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terça-feira, 20 de agosto de 2013

"Apaga-me os olhos..."

Bence Bakonyi

"Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te. Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te, e sem pés posso ainda ir para ti, e sem boca posso ainda invocar-te. Quebra-me os ossos, e posso apertar-te com o coração como com a mão, tapa-me o coração, e o cérebro baterá, e se me deitares fogo ao cérebro, hei-de continuar a trazer-te no sangue."
Rainer Marie Rilke

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Quando os instantes da manhã se acumulam...

Regina Deluise, Three Chairs

Quando os instantes da manhã se acumulam nas
paredes da casa, eu rasgo as páginas onde te escrevo,
porque sei que tudo será desnecessário, tudo será
frágil, quando imagino o sol que não sei se poderei ver,
esqueço as paredes e,


com tanta força,

quero que sejas feliz.


José Luís Peixoto

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Em todas as ruas te encontro

 
Autor desconhecido, algures na Graça, Lisboa 

Em todas as ruas te encontro 
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura 

Em todas as ruas te encontro 
Em todas as ruas te perco 

Mário Cesariny

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A propósito de saudade...

Marisa D.L. Unfriendly pier, 2012

"Saudade é sentir que existe o que não existe mais. Saudade é o inferno dos que perderam, é a dor dos que ficaram para trás, é o gosto de morte na boca dos que continuam. 
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: aquela que nunca amou. E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver."

Pablo Neruda

quinta-feira, 29 de março de 2012

Eternidad

Roe...2008

"...Las cosas que se mueren no se deben tocar."

Dulce María Loynaz, in 'Eternidad'

segunda-feira, 30 de maio de 2011

nas decisões morremos também

J. Real, Structures

'...Optei por verdades e rotinas
definindo um percurso
que amanhã pode estar errado.
A maior valentia
é saber que fui capaz
de aceitar que falhei
nas vezes que escolhi.'

Diogo Cabrita

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Não há motivo para te importunar a meio da noite


Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como nâo há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica

Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?

Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.

José Luís Peixoto

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Pedras

Frank Loehner, Cutting the stone - raw material, 2005

Pedra sobre pedra crescem muros.
Dentro de paredes há um mundo inteiro retraído,
de paisagens retalhadas

pelos muros que se erguem
em florestas de pedra descontroladas.

Debaixo das pedras vivem escorpiões assustados.
Pedra sobre pedra deixamos acontecer
muros mais altos do que altura segura para saltar.
Que nos falte o cimento
e nos sobre a força para os derrubar.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Na parede do quarto

Epxis, Let the sunshine in ( part II) , 2004

Irrompe do teu corpo iluminado
toda a luz de que o mundo sente a falta
Não a que mais reluz. Só a mais alta
Só a que nos faz ver o outro lado
do bosque onde o Futuro e o Passado
defrontam o presente que os assalta
num combate indeciso a que nem falta
o sabor de saber-se ilimitado
irrompe assim a luz entre os extremos
da mesma renovada madrugada
E vibra a cada instante um novo grito
Com essa luz do grito é que nós vemos
que Passado e Futuro não são nada
apenas o Presente é infinito.
David Mourão Ferreira

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

No teu poema

Ana Carloto, Bond («Drawing With the Fire» Series), 2005
No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um canto
chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro


Letra: José Luís Tinoco
Voz: Carlos do Carmo

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Casa

Inês, Por Ali, 2006

Casa

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração
DAVID MOURÃO FERREIRA

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Amor Total

Linda Alstead, Loveboat on a sea of burning passion, 2006

Soneto Do Amor Total
Vinicius de Moraes
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e a miúde,
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Na parede, uma casa

Steve Price, 2007

Casa

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração
.

David Mourão Ferreira
«Infinito Pessoal»
(1959-1962)

domingo, 18 de março de 2007

À século XIX...

Christian & Sarah Milburn, Ibiza Lightning, 2006

«How do I love thee? Let me count the ways...»

