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terça-feira, 16 de julho de 2013

Dizem

Anabark, Auto-retrato [Out. 2012]

Procurei nos cantos, no chão da casa e até em cada rua por onde passei. A cabeça que perdi não voltei a encontrar. Não faz mal, não me faz falta. O essencial mora na alma, dizem...

sábado, 6 de julho de 2013

Ar de lume

Mark Mawson

À noite, ao entrar no quarto, cheirou-lhe a incêndio e não havia nada a arder. Desfez a cama, abriu a janela e esperou que a lua entrasse. Não adormeceu nem tentou dormir. Viu as horas passar e os dias também. A lua deixou de deixar ver-se da janela aberta e ar de lume espalhou-se por toda a casa. E não há fogo nem vontade de dormir.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Real valor

Anastasia Zavalo, Chairs

E se tudo quanto existe fosse apenas impressões digitais únicas do Tempo, quanto valeria uma mancha numa parede de memórias ou as partes de uma história antiga desarrumadas pelo chão? Que valor teriam as ruínas de uma casa em nós há muito tempo desabitada?...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Andando

Anabark, Ramos de sol (SET2012)

Andando... no tempo ausente, o coração dormente. Passeando no beijo do vento, tão leve se torna o pensamento. Leve o que não se espera. Contudo impaciente o desejo, a vontade de ser tudo o que se sente. Andando pelas horas desencontradas entre as manhãs e as madrugadas. Levemente para não acordar quem dorme nos braços de um sonho leve que acredita como vida. O silêncio de quem não sente é a própria vida adormecida. Insidioso o vento que tudo leva e nada devolve. Coração que não ouve, coração que não resolve.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O invisível

Anabark / Tiza Gonçalves, Self-portrait, (JAN2012)

Não percebo. Nem vale a pena pensar e racionalizar o que sinto que pareço que sou. Serei isso e mais certamente, e esse certamente que sei que sou nunca o saberei exactamente. Não percebo. Não percebo o que me percebem. Percebo o que sinto e o que sinto define-me em parte. O resto de mim desconheço, o que os outros me sentêm não alcanço completamente. Não o serei exactamente mas a impressão construída não controlo, nem a ela sou isenta eu sei, existe fora de mim no que me inventam e me percebem também. Sou a obra e o rascunho ao mesmo tempo de um projecto para sempre inacabado. Não percebo o que me sentem. Sei o que sinto e sinto o que sou em mim mesma de forma inteira. Nunca serei a fantasia do que os outros pensam que sou, porque sou apenas aquilo em que me encontro dentro sem equívoco e sem a pressão da expectativa do mundo.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Arrecadação

Anabark, Espreitar (JAN2010)

Guardo tudo o que vejo e sinto na alma como se parte de mim soubesse que o mundo que conheço acaba amanhã ou no dia a seguir. Guardo quase tudo de forma arrumada, mas há dias em que me faltam horas ou, se calhar, acordo tarde e, nesses dias, deixo cair partes sem dar conta da dasarrumação que me fica nos intervalos de cada passo para o dia seguinte. E a parte de mim que teima num fim do mundo eminente estremece em sobressalto e recomeça, por onde pode, a juntar o disperso espalhado em meu redor. E recolho no que encontro outros sentidos, outras lógicas de arrumação. Na alma mantenho a calma de saber onde estou e, embora o tempo me seja cada vez mais curto e pouco para me guardar em tudo quanto me abriga a existência, reconheço útil o esforço de aprender e guardar o que vou vivendo. Tudo quanto conheço terá fim. Até mesmo a alma, engrandecida por tudo quanto aprende e segura, um dia acordará exausta e perdida na imensidão acumulada. Porque guardo tudo, não esqueço nada. Não me abandono de sentido nem de propósito, mesmo quando acordo cansada das noites em que teimo não dormir para ter a certeza de que, no dia seguinte, o mundo amanhece para nova hipótese de vida.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Sistema solar

