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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Cada um que passa...

Ion Zupcu, 2005

"...Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui outra. Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha, mas não vai só nem nos deixa sós. Leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesma. Há os que levam muito, mas há os que não levam nada. Essa é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova de que duas almas não se encontram ao acaso."

Antoine de Saint-Exupéry in "O Princípezinho"

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ponto de situação

Anabark, Ideias Fixas (AGO 2013)

Gostava mesmo muito de estar enganada como tu achas sempre que estou. Gostava de não ter razão nenhuma e de ser surpreendida por melhor razão!...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

"Que nada nos limite..."

Iwona Drozda-Sibeijn

"Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre. Porque alguém disse, e eu concordo, que o tempo cura, que a mágoa passa, que a decepção não mata, e que a vida sempre, sempre continua." 
 Simone de Beauvoir

terça-feira, 20 de agosto de 2013

"Apaga-me os olhos..."

Bence Bakonyi

"Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te. Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te, e sem pés posso ainda ir para ti, e sem boca posso ainda invocar-te. Quebra-me os ossos, e posso apertar-te com o coração como com a mão, tapa-me o coração, e o cérebro baterá, e se me deitares fogo ao cérebro, hei-de continuar a trazer-te no sangue."
Rainer Marie Rilke

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Indisponibilidade

J.M. Barclay

"...Agora vê que há momentos em que é impossível o amor. É impossível abrir o coração quando nem se sabe onde ele anda. É impossível pensar em dar, ou mesmo em receber, quando há apenas cansaço. Quando a palavra esforço entra na equação. (...) Agora ela olha para trás e acha que, quando duas pessoas se apaixonam e começam uma relação com uma disponibilidade completamente diferente para o amor, uma das duas vai herdar um cansaço que não é o seu. Sabe agora que o amor pode muita coisa mas não pode tudo. Pode adiar o cepticismo, pode contornar a sensação de fracasso, pode entusiasmar-se durante uns tempos, mas se começar cansado, vai acabar cansado.(...) Porque, agora, sabe que sim, o amor também é uma questão de disponibilidade. Que nem sempre se tem."

Patrícia Motta Veiga

terça-feira, 30 de julho de 2013

Acreditar


Gabriel Benaim

"A intensidade com que se é esmagado não importa. De facto o que importa é a intensidade que nos resta depois de sermos esmagados."

 Gonçalo M. Tavares

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Fronteira

Anabark, No Ar (AGO2012)

Menos seria nada e o Nada já vem sendo, tomou forma e reproduz-se como as horas que passam na sucessão infinita dos dias. O relógio não parou, o tempo desencontrou-se mas não parou. Uma linha, que divide e não se vê, foi traçada e, de um lado e do outro nada acontece da mesma maneira. De um lado é passado e tudo se apaga, sentimentos, memórias, bem querer. Do outro, o sonho e um querer infinito que não morre. O Amor que, outrora, era tambor a marcar o ritmo da vida abrigou-se do lado que sonha e acredita o infinito. E tem vergonha de ser orfão, já não fala nem se deixa ver, vive no silêncio escondido. O relógio não parou, mas o Tempo não existe, só o princípio e o fim. E entre um extremo e o outro aconteceu o Tudo, mas dele só sobram palavras. Menos seria nada... como se nada tivesse acontecido.

terça-feira, 10 de julho de 2012

A duração da eternidade

Anabark, Castelos (JUL.2012)

Tudo é eterno enquanto dura, diz o poema... as pessoas, as nuvens, os sentimentos... Mas não encontro grande sentido numa tão óbvia condenação ao esquecimento. Acredito que é pelo que nos fica depois do fim que se mede a eternidade do que foi enquanto durou. Às vezes castelos, outras vezes areia. O que é eterno é a mão cheia que nos fica do que o tempo nos roubou. Porque não existe outra eternidade que não aquela que soubermos guardar e amar sem idade. E o que se ama é, em nós, incondicionalmente infinito.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Talvez

