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domingo, 31 de maio de 2015

O livro em branco

anabark, Sunny spot [Maio 2015]

Partiu quando se fez dia. Levou consigo todas as palavras que escreveu com o mesmo sentido de quem, um dia, as leu. Perdeu-se no texto depois do ponto final e encontrou-se na falta de sentido. Guardou todas as palavras do texto perdido e partiu para além da pontuação. Rasgou as páginas em branco. Deitou fora as sobras do livro que não escreveu. Atirou as palavras escritas ao vento para que viajem e encontrem o sentido que já tiveram para além da gramática e da pontuação.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Para além das nuvens

Anabark, Smoking lamp [MAR, 2013]

Agora vive a reparar nos pormenores, como se fosse a última oportunidade de ver para além do que está vista. Agora as generalidades deixaram de fazer sentido porque são perdas de tempo e, ainda que o mundo não acabe amanhã, os dias passam depressa e a vida não deve desperdiçar-se em tempo perdido. Agora nenhum azul no céu é igual ao de ontem e por isso é preciso reparar nas diferenças e saber distinguir o tom. Agora que o tempo passa mais depressa do que ontem, dá-se conta do que, estando à vista, nunca chegou a ver. Agora que já é depois de muito azul que nunca viu, não há tempo a perder com meios tons!

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Janela na escuridão

BlauBeerKuchen

Havia sempre luz naquela janela onde a noite nunca chegava a entrar. Havia sempre luz e os dias nunca acabavam da janela para dentro. De vez em quando adormecia o seu cansaço em cima de um livro ou encostada a um filme a preto e branco. E acordava quase envergonhada pelo tempo perdido no sono sempre breve. A luz continuava acesa, só o nascer do dia a tornava dispensável. Havia sempre luz naquela sala como que à espera de alguém que não sabe o caminho de volta.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Era só...

Alessandro Puccinelli, Varie, 2010

Era só um mar inteiro que não tinha volta por nunca se acabar. Era só um partir por não saber ficar. Era só um longe que se navegou por se deixar de gostar. Era só um mar que trocou as ondas pela areia de tanto se cansar.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Amor de mar

Mirela Momanu, They Are Watching

Foi, tão depressa como veio. Foi onda de maré viva, tocou a praia e fugiu com o mar. À noite procura-se na areia por onde passou. E escreve cada passo com a força do mar. De manhã acorda no mesmo sítio, apenas as nuvens mudaram de céu. Uns dias chove, outros dias o sol vem dançar com as horas da maré vaza.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

História mal contada

Bertil Hansson, Red Night, 2009

Tudo e tanto eram a mesma coisa, a mesma pessoa, um sentimento que não cabia no tempo, bastava um abraço para o abrigar sem princípio nem fim. Tanto e tudo sem intervalos, apenas a eterna urgência de, para além da pele, beijar com fogo a alma e adormecer depois num corpo só. Em toda a parte, os mesmos lábios desenhados por esse tanto que nem nos sonhos cabia. Porque tudo era sempre a toda a hora num encontro feliz. De tanto e tudo se fez nada. Apenas uma história mal contada.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Dia a dia

Wolfgang Tillmans

Desapareceu nas palavras que nunca ouviu. Desapareceu no tudo que calou. Desencontrou-se do que não deixou à espera e perdeu-se do que encontrou. Não partiu, não voltou. Desapareceu num tempo que não aproveitou. E os dias passam como têm de passar, feitos de passado e de presente, e desaparecem também. Tudo é tão frágil como a própria vida. E só a intensidade do sentir é força para segurar por inteiro, em vida e para além da morte.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Em quem não sobra o perdão

 
Anton Okički

Sentou-se no seu canto à espera de envelhecer. E depressa envelheceu, mais depressa do que o normal. Cresceram-lhe cabelos brancos dentro da cabeça e o olhar foi ficando baço até que perdeu toda a luz que antes o transbordava. Deixou de ver, de falar e de sentir também. Ficou quieta no mesmo sítio até não lhe sobrar mais nada de juventude, como quem desiste da inquietude da vida e abraça a tranquilidade da morte por antecipação, incapaz de assumir o risco e o desconforto dos dias incertos. Envelheceu uma vida dentro da sua própria vida por opção. E enquanto vai desaparecendo de si mesma, segura de mão fechada ressentimento e o desperdício de acreditar que tem outra vida para viver. Olho-a à distância, tento chegar-lhe e caio sempre no chão, magoo-me. Já parti, por ela, vezes sem conta o coração.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Resumo

João Castilho, Linhas

A meio da noite, na escuridão de quase nada, havia, contudo, uma história maior interrompida. Mas nenhuma quis reparar. Deixaram-se morrer presas numa armadilha de teimosia, paralisadas e surdas, sem querer chegar a um abraço.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Chão de papel

S. Richardson, 'Balloon'

Da festa ficavam restos das horas em que o tempo se perdia sem dar por isso. Passos de despedida tropeçavam em fotografias do chão que, antes, era de dança e que, agora, só as partículas de pó colorido deixavam adivinhar essa vida anterior. Agora o chão desfazia-se ao som da voz como se as palavras fossem pedras arremessadas contra montras de papel e tudo nele se desequilibrava e caia, a música, as coisas, as horas, as memórias. Nos buracos abertos formou-se um abismo do que ficava por dizer e nesse vazio foram-se arrumando aos poucos... até que o silêncio as engoliu para sempre na indiferença.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Cativa