Anabark, Up (DEZ2011)

Por onde passo o céu é sempre o mesmo. Os dias e as cores mudam. Chove e faz sol e vice versa, ou tudo ao mesmo tempo rasgando um arco de cores no azul lá em cima. Tudo muda, os lugares, as pessoas, o pensamento, apenas o céu permanece à mesma distância das nossas cabeças, sempre longe, impalpável, do tamanho de todos os sonhos do mundo. Posso imaginá-lo um sistema solar pintado de balões, fugidos das mãos de crianças, que tento prender com o olhar para devolver aos distraídos que sonham sem limites e acreditam que vale a pena o que a alma sonha e o que faz sorrir o coração. Porque vale a pena o que a alma imagina sorrindo ao coração. Porque vale a pena a alegria do coração no que sonha a alma. Lá em cima um céu nos abriga de sol ou chuva, conforme as estações. Por dentro, a alma é uma galáxia e as ideias são planetas vivos na órbita do sonho.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sensibilidade

Anabark, Broken (SET2011)

Viver no nunca acaba por ser quase um sempre com aquilo que temos á mão. Importante é que a sensibilidade não nos falhe, porque sem ela deixaríamos de ser nós, e não sendo nós mesmos somos coisa nenhuma. Não existo ausente do que sinto e sei que o que sinto me distingue das outras pessoas. Ás vezes o que sinto é tanto que não cabe em nada, outras vezes tem marcas de dedos pesados que apertam a alma até correrem lágrimas de dor pelo corpo todo. Mas tudo o que sinto me dá vida e á vida eu não resisto, aceito a dor como o amor e reinvento-me no que me sobra como força e fé. Não minto, não engano, digo o que sinto. Acredito que quem sente tão profundamente está vivo, mesmo que viva num nunca a sentir um sempre a rasgar-lhe o peito. Penso e sei que existo, habita-me uma alma cheia de sentimento pleno de sentido.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Raio X

Bogdan Szadowski, 2009

Está tudo arrumado e no seu lugar. O que sou, sempre fui e não tenho de explicar. Erros meus, decisões felizes, amores ardentes e corações desfeitos, ontem, hoje e sempre. Não serei outra, a essência não se despe, a alma não se pendura. Sou este pouco para alguns e este tanto para outros, pouco importa, não sei fingir o que não sou. O que sou aceito dos pés à cabeça, não ponho nada de lado. Está tudo arrumado, o que já vivi e morri e o que aprendi a renascer. Não carrego peso para além do que preciso, nem prometo o que não tenho. Não digo que sim quando sinto não, nem me engano a mim quando os outros me enganam. Sou muita coisa ao mesmo tempo mas não me baralho por dentro. Sei o que não sou capaz e assumo sem vergonha. Acredito na vida que aprendi e confio no que percebo de boa fé nos outros. Não tenho tempo para me entreter com equívocos nem sucedâneos, não quero gente à minha volta só pela companhia. Não tenho medo de estar comigo a sós porque nada é pior do que sentir-me mal acompanhada. Está tudo arrumado e no seu lugar devido.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Recolha

Anabark, Escombros (SET2011)

Já não sou o que era dantes. Sendo a mesma, sou distinta na confiança e na vontade. As paredes da casa cairam e já não há mais nada para arrumar. O que resta do eu de outrora é para limpar e deitar fora partes inúteis. Se todo o ser é composto de mudança, recolho do passado sem futuro pedaços mais inteiros para me lembrar de que nada é eterno senão aquilo que cuidamos com alma inteira. O que me sobrar depois disso é areia por entre os dedos, impossível de segurar com força de mãos. Já não sou feita do mesmo, sou o tempo de hoje na mudança de estação. Sou o que fica de pé depois da tempestade. Sou o passado mais o valor acrescentado pelo intervalo da mudança. No chão, debaixo dos escombros, desponta a promessa de uma outra vida.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mudar um rio de lugar

Anabark, Cry me a river (SET11)

