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segunda-feira, 17 de março de 2014

Por ridículo que seja

El Karamelo, Empty 2

Assim, num imprevisto, vem-me à cabeça a frase de um poema que exclama 'Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo...'* e penduro no armário a perfeição do mundo como roupa de estação que nunca virá a ser. Toda a gente veste a angústia das coisas ridículas mas poucos a assumem. Visto os dias de ideais que não calo por muito absurdos que pareçam ditos em voz alta. Sei que sou apenas o sonho de ser um pouco mais além. E, no absurdo em que tantas vezes me encontro, desencontro-me de todos quantos se acreditam acima do ridículo que são.

* Álvaro de Campos in 'Poema em Linha Recta'

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ponto de situação

Anabark, Ideias Fixas (AGO 2013)

Gostava mesmo muito de estar enganada como tu achas sempre que estou. Gostava de não ter razão nenhuma e de ser surpreendida por melhor razão!...

quinta-feira, 11 de julho de 2013

A importância de 'nunca'

Seth Casteel

Nenhuma palavra é mais injusta do que a palavra 'nunca' porque ela obriga a um quase juramento e compromisso imediatos que, amanhã, poderemos não conseguir cumprir, porque o mundo mudou de lugar, porque nós mudámos em nós mesmos, porque deixou de fazer sentido, por milhares de razões. Mas existe, em mim, um 'nunca' que é uma verdade absoluta, quando nem o coração nem a alma sabem mentir: o que nunca fiz! Esse 'nunca', mesmo que ninguém o acredite, e por muito que me acusem do contrário, vale em mim a maior certeza de mim mesma, porque essa inocência me pertence de corpo e alma. Mesmo que me afogue nela.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O que não me dói

Corinne Mercadier, Une fois et pas plus

São, em mim, dor todas as palavras que já disse e que foram mal interpretadas, distorcidas ou esvaziadas de sentido. Dói-me tudo o que não quis dizer e que me ouviram de coração esquecido. Dói-me tudo o que não disse um segundo antes do orgulho ferido. Dói-me o quis dizer e que ficou no silêncio perdido. Dói-me a falta de sentido, o desperdício das horas e o caminho destruído. Dói-me o equívoco nunca esclarecido. Dói-me a dor de quem mal me entendeu quando eu própria me deixei de ouvir. Dói-me a falta de amor do erro, o abandono da alma no que gritei e o abraço que não recebi nem dei quando era preciso. Mas não me dói o que, no melhor e no pior de mim, nunca deixei de sentir. Amor.

terça-feira, 24 de julho de 2012

O que não posso

Gerd Benninger, Yuanyang, 2011

Pudesse a alma ser de novo construída para evitar o que o coração sente. Pudesse a alma mudar como muda o corpo tão rapidamente. Pudesse eu ser uma pessoa diferente e sentir as coisas de outra maneira ou mesmo deixar de as sentir completamente. Pudesse eu ser apenas eu e não trazer debaixo da pele quem está ausente. Pudesse eu despir-me dessa verdade que o tempo me confirma porque a alma não tem idade nem as horas que passam desfazem a sua verdade íntima. Pudesse eu deixar de ser o que me é tão essencial e arrumar o desassossego que, apenas em mim, resiste como pele da minha pele. Pudesse eu viver pela metade e, não sendo inteira, resistir sem dor ao coração vazio e à alma perdida. Pudesse eu ser ser um corpo ausente de sentimento como princípio de vida.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Em vão

Anabark, Amarras (JUL2012)

Não sei adormecer a alma longe do que sinto nem esconder de mim mesma esse lugar, sem princípio nem fim, que me acordou um dia. São mil noites por dormir em que não falto à verdade de um sentir maior do que permite a força humana. Em vão. Não procuro o que não existe porque não vou encontrar o que me falta. Sobram-me horas vagas para aceitar honestamente esse tudo que não mudou em mim. Sobram-me ideias e certezas que o tempo não apagou. Em vão. Porque tudo é tanto o coração não se cansa. E existe um mar por dentro que são lágrimas que não se acabam. Em vão.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Paladar

