, como nos filmes. Talvez percebesses realmente como me sinto; eu entendo o teu lado e só por isso mantenho esta calma de jazigo. O que sei neste momento é o essencial para perceber que devo deixar-te ser como escolheste ser. Serás sempre o que és agora, demasiado insegura para seres o que gostavas realmente de ser, mesmo que acredites, ingenuamente, na pessoa forte que não és. Não sabes ser mais, independemente do que pensas que és capaz. Tenho de ser para além de ti, não sei suportar a frustração de não ser eu por inteiro. Esforcei-me sempre para não ser igual a pessoas como tu. Não sou nem pior nem melhor, sei apenas que me quero verdadeira e honesta comigo mesma. Tudo o que sou foi construído com base nesse esforço de verdade e tenho sido recompensada por isso. A minha vida melhorou no dia em que me disseste adeus e vai continuar a melhorar porque aposto por inteiro e estou habituada a ganhar. Cresci desde que te foste embora, sinto-me maior como pessoa. O poder que nunca ambicionei caiu-me nas mãos sem querer e a minha vida mudou. Os outros olham para mim com assombro e deslumbramento. Tenho uma vida de filme, diriam alguns. Eu rio-me do que dizem. Tenho tudo o que preciso para ser feliz menos o que realmente quero. É-se feliz não tendo aquilo que se quer realmente? Não. Contigo descobri o que quero e agradeço-te esse milagre. Lamento ter-te perdido no momento em que tinha o mundo inteiro para te dar. Agora, seguindo-te o exemplo 'a querer que as emoções cumpram o que a razão impera' como me disseste, tenho de deixar de querer-te e querer outra coisa qualquer que me faça feliz.
domingo, 24 de dezembro de 2006
Welcome to Lisbon F.
Senhora Saudades (aka F.), Postcard at De Wilderman (NOV06)Dear F.,
You may be right, I'll never get to see the frozen canals of Amsterdam, but I don't mind, I already know what they look like. Probably you will never experience the magic of watching the snow falling over Lisbon, but you already know by heart this strange feeling of 'saudades'. I can only wish you feel at home now that you're around - Lisbon welcomes you. Your coming to town was my favourite Christmas' gift this year. And now that you're here, you must have realised 'saudades' never come to an end.
Merry Christmas in Portuguese land.
sábado, 23 de dezembro de 2006
E se depois?...
E se depois mudo de ideias? Não posso resolver a vida como quem muda a cor das paredes entre estações. E se me arrependo? Só me arrependo se fôr infeliz. E se não fôr capaz? Aprendo a conseguir. E se me faltar a força? Concentro-me no que realmente quero e vivo um dia de cada vez. E se deixar de acreditar? Enquanto sentir amor, acredito incondicionalmente. E se me enganar? Procuro o erro e tento percebê-lo. E se me enganarem? Pergunto porquê. E se me perder? Volto ao local de partida as vezes necessárias para encontrar o caminho. E se deixar de amar? Explicarei com cuidado e com ternura e segurarei com força para que doa o menos possível. E se me magoarem? Vão magoar-me certamente. E se depois me abandonarem? Quem me ama escolhe-me e fica para sempre na minha vida.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2006
Não te sou
Partes todos os dias que passam por mim e todas as horas sem ti são a hora da despedida. Revisito o adeus frio que serviste à mesa no dia em que te foste embora. Fico a ver-te partir uma e outra vez, tantas vezes que não consigo lembrar-me de outra coisa. Recordo-te a voz da partida, memorizei o tom em que disseste que não poderias voltar a ver-me ou estar exposta ao que te sou, fui, porque hoje já não existo em ti. Revejo-me aos pedaços, espalhada pelo chão, sem conserto, caída do céu à velocidade vertiginosa do teu desamparo e da tua falta de amor. Desconheci-te e desconheci-me nesse instante. Não te detiveste. Tiraste-me o chão, continuei a cair. Enterraste-me. Deixei de existir, porque eu era tu comigo. Morri-te, resolveste-me com brevidade, telegraficamente. Sou passado, uma memória, a ausência de que não sentes falta nem saudade. Sou a tua fantasia realizada, o intervalo na tua vida. A pessoa que hoje não te sou deixou de te importar, tornou-se indesejável e incómoda nos teus dias. Aceitei a derrota, não posso obrigar-te a escolher-me nem a fazer-te sentido, como me juravas antes de teres medo dos fantasmas que carregas de um tempo antigo. A pessoa que não te sou tem pena que não saibas gostar de ti. A pessoa que não te sou tem pena do que não sabes crescer para além dos outros por não te saberes amar. A pessoa que não te sou perdeu o teu amor, mas quanto vale esse amor frágil e obtuso que tem a duração de um intervalo entre estações? A pessoa que não te sou não roga amor onde ele existe numa linha tracejada.