Nas noites sem dormir procuro, às escuras, um sentido, uma solução. Algo que o silêncio do mundo que dorme ajude a compreender o que não sei dizer. Procuro o momento que me escapou ontem e que, hoje, voltei a não encontrar. Procuro o tempo em que tudo era sempre e infinito. Porque desencontro, todos os dias, a sorte de te encontrar por aí, ao acaso, como se todos os lugares conhecidos tivessem mudado de sítio e, em nós, nada mais houvesse do que pontos de partida e nunca de chegada. Se calhar não há. Se calhar sobram apenas duas margens separadas por um rio e pontes flácidas e desfocadas. Nas noites acordadas, fico, na minha margem, à beira do rio a reinventar a geografia. E, quando adormeço, sonho que as pontes tomam forma e que as margens se encostam. E que a cidade se ilumina de nós por todo o lado.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Muros

Anabark, Vigilante (SET2011)

E tão depressa era dia como noite escura e demorava o seu tempo a perceber, pensava. O tempo era redundante, observava. Esperava compreender um dia por que falta cor á noite escura e por que sobra luz ás horas claras. De vez em quando, olhava para dentro e via janelas fechadas. Outras vezes escalava muros para estar mais perto do que não se deixa chegar. E ficava sempre a um palmo de distância do que queria e não compreendia porque não passava do mesmo sítio. Esperava compreender um dia. Esperava. E a noite e o dia confundiam-se e deixaram de acontecer separados. E o muro que separava o dentro e o fora ficou mais alto e difícil de passar. Não compreendia e pensava muito sem perceber nada. Esperava compreender um dia. Esperava esse dia. Primeiro em silêncio, depois, desastradamente, o silêncio quebrou-se. Deixou de haver dias desde então. O muro cresceu. Esperou. As horas claras não voltaram por detrás das janelas fechadas. Esperava. Espera... Nunca compreendeu.

domingo, 18 de setembro de 2011

Presunção

Anabark, Passage in time (SET2011)

E quando os dias esperam o que não sabemos, a vida acontece como areia entre os dedos das mãos. E depois entardece e tudo fica mais longínquo, talvez demasiado longe para chegar a tempo, porque o tempo não sobra quando desperdiçado. E pensamos que sabemos o que fazemos e que estamos certos e somos justos. E, por vezes, nem chegamos a dar conta do que deitamos fora com a arrogância de quem não sabe dar valor ao que milagrosamente nasceu em nós como coisa rara. Tornamo-nos coisas ruins, terra estéril, abandonados à imaturidade de tudo querer e não saber guardar o que escolhemos conquistar. Porque, uma vezes, perdemos sem culpa e sem querer, outras vezes, deixamos de cuidar por desmazelo e teimosia e morremos por dentro, aos poucos, porque ficamos sozinhos sem saber voltar atrás. O tempo, que não existe mas que inventamos por conveniência e sentido prático, passa por todos e não se detém. Tudo envelhece e morre, excepto, talvez, as pedras do caminho e o que conseguirmos guardar na alma   durante a caminhada.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

De frente

Anabark, Face to face (AGO2011)

De frente para o que vem a seguir, de pé como as árvores e de alma nos olhos. Indiferente ás estações do ano, ao tempo contado no caledário. Grandes são aqueles que gostam de aprender mesmo aquilo que julgam saber, porque existem sempre um lado por descobrir. De cabeça erguida, cara a cara, com o coração aberto  e de alma á janela para receber e partilhar. Descobrir o mundo em cada minuto como se hoje fosse o último dia, porque amanhã quem sabe se vai chegar. Assim são os grandes de espírito, os valentes e nobres de coração. O mundo é infinitamente mais bonito quando descobrimos pedaços de cor numa paisagem de tanta gente e alma nenhuma. O mundo é infinitamente mais bonito quando temos a paciência de pintar o que os olhos alcançam da cor de um abraço sentido e de amar quem nos toca a alma. O Amor é uma pintura inacabada á qual se acrescentam continuamente pormenores em tons de cores infinitas.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Interiores