Anabark, Candeeiros (JUN2012)

Talvez tudo fosse pouco mais do que nada. Talvez eu julgasse apenas que sim porque sim, porque queria muito que fosse. Talvez a verdade fosse apenas essa, a de não haver mais do que uma forte vontade de ser o universo inteiro, perfeito e acabado, como se houvessem universos perfeitos, imaculados... Talvez fosse esse desejo maior que a realidade que começava e acabava sem nunca ter crescido. Talvez tudo fosse apenas a ideia de um infinito só em mim definido. Talvez fosse um querer tão grande não inteiramente compreendido. Talvez fosse amar demais se o Amor se medisse. Talvez fosse eu. Talvez fosse a falta de quem eu quis que durasse a vida inteira comigo. Talvez fosse a noite desencontrada e os dias de desperdício. Talvez.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Vontade muda

Anabark, Filme Antigo (NOV2012)

Como num filme antigo, não digo nada e penso em muitas coisas ao mesmo tempo que me chegam a doer as palavras que não digo. Estou calada, dizer não digo nada porque dizer já não faz sentido. Fico-me pela suavidade do silêncio que abrigo nas palavras que não digo. Porque a voz humana não chega, não se ouve num filme antigo. São mudas as palavras que não se entendem, surdos os ouvidos de quem segura a sombra como um xaile negro de aconchego. Essa metade de sentir e de ver deixa esquecer. Não digo nada, nem mesmo a verdade, que é inteira e nunca deixou de o ser, faz sentido na paisagem vã de quem já foi feliz em tudo entender numa palavra apenas, aquela que, hoje, me faz infeliz.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Unilateral

Pekka Leppanen, Sea of Ice II, 2011

Noutro espaço e noutro tempo, vou aprendendo coisas que me faltam. E vou crescendo, já não estou no mesmo lugar, nem na vida nem em pensamento. Reescrevo todos os dias a vontade de apreender sem decalcar a opinião dos outros, porque a opinião dos outros não me ensina, quer apenas duplicar-se. E todos os dias olho para dentro e encontro o Amor que ali guardei e cuidei com a incondicionalidade que aprendi. Um dia vou arrepender-me de coisas que não fiz. Do que sinto não me arrependo e não escondo. Se mal me queres por isso, não sei, imagino que sim e assumo o risco. Do tempo em que éramos 'nós' sobra-me esta honestidade e sei que é um desperdício, que me preferes calada. Mas ainda sou quem conheceste, a mesma em tamanho e intensidade.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Antes de logo

 
Steve Gosling, Wet and dry

Dentro do peito mora uma paisagem a perder de vista. E toda a luz que a ilumina não vem do sol nem da lua. A luz que me habita é o que sei que sinto sem contradição. Este dia que nunca anoitece em mim junta peças separadas e revela-lhes o sentido que sempre tiveram desde o princípio do Amor e que nas horas negras esqueci. Mantenho o calor que me deu vida e a claridade encontro-a no sarar da ferida. Um dia, por certo, tudo isto e o que sinto como meu Amor e minha vida deixará de ter importância pelo que o tempo ausente deita a perder no longe da vista entre nós. Um dia, por certo, a distância tornar-se-á tão irrelevante quanto irreversível, ou porque deixamos de ser o que nos conhecemos e amámos ou porque, tão longe estando, 'morremos' uma na outra nesse intervalo. Dizem-me que te vou esquecer... Mas hoje, a ausência não me vence, caminho o mesmo o Amor na mesma paisagem que, durante anos, inventei como luz sem fim.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Permanecer

Roger Richards, House on the hill

Não encontro outra forma de estar senão aquela em que não me invento outra pessoa, por muito incómodo que me seja ser como sou. Não me exijo ser diferente, não confundo o fácil com o certo. Não engano nem os outros nem a mim. Sofro a liberdade que me reclamo por minha conta e risco. Não sei outro caminho. Sou aquilo em que acredito por inteiro. Não sou muito nem pouco, sou uma verdade que não desminto acima de tudo. No amor em que me dei descobri o que quer dizer eternidade. A tua ausência é um fim, mas o Amor que mora em mim vive para além da saudade.