Dizem...
Dizem que a paixão o conheceu
dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice
conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo
dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice
conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo
dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos
AL BERTO
terça-feira, 19 de dezembro de 2006
O meu inverno
Senhora Saudades «Parallel Universe»
Às vezes tenho frio, outras vezes não. Hoje tenho infinitamente sono. Os dias de Inverno têm uma beleza impalpável que me toca pontos sensíveis da alma, como um diálogo interno, fechado em mim mesma. Apetece-me muita coisa, mas sobretudo descobrir outra vida, ser outra vez noutro lugar. É inútil pensar no que não tem remédio, naquilo que não tem retrocesso, no que perdido nunca se irá recuperar. De nada serve o desgaste de tentar mudar a ordem das coisas que nunca irão mudar. E enquanto o mal estar e o desconforto persistem, muitas vezes sinto frio, outras vezes percebo que, insensatamente, afasto o mundo e torno distantes os portos de abrigo que me querem segura em terra firme, talvez porque me habituei ao gelo que me ficou quando deixaste de me embrulhar no teu abraço, talvez porque o único calor que me aqueceu verdadeiramente foi o teu sol de Inverno que durou menos do que uma estação. Às vezes tenho frio, outras vezes não. Esqueço-me do corpo quando adormeço quase sem querer. Por isso durmo pouco e tenho infinitamente sono. Assim deixo de sonhar e sinto mais tempo o frio conscientemente. São momentos dolorosos aqueles em que nos sentimos ausentes. Acordada existo mais tempo neste estado de deriva que a falta de sentido das coisas pressupõe, mas sinto-me viva e sei o que é sentir frio e não sentir. Talvez se te perguntasse se sentes o Inverno passar por ti, tu respondesses 'O que é que isso interessa? É assim que tem de ser.' E eu ficaria a olhar-te nos olhos a tentar fazer-te entender que não, que não tem de ser assim e que é tudo uma questão de tempo até adormeceres e não te lembrares mais de ti. Um dia acordarás e não te vais reconhecer nos estilhaços do espelho em que te partiste durante o sono. Tenho medo de adormecer e acordar igual a ti. Sinto o frio desse teu Inverno em que te preservas até desistires de ti mesma e me esqueceres de vez, assim como sinto os momentos dolorosos em que te abandonas nas margens de ti mesma. Tenho a certeza que sabes que desistires de mim é desistires de ti também.
O improvável
Jon Bertelli «Curiosity»Às vezes, naquelas horas em que não sabemos bem de nós, dou comigo a pensar que pensas em mim como eu penso em ti. E imagino que me queres saber, que me procuras subtilmente sem eu dar por isso, que ouves o que eu digo quando penso que estou a falar sozinha. Eu sei que estas coisas que penso nos dias em que não sei de mim não fazem sentido, mas penso-as na mesma e, no meu navegar no improvável e quase absurdo, pergunto-te quando te encontro na imaginação 'Queres saber o que penso e o que estou a sentir?'. E, mesmo que não respondas, deixas entender que sim. Sorrio ao mesmo tempo que penso mais seriamente 'E para que queres saber sem eu que eu dê por isso?'... Curiosidade? Mórbida, talvez.