Anabark, No canto da sala [MAI2011]

Ali, na parede branca, que os meus olhos preenchem com ideias fixas todas as noites, passeiam-se sombras de coisas que-não-foram. No branco da parede ideias tomam forma como se o-que-nunca-foi pudesse acontecer ali, nos contornos que a luz define... O branco da parede teima nesse constante desafio de inventar uma outra dimensão de vida, onde tudo acontece de acordo com o plano ilumidado pela artificialidade da luz. E tudo existe e tudo é possível, nada existe e o tudo o-que-não-foi não será nunca e eu sei. Na parede branca desenho pensamentos que teimo em ter por companhia, em casa e por todo o lado, tanto de noite como de dia, como se o tempo fosse sombra sem passado, apenas presente alheio ao futuro. A certeza do que-nunca-foi tornou-se uma assombração. A saudade do que poderia-ter-sido aninhou-se ao meu lado e nela encosto a cabeça e adormeço neste canto de sala.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Em tempo real

Anabark, Jungle of thoughts {JUL2011)

E à noite os pensamentos ganham uma velocidade diferente, tudo se passa mais depressa, fundindo-se passado, presente e futuro. De manhã, quando acordo, tenho impressão que já vivi este presente, ou que o passado se repete e, á força da repetição, tornou-se presente com o á-vontade da visita de um velho amigo. E as ideias e pensamentos sucedem-se num perpétuo movimento que não sei interromper, nem sei se devo, talvez não. Tudo tem de acontecer na altura  devida e, por pouco sentido que façam os dias sem tempo verbal definido, tenho de deixar acontecer o que estiver para ser. O destino, como lhe chamam, não acontece nem antes nem depois, independentemente da nossa vontade. O passado que volta a ser presente não garante segundas oportunidades. A velocidade que encontro à noite, de um pensamento ao outro, é excessiva, comporta a vertigem que esbate a noção de tempo. Tudo o que tenho a fazer é viver o momento em tempo real, só e apenas isso. Amanhã é sempre longe demais mas não vou andar mais depressa que o pensamento, nem mesmo nos dias em que a incerteza esvazia o coração do sangue que o mantém vivo.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Nem a morte

Anabark, Obscuridade [JUL2011]

Seria mais fácil ser igual a toda gente e não querer mais do que os demais. Mas não quero tornar-me uma vulgar história de amor desfeita não sei como nem porquê. Não quero pensar-me igual a todas essas histórias que se contam por aí como troféus de vida, em que tudo acaba e, orgulhosamente, se exibe o fim do que, um dia, se acreditou infinito. Não quero ser esse momento de desencanto absoluto e desamor evidente dos que perdem tudo e destroem o que sobrar. Não quero ser comum e fazer conversas de passado aligeiradas de conteúdo como se quem viveu como pele da minha pele perdesse essa importância que o Amor lhe vestiu um dia. Não quero ser a vulgaridade de ter uma história para contar. Não quero ser banal e dizer que, na minha história de amor, não fui 'feliz para sempre', que tudo é passado e que para frente é caminho. Para a frente só é caminho pela esperança acarinhada no porvir, porque podemos acreditar que o melhor está para vir, fantasiar a perfeição, iludir-nos e enganarmo-nos a nós mesmos para encontrar a paz de espírito e o perdão que nos procuramos. Mas eu não quero isso para mim. Quero assumir que chorei, que lutei e que perdi. E, nesse desaprumo, celebrar-me pelo que sei sentir em mim, o Amor apesar de tudo. Quero a dignidade dos que perdem  acreditando sem desistir antes da meta. Não quero a cobardia dos que afirmam que o Amor se desfaz como um castelo de areia à beira do mar. O Amor vive na alma e a alma que alberga o Amor é uma fortaleza que, talvez, nem a morte, saberá derrotar.