James Casebere, Interrogation Room, 2008

Sabe-me a água salgada o dia que termino sem mar à vista e praia adiada. Sabe-me o dia a outra vida que não esqueci. Sabem-me as horas ao desassossego insatisfeito que noutro tempo vivi. Sabe-me a tudo e a nada e a uma vontade desencontrada. Sabe-me ao mundo que encontrei um dia e no dia seguinte perdi. Sabe-me ao sonho de um Amor inteiro e maior do que a vida. Sabe-me a quem não distingo, na alma, de mim. Sabe-me ao vazio e à melancolia das coisas pequeninas. Sabe-me ao que adormeço todos os dias e à distância que me arrefece. Sabe-me a folhas mortas e a florestas desertas. Sabe-me ao desejo e ao impossível. Sabe-me à intensidade que me sobra e que não sei pôr de lado nem tornar imperceptível. Na boca tenho o gosto de um querer de alma que não se cumpre nem adormece.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

As saudades minhas

Brett Weston, Water reflection, 1973

Saudades tenho da ideia do Tudo que acreditei, em nós, existir para sempre. Saudades tenho do deslumbramento dessa ideia nos meus olhos todas as manhãs em que a vivi. Saudades tenho do peito a transbordar da ideia de Amor sem fim. Saudades tenho desse tempo infinito contado em beijos e abraços nos dias sem horas e em noites sem dormir. Saudades tenho dos instantes escondidos pela impaciência do Amor inadiável e pelo desassossego do corpo torturado de saudade. E mais do que saudades tuas, tenho saudades minhas, do que fui capaz de ser contigo porque, contigo, fui o melhor que me conheci. E toda a luz que guardo dentro é reflexo teu e do 'nós' em mim.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Montanha

Emerald Lake (Tongariro National Park - Nova Zelândia)

Depois de muito, depois de tudo, já não tenho mais alternativas do que aquelas que esgotei, a não ser sanar a parte doente que me deixa imóvel, estagnada como que à espera de uma liberdade que eu mesma não me acolho. Não tenho mais decisões para tomar, nem escolhas nem planos para testar. Tenho um caminho interior para andar e a minha verdade das coisas. Só posso agir sobre o que está ao meu alcance, no que depende de mim. A minha montanha é alta e impossível como todos os amores mal resolvidos são, para o esquecimento, tarefa impossível. Não sei o que está certo nem o que está errado e o que é justo ou injusto é-me indiferente, porque nada é tão linear assim por muito conveniente que nos fosse simplificar a vida dessa maneira. O que sei é que de nada adianta teimar numa causa tão perdida. Quem me dera ter respostas sábias e desatar as mãos de um sentimento que, para além de mim, não vale nada!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Memória

Anabark, Dry (SET2011)

Por debaixo da pedra arrumam-se coisas que o tempo não apaga porque o coração não desiste da força que lhe deu vida. Por debaixo da terra, o tempo não existe e o coração bate fora de tempo e sem razão. Por dentro a memória não se esgota, tudo lembra e nada esqueço. Por dentro as lembranças são rios vivos que correm em circuito fechado. Tudo o que tempo não leva para longe com a força de vento forte, para sempre será meu com a força de vida eterna que lhe empresto. Tudo o que perdoo não esqueço. O coração é maior do que peito e a memória maior do que tempo que é infinito. Por debaixo da pedra arrumo o que está a mais por não estar aqui simplesmente. O que não me é sobra-me como parte inútil dos meus dias. Por debaixo da pedra arrumo o que tenho apenas na memória e na memória tenho a vida inteira que ontem existiu.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Fé

Anabark, Estandarte de fé (OUT2011)

Salva-me a fé em que me acredito e guardo. Ao amor eu já morri sem nunca ele me ter morrido a mim. Salva-me aquilo em que acredito e que nunca reneguei. Se o amor morreu porque assim quis, vivo eu para o testemunhar. Salva-me a fé no que sou e fui capaz. Se perdi não foi por desistir. Amei tudo mesmo quando me deixaram nada. Salva-me a fé que sempre tive e tenho ainda num coração infinito. Se acredito, com alma, no Amor que não se acaba, sei que, um dia, ele me voltará a encontrar. Porque em mim ficou iluminado o caminho por onde ele sabe caminhar. Salva-me a fé no que aprendi a sentir tão completamente. E sei que Amor não perde de vista quem nele se encontrou a valer.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Desabitar

Tomasz Dziubinski, Wrought in Silver - Gdanski Bridge, 2009

Não temo o caminho, nem a noite nem inimigos. Não temo a angústia nem a morte como destino de vida. As pedras sei que existem e os contratempos também. E no mundo há mais mundos do que aqueles que sei. Temo as portas fechadas e a falta de vontade de me encontrar. Temo o desencontro, os mal-entendidos e as coisas que nunca disse e que acreditam que se ouviram. Temo a alma desabitada e os escombros do coração partido de tanto sentir em vão. Temo a falta de fé que sobra pela casa por muito que se pendure nas paredes da memória. Temo que nada fique, que tudo se transforme em nada e que a vida se resuma às horas zangadas impostas pela fragilidade humana.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Risco contínuo

