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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Para além das nuvens

Anabark, Smoking lamp [MAR, 2013]

Agora vive a reparar nos pormenores, como se fosse a última oportunidade de ver para além do que está vista. Agora as generalidades deixaram de fazer sentido porque são perdas de tempo e, ainda que o mundo não acabe amanhã, os dias passam depressa e a vida não deve desperdiçar-se em tempo perdido. Agora nenhum azul no céu é igual ao de ontem e por isso é preciso reparar nas diferenças e saber distinguir o tom. Agora que o tempo passa mais depressa do que ontem, dá-se conta do que, estando à vista, nunca chegou a ver. Agora que já é depois de muito azul que nunca viu, não há tempo a perder com meios tons!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Centro luminoso

Anabark, Estrelas, DEZ.2014

No centro do peito há um foco de luz, sempre aceso, que nos chama e guia nas horas escuras dos dias sombrios. No centro do peito bate o coração e nele uma música tão nítida que chega a ser sol suficiente para aquecer o mundo. No centro do peito há estrelas a nascer e a morrer de noite e de dia, durante toda a vida.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Por entre o cristal das árvores

Chris Friel

Os caminhos deixaram de ser caminhos, a floresta cresceu e tomou conta de tudo. Já não encontro os pés quando olho para o chão agora tapete verde-vida. A terra seca e árida desapareceu. Beijo nos lábios uma brisa tão suave e fresca como se a primeira luz da manhã durasse o dia inteiro e tudo fosse orvalho nas horas por despertar.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Imagens por palavras

Aini Tolonen

São também palavras as cores, e ausência delas, que nos desenham o mundo por fora e por dentro da alma. São palavras sem voz que nos dão conta do que fica para além de nós e nos aproxima dos outros também. São o texto do silêncio em quem sabe escutá-lo e dizê-lo através do olhar.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Semear

Kat Pi, Love drops

Deixo a tinta cair em gotas pelo chão. Deixo a cor espalhar-se como raiz na terra. As paredes de pedra não se movem, a pedra cinzenta e fria não tem vida, não precisam de cor. Mas o chão é de terra e da terra nasce sempre verde a esperança de um novo caminho. Rego a chão com gotas de todas as corres e espero que nasçam as flores que desenhei quando comprei a tinta.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Flatline

Anabark, Flatlines, (2013)

   DNR

sábado, 13 de julho de 2013

Sem música de fundo

Michael Van Ofen

Às vezes as palavras não nos encontram o tempo nem o tom certo. Às vezes ficamos perdidos na voz que não sabe dizer, nem talvez sentir, o que por dentro nos estremece. Às vezes somos apenas silêncio como música de fundo. E no silêncio deixamos de ser mas não morremos. Perdemos sem ter encontrado, acreditamos tudo e nada ao mesmo tempo e ficamos surdos também. E não são as palavras que nos salvam mas a honestidade que as trespassa e que deixamos chegar ao coração. Porque há coisas que, sentindo, não dizemos por não saber dizê-las correctamente. Escolhemos o silêncio. Calamos tantas vezes o que sentimos porque gostaríamos de o dizer com a eloquência e o ritmo das batidas de coração. E outras vezes calamos, porque são surdos os ouvidos que não sentem.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O poder das palavras

Web

Há palavras que caem no chão porque as ouvimos numa linguagem que não somos capazes de entender...

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Teoria das possibilidades

Akos Major

Entre a terra e o céu tudo é uma possibilidade. Todas as paisagens se tocam no longe e no perto, apenas o tempo é uma miragem. Até o fogo e o gelo se encontram como princípio e fim de vida. Tudo podemos ser e não ser no que a Natureza nos combina.

domingo, 30 de setembro de 2012


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Patamar

Timmy Gambin

Encontrei uma vontade e junto tudo o que não foi para deitar fora e partir. Ao cimo desta escada, haverá uma outra escada para subir. As paredes deixaram de fazer sentido no sítio onde estão, o corredor, cada vez mais estreito e comprido, não tem qualquer utilidade. Encontrei uma vontade, refaço a casa inteira, subo a escada que me leva a outra forma de ocupar o espaço e o tempo. Tudo o que não preciso fica nos andares de baixo, na parte velha da casa, feita de paredes e corredores esguios e imcompreensíveis. Encontrei uma vontade e um quarto amplo, sem mobília, no andar de cima. Lá em baixo não chega o sol e tudo vai desaparecendo na falta de claridade. Desfaço-me do que não tenho, na sombra encontrei-me essa vontade.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Cegueira

William Rivelli, The Wall


Não se pode ir ao encontro do nada, só existimos realmente no que sentimos, no que nos está por debaixo da pele e não se vê mas que nos define a essência. Não se pode encontrar quem não sente como nós na justa proporção. No nada nada cresce, no nada tudo morre. No que não se sente por inteiro a alma definha aos poucos até secar completamente e assim, toda a vida que pudesse ser será demasiado tarde. No nada morre-se depressa mesmo que continuemos a respirar à vista de toda a gente. Crescer para além da cegueira dos muros é ser adulto e humano também. Não será preciso uma escada, mas apenas compreender que ninguém é perfeito nem feito à nossa imagem e semelhança, porque nós não somos deuses nem podemos esperar dos outros aquilo que não somos.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Sair de casa

Anabark, Lights On, (FEV2012)

Ali em baixo, ao fim da rua, mora a ideia iluminada do tanto que tenho para descobrir de mim e do mundo. Saí de casa para ir ter com ela e sigo, de um lado ao outro, rua abaixo para me assegurar de diferentes perspectivas. Da minha janela tudo tem metade do tamanho e sei que o mundo é bem maior do que isso. Saio à rua com tudo para fazer e a certeza de um ponto iluminado. Tudo o que encontro pelo caminho me engrandece por tudo o que a alma alcança para lá de uma janela fechada. Ali em baixo corre a luz de um lado para o outro à espera de humilde que aprenda a vida dos diferentes ângulos de cada esquina. Toda a luz que guardamos dentro só depende dessa vontade.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Acontece...