domingo, 31 de julho de 2011

Conta-rotações

John Hamers, 2011


E o tempo ultrapassa-me e de nada adianta correr contra ele. Mais forte do que o vento forte, o tempo ultrapassa tudo, sonho e realidade. De tudo quanto fui, quardo o que posso num baú imaginário, como quem segura o que sente por dentro como alma. O que sou, construo todos os dias como quem quer muito aprender a melhorar. Do que serei amanhã e nos dias por vir só posso trabalhar a ideia do que gostaria que fosse, como quem sonha uma bola colorida onde cabem todos os sonhos do mundo e o mundo também. Mas o tempo corre mais depressa do que a vontade e do que sonho. O tempo corre mais depressa do que a vida. E eu, como toda a gente, sou apenas um esboço de inúmeras possibilidades. Sou sonho e coisas concretas, memórias e ideias, passado, presente e futuro. E sou também o tempo que me ultrapassa quando me deixo ficar imóvel nas horas a que nada acrescento para além do meu petulante aborrecimento e falta de assunto. E sou também a vida que quer o tempo por inteiro, sem desperdício. E quero encontrar-me e acertar o passo, como quem acredita que não há tempo a perder. Tem de ser o que estiver para ser e tem de ser agora.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Vaguear

Bogdan Szadowski, 2008

Fechar os olhos e andar ao mesmo tempo. Apetece-me. Vaguear sem saber se torto ou a direito, inconsequentemente. Sem razão, sem destino e sem propósito, apenas andar por aí, por aqui e por além também. De olhos fechados como um recém-nascido que descobre as sombras como o mundo a tomar forma. Apetece-me não saber mais do que isso, ou menos talvez se for preciso. Apetece-me andar, sem encontrar destino, para não morrer num final de linha qualquer e poder continuar para além do razoável. Vaguear em mim mesma, ser caminho e vontade de caminhar ao mesmo tempo. Apetece-me partir descalça, sem as botas que a vida me calçou, e encontrar pelo caminho uma forma de andar sem por os pés na terra e não cair no impossível. Apetece-me desencontrar o tempo, as regras e a opinião dos outros. Apetece-me fechar os olhos, dar um passo em frente, e seguir o meu caminho, seja ele qual for. Manter-me de pé, como as árvores na sua inabalável vontade de tocar o céu... ou crescer, simplesmente, apoiada na ideia de Deus, antes, durante e depois do fim de tudo.  

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Dias atlânticos

 Anabark, Estrelas, JUL2011

E junto ao chão havia estrelas, nascidas de terra grávida de esperança em cada Primavera. E havia debaixo do sol, e da chuva também, a vontade de renascer uma e outra vez, muitas vezes, eternamente. E todos os charcos de água eram lagos que davam de beber aos pássaros e deixavam um lençol de azul à beira do caminho. E nada era de pedra, tudo era hipótese de vida. E eu ali chegava como se o tempo não fosse tempo, fosse apenas o infinito, e ali ficava suspensa como as estrelas feitas de flores miudinhas ao sabor do vento. Debaixo dos meus pés, a terra desaparecia pouco a pouco e eu assim me perdia entre o estar e o ser. E depois do tempo bom, caíam as folhas das árvores e as flores estreladas secavam e acabavam por fugir com o vento, numa pressa precipitada. E eu ali ficava, instalada no Outono como minha casa temporária. E o Inverno chegava num empurrão de frio a curvar-me o corpo ao encontro de calor. E mal o corpo se aquecia, a chuva e o frio partiam timidamente de mãos dadas e a Primavera entrava primeiro num pedaço de pele, depois pela alma de dentro para fora para dentro, como quem, descuidamente, adormece por umas horas e depois acorda mais renovado. E tudo volta a estar no lugar, renascem, do chão para o céu, as  flores feitas estrelas e os pássaros trazem nas penas a cor que, durante uns tempos, se escondeu do atlântico dos dias em que tudo era mais bonito por causa do Amor.