sábado, 2 de junho de 2012

Da minha janela

Wouter Brandsma, Untitled

No tempo que vai passando e o mundo vai ficando mais pequeno, mais previsível, plano e pálido de cor. Espreito noutros pontos de vista uma paisagem diferente, mas nenhuma diferença me convence nem chega a ser tão paisagem assim. E tudo o que me dizem passa e não fica em mim. Que sabem os outros do mundo que me habita? Quem lhes disse que sabem mais do eu? O que sou por dentro, aprendi-o á minha custa, ganhei e perdi graças a mim. E, acima de tudo, o Amor é meu, grande e infinito como sempre quis. Não fiquei para sempre no Amor da minha vida, eu sei, apenas o tempo que memória lhe permitir. Mas o Amor que, em mim, a dor não mata, prometeu-se para sempre e por inteiro e, alheio ao  mundo, não se contradiz.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Para além do espelho

Anabark, Meio Espelho (MAI2010)

Tudo o que o espelho deixou de ver, desapareceu para sempre, como estilhaços de vidro quebrado sem qulaquer utilidade ou lágrimas que ninguém vê nem enxuga. No espelho só as paredes ficaram e as manchas de sujidade que o tempo lhes vai acrescentando. As recordações envelhecem mais depressa que os sentimentos e a memória exacta das coisas, na sua dimensão plena, perde-se na distância que nos vai sobrando entre pormenores. Deitei fora coisas inúteis, ressentimento sobretudo. Tenho falta de espaço, quero guardar o beijo e o abraço que vivi, por inteiro, acima de tudo. O resto, porque me é inútil e me queima um buraco no peito, perdoo e arrumo num lugar longínquo. Não esqueço porque esquecer é não aprender e a vida é um movimento constante de querer saber o que nos falta. E falta-nos quase sempre tudo, incluindo a disponibilidade para entender o mundo para além do nosso umbigo.

sábado, 5 de maio de 2012

Pó

Anabark (original de U-Turn), Desvanecer (MAI2009)

Passei de fugida pelo quarto das recordações e roubei a cor das paredes e dos objectos que encontrei. Deixei tudo a preto e branco no mesmo sítio. Não desarrumei mais nem arrumei o que está desarrumado. Apaguei a luz e saí. Fecho a porta atrás de mim. Levo a cor comigo e os dias e as noites infinitas. A luz pertence-me, não se apagou em mim. O resto é escuridão que não é minha, que não sinto nem entendo. Onde o sol não se deixa entrar não existe cor e durará para sempre a falta de calor. Não entendo quem escolhe a rigidez do preto e branco. A minha exigência é outra, é ter na alma o infinito, sabendo que a verdade é uma zona cinzenta que cada um vive na sua própria versão.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Da cama para a rua

Anabark.Once upon a time (MAI07)

Na casa da improvidência morou, por algum tempo, o Amor, alimentado pela condescendência e pela promessa de compromisso. O Amor, que deixou para trás tudo o que era seu por não poder trazer nada consigo, veio de vontade e com a vontade de ficar para sempre, e ali foi muito feliz enquanto, em tudo, foi condescendente. O mesmo Amor que, antes, tinha sido abandonado, subiu uma montanha para ali chegar e encontrou outra montanha quando lá chegou. Mas valia a pena, havia Amor e braços amplos e quentes que, apesar do medo, esperavam por si. Pouco tempo passou, e o Amor ali vivia a esticar braços complacentes até ficarem doridos de tanto os esticar. Um dia, o Amor baixou os braços para ver o que acontecia, á espera de ser reparado, confiante que os braços que tanto amava lhe chegariam quentes e fortes para não o deixar cair. E andou pela casa inteira, dias e meses a fio, e os braços que amava não se abriram nem aqueceram mas teimavam que sim, que amparavam e que eram mais seguros do que os braços do Amor. E o Amor não entendia, porque tinha frio e nenhum calor lhe vinha. E o Amor chorou baixinho, escondido e ás escuras, para que ninguém tivesse pena. E nunca deixou de acreditar. E os braços que amava, cada vez mais frios e envergonhados, foram empurrando para fora. E o Amor não entendia, porque amava muito, tudo, e chegava-lhe pouco, quase nada. Não deixou de amar, gritou para chamar a atenção, queria apenas que reparassem. Desacreditado adoeceu de tristeza e, no desespero, fechou-se na memória do que, ainda tão há pouco tempo, tinha sido. Ninguém veio por ele, por lá ficou esquecido. O Amor não entendeu quando o fim chegou sob ameaça. Um dia, sentado na sua parte da cama, sempre á espera de um abraço, um dedo esticado apontou-lhe a porta e, sem hesitar,  mandou-o sair.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