Anabark, Yellow (JUL2012)

Acontece sem dar conta. Acontece sem reparar. Acontece olhar sem ver nem fixar. Acontecem dias transparentes em que tudo é invisível, desmaiados pelo sono e sonho de que não queremos acordar. Acontece uma luz de dentro que não queremos apagar. Acontecem momentos que perdemos de memória. Acontecem sentimentos que, sendo únicos, são a história de uma vida. Acontecem flores sem tempo numa primavera esquecida. Acontece tudo às mãos de nada e acontece nada na perda do tudo.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Imprevisto

Autor desconhecido

Tenho alma, sei que a tenho por tudo o que vivo e a intensidade com que sinto o que vivo no tudo como no nada. Porque me são absolutos a alegria e a tristeza, a saudade e o amor. Porque o meio caminho entre uma e outra coisa não me serve nem me esgota. E gosto do imprevisível, das coisas que acontecem porque acontecem e do sobressalto que me deixa sem chão e com vontade de andar. Gosto de horas que não espero e do que aprendo nos entretantos sem contar com isso. Gosto da surpresa de quem se encontra num abraço não planeado e das pessoas que se dão com a sinceridade que o tempo não constrói nem desgasta. Gosto da intensidade do imprevisto e da urgência do inesperado de quem me toca a alma como prova de vida e se sente livre para abraçar os dias para além do planeado.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Encontro

Anabark, Imitating life (JUL2012)

Já adormeci cansada e acordei no mesmo cansaço, cuidando que sabia de cor o mundo, que não havia mais nada para descobrir. Hoje, sem muita certeza do que aprendi fora de mim, descubro-me em diferentes ângulos e perspectivas. E renasço no olhar de inteligência sobre mim mesma, em que a claridade se reparte entre a luz e a sombra, em partes e intensidades combinadas. No que sou tenho a certeza do que sinto. Não existo pelo que penso mas pelo que encontro num  sentir pleno. Se assim não fosse não seria vida.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Talvez

Anabark, Candeeiros (JUN2012)

Talvez tudo fosse pouco mais do que nada. Talvez eu julgasse apenas que sim porque sim, porque queria muito que fosse. Talvez a verdade fosse apenas essa, a de não haver mais do que uma forte vontade de ser o universo inteiro, perfeito e acabado, como se houvessem universos perfeitos, imaculados... Talvez fosse esse desejo maior que a realidade que começava e acabava sem nunca ter crescido. Talvez tudo fosse apenas a ideia de um infinito só em mim definido. Talvez fosse um querer tão grande não inteiramente compreendido. Talvez fosse amar demais se o Amor se medisse. Talvez fosse eu. Talvez fosse a falta de quem eu quis que durasse a vida inteira comigo. Talvez fosse a noite desencontrada e os dias de desperdício. Talvez.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Antes de logo

 
Steve Gosling, Wet and dry

Dentro do peito mora uma paisagem a perder de vista. E toda a luz que a ilumina não vem do sol nem da lua. A luz que me habita é o que sei que sinto sem contradição. Este dia que nunca anoitece em mim junta peças separadas e revela-lhes o sentido que sempre tiveram desde o princípio do Amor e que nas horas negras esqueci. Mantenho o calor que me deu vida e a claridade encontro-a no sarar da ferida. Um dia, por certo, tudo isto e o que sinto como meu Amor e minha vida deixará de ter importância pelo que o tempo ausente deita a perder no longe da vista entre nós. Um dia, por certo, a distância tornar-se-á tão irrelevante quanto irreversível, ou porque deixamos de ser o que nos conhecemos e amámos ou porque, tão longe estando, 'morremos' uma na outra nesse intervalo. Dizem-me que te vou esquecer... Mas hoje, a ausência não me vence, caminho o mesmo o Amor na mesma paisagem que, durante anos, inventei como luz sem fim.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Permanecer

Roger Richards, House on the hill

Não encontro outra forma de estar senão aquela em que não me invento outra pessoa, por muito incómodo que me seja ser como sou. Não me exijo ser diferente, não confundo o fácil com o certo. Não engano nem os outros nem a mim. Sofro a liberdade que me reclamo por minha conta e risco. Não sei outro caminho. Sou aquilo em que acredito por inteiro. Não sou muito nem pouco, sou uma verdade que não desminto acima de tudo. No amor em que me dei descobri o que quer dizer eternidade. A tua ausência é um fim, mas o Amor que mora em mim vive para além da saudade.

sábado, 2 de junho de 2012

Da minha janela

Wouter Brandsma, Untitled

No tempo que vai passando e o mundo vai ficando mais pequeno, mais previsível, plano e pálido de cor. Espreito noutros pontos de vista uma paisagem diferente, mas nenhuma diferença me convence nem chega a ser tão paisagem assim. E tudo o que me dizem passa e não fica em mim. Que sabem os outros do mundo que me habita? Quem lhes disse que sabem mais do eu? O que sou por dentro, aprendi-o á minha custa, ganhei e perdi graças a mim. E, acima de tudo, o Amor é meu, grande e infinito como sempre quis. Não fiquei para sempre no Amor da minha vida, eu sei, apenas o tempo que memória lhe permitir. Mas o Amor que, em mim, a dor não mata, prometeu-se para sempre e por inteiro e, alheio ao  mundo, não se contradiz.