domingo, 17 de dezembro de 2006
Palavras de amor
Não posso escrever-te nem dizer-te palavras de amor. Estás ausente há muito tempo e durante este tempo não te fizeram falta as minhas palavras de amor. Nada do que sou te faz falta e muito menos precisas das minhas palavras de amor. E eu não sei dizer palavras de amor a quem as rejeita e as torna indesejáveis e adoecidas. Pouco te restará do que fui contigo, memórias soltas disto ou daquilo, objectos escondidos no fundo de um armário fechado numa arrecadação escura e fria e pouco mais. O resto foi deitado fora com as palavras de amor que ambas escrevemos. São coisas que não precisas. De mim só precisas do silêncio. Palavras e silêncio jamais se encontrarão. Não sei escrever palavras de amor silenciosas, porque o amor silencioso não existe, é outra coisa qualquer mas não é amor. Não posso gritar-te palavras de amor que não queres saber. Às vezes pergunto-me que palavras de amor gostas de ouvir em substituição das minhas? Responderás o mesmo que me respondias a mim?...
"...Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor, não sei o que é sentir / Se por falar, falei, pensei que se falasse era fácil de entender..."
THE GIFT "Fácil de Entender"
sábado, 16 de dezembro de 2006
Por detrás da porta
Peter Elköf, PSE_9006, 2006
Sinto-te debruçada numa janela com vontade de saber este lado de fora. Curiosidade, talvez - és curiosa. Ou talvez tenhas, realmente, percebido que falei a sério quando disse que não voltaria a bater-te à porta que fechaste atrás de ti para teres a tua paz de espírito e a tua vida de volta. Ficaste mais longe não por me teres vedado o acesso - posso saber o teu número de telefone em menos de cinco minutos e tu sabes que sim e também sabes que não o farei -, mas porque deixaste bem claro que eu não conto, que estou definitivamente do lado de fora e que isso não te incomoda nem hoje nem ontem, quando quase morri de frio a tentar chegar-te. Quiseste desaparecer nas estações do ano, uma atrás da outra, decidida e firme, para bem longe de mim.
Mas hoje sinto uma corrente de ar que vem de ti, e recordo o teu perfume. Sinto-te à escuta por detrás da tua porta trancada. Não me encontraste por acaso. Nem nada disto que sinto é por acaso. Sinto-te uma primavera de destroços, um silêncio cheio de coisas para dizer. Continuas longe, mas, às vezes, por breves instantes, pressinto-te encostada à porta a tentar ouvir se alguma coisa se passa deste lado, ao mesmo tempo que tropeço nesses olhos apáticos de um hipotético abraço.
Eu disse: "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis" / Tu disseste: "sentir a aragem que balança os dependurados" / Eu disse: "é o medo o que nos vem acariciar" / Tu disseste: "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da porta" / Eu disse: "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
MÃO MORTA "Tu Disseste" (cd «Primavera de Destroços» 2001)
sexta-feira, 15 de dezembro de 2006
Devagarinho?...
Devagarinho, dizes tu. Onde pensas chegar devagarinho? E assim devagarinho, se chegares, não será demasiado tarde para ambos os lados e para ti também? Que cresceste entretanto nesse devagarinho em que te dizes? Tens tudo o que precisas para viver melhor? Já és mais feliz do que eras há um ano atrás? Espero que sim. Espero que percebas que devagarinho leva muito tempo e morre-se lentamente nessa falta de qualquer coisa que não nos deixa andar mais depressa. Queres um conselho? Não te deixes adormecer numa morte lenta, nesse lado escuro onde vives de portas fechadas. Respira-te. Sente-te, ao menos. Deixa uma porta encostada e sente a corrente de ar. Embrulha-te um pouco na liberdade do vento que nos empurra um bocadinho mais além. Não te deixes morrer sem te conseguires no que te falta para seres tu completamente. Devagarinho perdes calor e ficarás só quando não precisarem mais de ti. Fria, morta por dentro, como as manchas que se escondem na escuridão. Vive-te como nos versos da canção...