David Zimmerman, 2009

Não depende de mim - sinto o que sinto e aceito que o sinto. Não depende de mim e ainda bem! Se dependesse de mim, não teria alma nem um coração vivo no peito, seria escrava da razão e tudo seria preto ou branco, por vezes cinzento, mas nunca outra cor imprevisível. E seria uma pena porque a vida é uma soma de imprevistos que nos desviam e nos fazem voltar a sorrir e a chorar, porque somos humanos e dor e amor fazem parte da nossa condição. Não depende de mim, como a imensidão não depende da distância que não conseguimos calcular. Sinto porque sinto, não depende de mim este sentir. O Amor, descobri, é uma imensidão, um sem fim de encruzilhadas e um único ponto de referência que não se perde nem desaparece por cada vez que dobramos a esquina errada. Porque é Amor resiste. Não depende de mim, nem o erro nem o amor. Pelo que cresci até aqui, ainda bem que sou vulnerável.

domingo, 2 de outubro de 2011

O lugar que se perdeu

Queno, Sainte-Luce sur Mer, Rimouski, 2011

Pouco a pouco a paisagem desaparecia e, á vista, apenas os escombros pareciam ter vida, multiplicando-se da noite para o dia e ocupando todo o espaço que sobrava. O tempo passava apressado e deixava mais destroços de horas desgastadas á espera do que nunca havia de chegar. Deixou de haver vento há muito tempo, nada mexe, nada mudou de sítio para além do que está fora de lugar. As árvores, como promessas de vida, desapareceram deste lugar, já só restam velhos troncos, cansados, pelo chão. O verde perdeu-se desde que, um dia, tudo amanheceu cinzento do mesmo tom. O sol já não vem, deixou de ser preciso a tão pouco que sobra para aquecer ou iluminar... O silêncio tomou conta das casas, por todo lado não há vozes, não há música nem um som, tudo está vazio, ao abandono. Tudo desapareceu num abrir e fechar de olhos. Nada é para sempre, excepto esta minha minha vontade de zelar pelo impossível.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Afirmação

Sem título

Escrito nas paredes, a valer por todas as oportunidades perdidas. Aos olhos de toda a gente, ao sabor do vento e à prova de tempestades. Escrito por dentro, pela força do que se sente tão completamente a valer por ser verdade.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Desencontro

Peter Sussex, Thonet, 2010

A passo desencontrado, anda-se por aí, nem para frente nem para trás, em terreno inclinado. De vez em quando, paramos para descansar, mas partimos, de novo, cansados. Porque os passos desencontrados maçam pelo que não sabem andar, andamos porque andamos, sem grande vontade de caminhar. Entre onde estou e onde quero estar existe um largo oceano por navegar. Não sei caminhar sobre as águas e, em terra, o chão foge-me dos pés. Quem me dera ter asas e voar no vento da minha vontade, até ao longe onde fiquei à espera de me voltar! Aqui, o que resta de mim segue desencontrado do Amor que havia, dantes, por todo o lado.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Coisas importantes

Anabark, Wilderness [AGO2011]

Olhei à minha volta e vi um mundo cheio de coisas com importância. E concentrei-me para olhar mais de perto pormenores que descurei quando morava num mundo pequeno e fechado, onde apenas havia uma casa, uma rua e um jardim. E quando olhei, descobri que, houve um tempo em vivi num mundo de importância relativa que a ilusão constrói. Dentro de mim, havia coisas cheias de importância desperdiçadas por falta de atenção. Dentro de mim havia um mundo infinito que, de não ter fim à primeira vista, foi abandonado à falta de cuidados. Eu chamava-lhe Amor, mas, se calhar, era só eu a chamá-lo assim e a vivê-lo nessa dimensão de grandeza, sem peso nem medida para além do sopro de vida que só ele contém. Um dia as minhas coisas com extrema importância desequilibram-se e espalharam-se pelo chão. E eu corri muito e corri tudo para as apanhar, mas tudo desapareceu nos buracos que faziam de chão. Hoje, reparo que o mundo à minha volta está repleto de coisas valiosas e que, das minhas coisas cheias de importância, sobrou pó levantado pela tempestade.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Liberdades?

