Anabark, Estrelas, JUL2011
E junto ao chão havia estrelas, nascidas de terra grávida de esperança em cada Primavera. E havia debaixo do sol, e da chuva também, a vontade de renascer uma e outra vez, muitas vezes, eternamente. E todos os charcos de água eram lagos que davam de beber aos pássaros e deixavam um lençol de azul à beira do caminho. E nada era de pedra, tudo era hipótese de vida. E eu ali chegava como se o tempo não fosse tempo, fosse apenas o infinito, e ali ficava suspensa como as estrelas feitas de flores miudinhas ao sabor do vento. Debaixo dos meus pés, a terra desaparecia pouco a pouco e eu assim me perdia entre o estar e o ser. E depois do tempo bom, caíam as folhas das árvores e as flores estreladas secavam e acabavam por fugir com o vento, numa pressa precipitada. E eu ali ficava, instalada no Outono como minha casa temporária. E o Inverno chegava num empurrão de frio a curvar-me o corpo ao encontro de calor. E mal o corpo se aquecia, a chuva e o frio partiam timidamente de mãos dadas e a Primavera entrava primeiro num pedaço de pele, depois pela alma de dentro para fora para dentro, como quem, descuidamente, adormece por umas horas e depois acorda mais renovado. E tudo volta a estar no lugar, renascem, do chão para o céu, as flores feitas estrelas e os pássaros trazem nas penas a cor que, durante uns tempos, se escondeu do atlântico dos dias em que tudo era mais bonito por causa do Amor.