"...Enfim de uma escolha faz-se um desafio / enfrenta-se a vida de fio a pavio /navega-se sem mar, sem vela ou navio / bebe-se a coragem até de um copo vazio /e vem-nos à memória uma frase batida / hoje é o primeiro dia do resto da tua vida..."
Sérgio Godinho "O Primeiro Dia"
Sérgio Godinho "O Primeiro Dia"
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Para reflectires
Para reflectires
quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
Do lado escuro
De que lado fica o lado escuro da lua? Do lado direito? Esquerdo? Diz-me daí o que vês. Só sei dizer o que vejo daqui. Mas daqui é longe e a luz é pouca. Vejo manchas a alastrar de um lado para o outro, num sentido que me escapa. Observo o movimento e tento interpretá-lo, mas a minha perspectiva é limitada. Não posso sair de onde estou, mas desassossega-me a curiosidade de saber o que se movimenta nesse escuro que a minha vista alcança. Alguma coisa existe às escuras. Alguma coisa espreita de luz apagada. Alguma coisa se passa desse lado. Tu sabes, eu não sei. Sabes mais do que eu que não sei nada. Vês mais do que eu que não vejo nada. Passo horas a olhar para as manchas. Habituei os olhos à escuridão para poder ver melhor, mas ainda assim escapa-me o que mexe desse lado. Que vida acontece no lado escurecido que daqui não se vê, a não ser as manchas que vão mudando de sítio todos os dias, de um lado para o outro, como naquela canção dos Mão Morta que tu não conheces mas que eu sei de cor? Um mundo inteiro por descobrir. Não me digas que não se passa nada...
«...Eu disse: 'Eu não faço nada. Fico horas a olhar para uma mancha na parede' / Tu disseste: 'E nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptivel? / Eu disse: 'Nao. A mancha continua no mesmo sitio, eu continuo a olhar para ela e nao se passa nada' / Tu disseste: 'E no entanto a mancha alastra e toma conta de ti, liberta-te do corpo. Tu é que nao vês' / Eu disse: 'O que é que isso interessa?' / Tu disseste: 'Nada...' »
MÃO MORTA «Tu Disseste» (in Primavera de Destroços, 2001)
quarta-feira, 13 de dezembro de 2006
Pergunta-me
Anabark, Um coração no céu da cama (MAI06)
Neste silêncio que se ouve tão estrondosamente, pergunto-te 'Que perguntas me farias que me quisesses saber?' É um exercício em vão, eu sei. Tu não respondes nunca. E pensar que me queres saber é presunção da minha parte. As minhas perguntas, como tudo o que te disse desde que não somos, são-te dispensáveis. Incómodas, eu sei. Mesmo assim, pergunto-te 'Que gostarias de saber de mim se quisesses saber alguma coisa?'. Sentir saudades é sentir muitas perguntas a estilhaçar o silêncio. Saudades, digo eu... se as tivesses. Para sentir saudades é preciso liberdade para sentir. Tu não te deixas ser livre em ti mesma e, mesmo que não repares, tudo à tua volta vive espartilhado nessa tua prisão invisível. Mesmo que não te dês conta do que não dás, o mundo à tua volta reflecte essa ausência de ti. Não fui eu que te afastei do que te é essencial. És tu que estás ausente porque te rejeitas livre para te sentir verdadeiramente. O teu medo é antigo, eu fui apenas um pretexto para te justificares. Mesmo assim insisto 'Que resposta me imaginas a uma hipotética pergunta tua?', porque sentir saudades é fazer perguntas sem sentido como todas as que aqui vou deixando cair…
terça-feira, 12 de dezembro de 2006
Pagina colorida
BOA-NOITE!
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa
Sophia de Mello Breyner Andresen
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