'Açores', uma casinha

U-Turn, Untitled (MAI2009)

Um laço desfeito, um nó no peito, o amor perdido. Uma saudade infinita, uma voz contida, a felicidade esquecida. Um coração partido, um amanhã sem sentido, o passado infinito. Uma casa sem paredes num ilha sem oceano, um segredo, um esconderijo. Uma cama pequena, um amor sem tamanho, dois corpos num. Primeiros dias de Maio, um 'nós' na alma, um sempre em mim. O eterno regresso ao lugar, ao Amor que, sendo infinito, me deixou nessa morada onde vivo para sempre. Nas mãos, a mesma flor sem tempo que ali colhi e ofereci para toda a vida. Não perdi por não saber o que encontrei. Não perdi por deixar de amar. Perdi porque o amor da minha vida se perdeu de mim e não voltou a querer encontrar-me.

sábado, 28 de abril de 2012

Tudo vale, no amor e na guerra

Algis Kemezys, Beauty and the pricks, 2012

Eu, que vivi o mais efémero de todos os amores infinitos que conheço, acredito na ideia de um sempre, de alguém único e na incondicionalidade do sentimento. Eu, que vivi o mais breve de todos os amores eternos que testemunho á minha volta, acredito, apesar de tudo, no Amor como sangue, suor e dor no corpo como na alma, essência de vida. Na guerra não sei mas no Amor vale tudo e nesse 'vale tudo' cresce resistente o Amor. Na versão dos outros o Amor neles sobrevive contra tudo, na minha, que jurei para sempre, em todas as batalhas fui vencida. Todos os grandes amores que conheço continuam eternos menos o meu. Mas, quando olho para esses jardins que aguentam ventos e tempestades e permanecem floridos, indiferentes á violência das estações do ano, invade-me uma fé que não renego e assumo que vale tudo em defesa do Amor. Teimo em acreditar numa versão maior do que aquela que vivi, que julguei perfeita e infinita e se desfez tão rapidamente como uma nuvem passageira ao sabor do vento.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Autocorrecção

Geert Goiris, Resonance #19 - Black Box, 2000

A tristeza tem certamente um fim, como um café que arrefece ou o fumo que desaparece. O tempo passa, as pessoas mudam. Do que não se guardou com amor nada fica. O que não nos fica é porque nunca chegou a ser completamente. A vida não se apaga, mas esquecem-se horas, e ás vezes dias que são anos, no coração que não quer ver nem sente. E a tristeza chegará a um fim, arrumada numa caixa selada, como tudo o que não é eterno nem infinito. O tempo passa e as pessoas mudam, mudam-se e desaparecem também. Longe da vista nada existe, seguramos apenas a ideia de que tudo continua no mesmo sítio em que foi visto pela última vez, mas pode não ser. Quem não vê não sente e, assim, a tristeza, como a felicidade, chegará ao fim. Um café que arrefece e fumo que desaparece no tempo que nos passa são tristeza acabada e luto cumprido. Não se deve chorar para sempre quem não nos ama eternamente.