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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Um lobo chamado António Sérgio


Foi ontem, dia de Todos-os-Santos, durante a hora do lobo que partiu. Ou talvez não. Ninguém parte realmente quando deixa para trás história viva em cada um de nós crescidos ao som de uma voz, de um gosto, de uma estética, de uma maneira de estar sem fronteiras. Apostas, transgressões para a frente, sempre adiante e mais além. Sede de descobrir, de arriscar, de musicar o mundo de forma alternativa, porque o mundo tem ser alternativo para que seja inteiro e completo. Porque o direito à diferença foi o que aprendi na voz, no som, na escolha de António Sérgio, assim cresci embalada pelo uivo da resistência e assim me reconheço parte da matilha do lobo 'Gitano', obrigado António Sérgio - o teu espírito vive para sempre... para além do éter para além do tempo.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Ao céu subiu uma estrela

Jardim de estrelas (Shiba Sakura - Japão)

Antes de ontem o teu mundo ficou mais pequeno, e o meu também. Antes de ontem o mundo inteiro perdeu um sorriso do tamanho do mundo e ficou menos do que era antes de antes de ontem. Ontem acordámos mais pobres, mais despidas, mais transparentes e mais rentes ao chão do que somos sob a contemplação das estrelas que, na terra, adormecem para acordar no céu. Ontem démo-nos conta que somos muito pouco no infinito mistério da vida, mas também aprendemos que o muito pouco que somos, às vezes, faz a diferença na vida do muito pouco dos outros. Ontem choviam tempestades desde a alma ao céu. Hoje o sol brilha como se nada tivesse mudado a não ser a nossa consciência de que o que importa verdadeiramente é amar todos os dias como se fosse o último, viver nesta urgência, percebendo, a cada instante, quem faz a diferença no que somos e no que queremos ser para ser felizes. Hoje à noite, quando olharmos as estrelas, uma delas reconheceremos pelo sorriso que, em nós, nunca se acaba.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Fado

Agnes T. Ackerl, Depressed

Sem mais nem menos, somos confrontados com a fragilidade da vida. Neste dias, irreversíveis, que começam mal e não chegam ao fim, porque o que era não voltará a ser, percebemos que somos muito pequenos e insignificantes. Aprendemos pouco ou quase nada. Amanhã, quando acordarmos, somos feitos da mesma matéria e teremos sorte se acordarmos. Haverá quem não acorde para o dia seguinte e uma tristeza intrínseca nos que são tocados pela ausência. Deveríamos aprender algo, uma lição de vida. Passear os olhos tristes é muito pouco perante a urgência da mensagem: temos pouco tempo, seria um desperdício viver a adiar as coisas importantes da vida. Há que aprender a valorizar, a hierarquizar e a viver à escala humana.