Zonedout, Liquid Krystal 9, 2011

Perdemos tanto tempo e saúde a pensar e a investir no que não vale a pena, é triste e quase patético! Não acredito em tanta coisa e depois dou por mim entretida a pensar que sim, que pode ser que aconteça, que talvez seja como dizem e que o defeito é meu por não vislumbrar. Tenho os valores que me educaram, e me fizeram a pessoa que sou, e alguma inteligência que fui construindo sobre o mundo. Acredito que a Liberdade é um bem fundamental. Não a liberdade no sentido amplo e vulgar que se confunde com anarquia e desordem geral, mas a Liberdade que estabelece que nenhum homem escravize outro ou penalize uma forma de pensar diferente da sua. Hoje é o dia em que se comemora essa condição. Mas, enquanto nação, Portugal não existe. Os portugueses não sabem construir um país, não têm noção do que deve ser para que Portugal se cumpra como adulto. Estou farta de não saber por onde ir por não ter em quem confiar. Tudo é mediocre e oportunista. Só me restam os artistas porque deixam obra pela paixão à arte.
Acredito que Amor é a maior virtude do ser humano. Acredito que somos melhores em tudo quando nos sentimos amados. Precisamos todos de um abraço sentido, verdadeiro, forte. Precisamos de amor, de saber o que isso é no corpo, no coração e na alma. Sem isso não seremos nunca nem fortes nem felizes. Talvez, nos dias que correm pela minha vida, eu tivesse razões para pensar o contrário, mas não. Ainda que o Amor seja também sofrimento, ele é vida e capacidade de superação, coragem no seu estado mais puro. Isso, hoje, eu sei. Nunca me senti tão viva e tão inteira, tão disponivel para me dar ao mundo como quando vivi nesse estado de graça.
Os portugueses têm vidas vazias, desinteressantes, porque não amam, não sentem completamente, são demasiado quadrados para privilegiar o que não é palpável. São tacanhos, condenam-se condenando o que não sabem compreender. E eu sei do que estou a falar, fazendo parte de uma minoria de comportamento diferente em termos de sexualidade. Eu gostava de acreditar que, um dia, não fará diferença a ninguém eu beijar a mulher que amo em público, como qualquer casal hetero que se despede ou se cumprimenta naturalmente. Mas a minha Liberdade ainda não me chegou e eu nem culpa tenho de ser o que sou, como não tenho culpa de ter cabelo preto e pele branca. Hoje é também o dia em que penso em tudo isto, em que a Liberdade devia ser também o triunfo do Amor entre os homens, o seu reconhecimento como príncipio fundamental da felicidade humana.
Ontem, que foi domingo de Páscoa, um homem chamado Jesus Cristo, reza o mito, ressuscitou em nome do Amor, depois de ter morrido na cruz por ser diferente da maioria e por assumir essa diferença como revolução (ou para nos limpar de pecados...). E, ao fim de mais de dois mil anos, pergunto eu, como na canção-senha 'E depois do Adeus': quem somos nós, o que fazemos aqui? Quero saber quem sou e o que faço aqui. E não sei. Existo apenas? Só o Amor me dá sentido e até nisso sou discriminada.

domingo, 10 de abril de 2011

Consequências

Raymond Ma, EMP

Por vezes, as coisas que dizemos são tão sufocantes como um edifício alto que nos tapa o sol e nos condena à sombra dia após dia. E, por vezes, nem dizemos mais do que um suspiro de momento desencantado e triste e, no desencantamento do momento, um suspiro é suficiente para elevar paredes cada vez mais altas, duras e surdas. Outras vezes, dizemos o que nos vai na alma desencantada e triste, mas não vencida e com amor na voz, e não nos ouvem ou, se ouvem, não querem ouvir. Por vezes, dizem-se coisas como um grito, à espera que reparem em nós do lado de fora da muralha. Chamamos a atenção com o que temos à mão, à bruta como as crianças que partem coisas para não serem ignoradas. Outras vezes, põem-nos tão injustamente de castigo, que não apetece dizer mais nada a não ser coisas que vão cair sobre nós como estilhaços que perpetuam, infinitamente, o castigo. Como as crianças negligenciadas que estão sempre a ser castigadas... acabamos sempre a apostar numa asneira maior.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Deserta

Anabark, Burning fire, [telemóvel, FEV2011]

São cruéis as horas que passam desertas de ti. Os dias sem o aconchego de um hipotético beijo teu são áridos, frios, ocos, porque passam lentos no relógio da saudade e no silêncio em que te escuto. Se ao menos conseguisse dormir para me distrair da falta que me fazes… O amor que em mim acontece sem intervalos é feito desta saudade infinita. E as palavras são tão pequenas para te dizer tudo isto…