Tocou-lhe suavemente a pele e a marca dos dedos ficou lá. Ficou cativa, como quem fica preso na alma por um fio de uma força invencível, que ninguém se atreve a desenrolar. Os dedos, as mãos, o corpo desapareceram, mas a pele tocada relembrará sempre o doce enredo de quem lhe tocou, para além do corpo, a alma.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Cinzento

Werner Branz

- Uma memória vaga da última noite que até podia ser a noite passada! - disse de voz esvaziada no tom, quase cinzenta, e virou as costas. O quarto encheu-se de nevoeiro e os olhos, perdidos nessa distância, não voltaram a encontrar-se no que alguma vez tiveram.

sábado, 6 de julho de 2013

Ar de lume

Mark Mawson

À noite, ao entrar no quarto, cheirou-lhe a incêndio e não havia nada a arder. Desfez a cama, abriu a janela e esperou que a lua entrasse. Não adormeceu nem tentou dormir. Viu as horas passar e os dias também. A lua deixou de deixar ver-se da janela aberta e ar de lume espalhou-se por toda a casa. E não há fogo nem vontade de dormir.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Do céu para debaixo do chão

Robert Vizzini

Foi num filme antigo, em technicolor, que elas se desencontraram, a olhar para cima, não para o céu mas para o topo do arranha-céus. Muito tempo passou, o filme envelheceu e elas perderam-se para sempre na esquina oposta da mesma cidade. Sobreviveu-lhes o arranha-céus e nem a saudade que as encontrou é livre de ser vivida, porque agora são enredo de cinema negro: os polícias são ladrões e não há heróis numa história de passado contada em voz passiva.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Águas paradas

Tito Mouraz

Já foi mar, um oceano sem fim por onde toda a fé do mundo nos navegava. Já foi esse azul infinito sem estações do ano onde o céu, sempre iluminado, se espelhava. Já foi uma vontade mais forte do que, no mar e na terra, todas as tempestades. E foi por vezes cabo das tormentas mas sempre da boa esperança, a noite e o dia como tudo na vida é. Foi o que pode ser e o que o verão bruscamente interrompeu pelo que escapou aos sentidos. De todo o mar que o tempo não cumpriu, ficou um buraco de pedra sobreposta em camadas. E, no fundo, um lago de lágrimas, onde a alma deserta lutou para não se afogar. Já foi mar onde, hoje, são as águas paradas do naufrágio do amor.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Nudez

Baptiste Léonne

Despia a alma a custo. Nunca tinha ficado nua para além do corpo. Escondia na nudez da pele o longe que a habitava dentro, onde ninguém chegava sem voltar para trás de tão perdidos no caminho. Ficava nua sem nunca despir quem era. Foi a primeira vez, e talvez a única, numa vida inteira, que deixou espreitar o que, de corpo nu, nunca foi capaz de revelar. E ninguém reparou.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Jardim de inverno

Anabark, Quase flor (AGO2012)

Recordo flores que eram ideias cheias de cor e ideias que nunca se tornaram flores. Recordo flores que segurei na alma à procura de casa e que ficaram à porta rejeitadas como ervas daninhas. Recordo a noite que me chegou no instante em que, sem terra nem semente, me atiraram ao chão. Recordo flores que apanhei pelo caminho e levei para casa com a pressa de quem tem um beijo urgente para dar. Recordo a urgência que não encontrei nos lábios que tanto eu queria beijar. Recordo sinais e prenúncios de fim e tudo o que me desacreditava preferi ignorar. Recordo um jardim inteiro que definhou à falta de água por preguiça de regar. Recordo Amor, que acreditei de pedra e foi de vidro, julgado e condenado. Recordo a primavera e toda a luz do infinito em mim sacrificada ao passado.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Azul sem casa

Anabark, Azul (AGO2012)

Às vezes acreditar é força suficiente para acontecer e há dias felizes em que nos acorda essa força de ser e o mundo vem, generoso, ao nosso encontro. Hoje a manhã chegou cheia do azul-água que, ontem, segurei, com fé, nos braços. Hoje acreditei em cores luminosas e num céu que está quase a acontecer. Hoje acreditei que as boas pessoas podem mudar o mundo e apostei na minha fé. O que ontem era nada, hoje é um céu aberto e amanhã, talvez, o paraíso. Hoje o verde de esperança é a cor das horas decrescentes. Amanhã será um dia azul, infinito nos olhos e na alma que os espera. E um sorriso no coração de quem neles, hoje, acreditou.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Mar-a-mar

Anabark, Cabos (JUL2012)

E tudo o que navegar não será em vão. Na alma levo um oceano e os olhos rasos de água e parto, todos os dias, para alto mar. Já naufraguei na maré vazia e morri na areia mesmo à beira do mar. Tudo o que fui não chegou para me salvar, o que me resta foi-se nas ondas e eu não sei nadar. Construí um barco de vento que empurro com a minha vontade de salvar quem sou no que me conheço como alma. E no coração me navego neste barco à vela e, nesse mar, tudo o que navegar nunca será em vão.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Alta noite

Tom Slatin, Abandoned Schoolhouse

Na outra ponta da casa esconde-se a lua nova em noite escura, e o tempo passa como um segredo nunca revelado de uma vontade impura. O vento bate à porta, entra e sai, veloz, pelas janelas, arruma e desarruma as cores esbatidas de uma velha tela. Sabe a noite uma história de luz que perdeu o dia, e a lua tem vergonha da sua figura vazia. E no que o tempo anoitece tudo é lento na sua infinita monotonia. As horas nascem e entristecem na contemplação de tão grande desperdício. Só o vento não se esquece de emprestar a toda a casa um ar de reboliço.