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.
I love thee with a passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints, --- I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! --- and, if God choose,
I shall but love thee better after death


Elizabeth Barrett Browning  (1806-1861)

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Nem tarde nem cedo


Porquinho Feliz (aka Senhora Saudades), PS: I changed my mind. Good luck. 2006

"...Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto..."

Só é tarde quando se acaba cedo o que se quis tanto. E o tanto que se acaba, tarde voltará a ser de novo. Quando cedo se descobre o que é tão verdadeiro e único, acaba-se a procura na certeza de que existe e que foi encontrado. Às vezes acontece ser maior do que o tamanho inifinito do coração e, quando se acaba sem deixar de querer, entardece a alma nas horas sombrias do fim que não gastam sequer a despedida. E quando se quer tanto a luz que se acaba, é cedo nos dias para adormecer e tarde na vida para esquecer. Não é tarde nem cedo para sentir o sempre de um querer demasiado.

"...Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza"


«Estrela da Tarde», Carlos do Carmo, letra de José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Adormecer-te

Theodor Severin, Sea and Sky

Se, nas noites que te deixam acordada, eu pudesse embrulhar-te a insónia e adormecer-te no calor que me conheces debaixo da pele, ficaria sem dormir só para embalar-te num poema feito de nós e das palavras que reinventámos num sentido original que escapou aos demais. Prescindiria do meu sono para ficar a ver-te dormir e a vigiar-te os sonhos para que nada te perturbasse, até acordares por ti e pela vontade de despertar e agarrar um novo dia. Ou contava-te uma história começada por 'Era uma vez...' sem meio nem fim, até sentir-te respirar um sonho feliz, embrulhada no meu abraço infinito sem noite nem dia. E eu ficava quieta, a olhar-te e a passear as pontas dos dedos pela tua nuca até o cansaço me vencer e adormecer também ao teu encontro algures, num sonho partilhado.
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E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

DAVID MOURÃO-FERREIRA

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Self Pitty

Peter Elköf, untitled, 2006

Self-Pity
by
D.H. Lawrence

I never saw a wild thing sorry for itself.
A small bird will drop frozen dead from a bough
without ever having felt sorry for itself

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Enquanto dormes...

Anabark, Awaked Ghost (JUL05)

Esse teu passear silencioso por mim,
com o veludo de quem se quer invisível,
transporta-me para um sonho em que consigo
perguntar-te mais do que que apenas 'Está tudo bem?',
nos sonhos tudo é possível.

Esse passo cauteloso em que te deslocas,
para não acordares e continuares a pensar que durmo,
deixa-me adivinhar que o teu sono não é tranquilo,
que nele tentas enganar a necessidade
de te voltares e de te sentires por inteiro.

Esse deambular felino que nos resta,
no silêncio e na distância com que nos separas,
diz-me que o desassossego persiste
como um fantasma que não desistirá
de nos perseguir.

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Não quero mentir mais

Alfisti, Dry

não quero mentir mais, estou cansado de mentir.
vejo o teu rosto parado numa fotografia e a memória
que guardo de ti é tão diferente da realidade assustadora das fotografias.
não vou mentir. estou cansado de mentir.
a minha vida também és tu, o teu rosto parado na minha memória.
a minha vida és tu e todas as mãos que me seguraram e me quiseram,
todos os lábios que me beijaram, todas as línguas que me desenharam figuras
na pele, todos os dentes que me morderam, todas as vozes que me disseram amo-te
e me fizeram acreditar nisso. não quero mentir mais. estou cansado de mentir.
não és quase nada, mas não quero e não vou fingir que nunca exististe.


JOSÉ LUÍS PEIXOTO

sábado, 30 de dezembro de 2006

Não te quero senão porque te quero


Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.

Pablo Neruda

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Perspectivas:Deixar de querer
Bocadinhos mistos #1 - Aim higher