Senhora Saudades aka F. - Trapped (Amesterdão, OUT06)
Lembras-te quando me escreveste que 'a liberdade é a única forma de amar'? Talvez hoje percebas melhor o que disseste, se calhar, sem te dares inteiramente conta do que isso significa. Porque é a única verdade que sei acerca do Amor, embora reconheça que essa liberdade essencial seja um esforço difícil quando amamos perdidamente - porque somos animais territoriais e assumimos o sentimento com absoluto egoísmo, porque queremos guardar para nós o tesouro que só a nós pertence. Mas a verdade é que quando amamos alguém devemos, acima de tudo, fazer com que esse alguém se sinta totalmente livre e que a escolha de ficar seja realmente uma escolha, porque aprisionar não é um acto de amor mas de dominação sobre o outro.
E a propósito das tuas suposições a meu respeito quando ainda mal me conhecias, expliquei-te que 'gostar' não é 'amar' e que há uma certa crueldade em receber amor e não dar igual. Não digo a palavra 'amo-te' facilmente, nunca sem o sentir, porque sei o quanto vale o verbo 'amar'. Não minto, omito. Seria uma má pessoa se mentisse e não minto em relação aos meus sentimentos. Não faço promessas que não posso cumprir. Quando oiço a palavra 'amo-te' baixinho no meu ouvido, não respondo o que não sinto ainda que goste muito, mas 'gostar muito' não é amar. Não engano. E sim, sinto-me responsável pela pessoa que diz que me ama, mesmo quando não sinto igual, e respeito-a, mas tal como tu, não obrigo ninguém a ficar. Dizes tu que temos sentimentos nobres e um bom coração, mas sabemos muito bem que isso é pouco para dar a quem nos confessa amor. A responsabilidade de ficar ou partir é de quem se sente mal com a situação, não achas? A culpa reparte-se - é menor quando não mentimos em relação aos sentimentos, mas ninguém sai ileso.
Quanto à palavra que não digo, não a temo. Não é por medo que não digo - não a sinto e se não a sinto, não vou mentir. Sei distinguir as coisas, já amei, muito poucas vezes, mas amei tão completamente que hoje já cresci o suficiente para não confundir 'amar' com 'gostar muito'. Quando te conheci vivia segura e intocável, com mil cuidados para ninguém me surpreender, para não me magoar. Esperava como um caçador espera a presa e era o mundo que vinha ter comigo e eu avisava quem chegava 'Por favor, não te apaixones por mim'. E tu disseste-me, 'Haverá um dia em que o caçador se torna a presa!' É verdade. 'É o risco e o desafio da caça - há animais que não conseguimos vencer, estejamos ou não preparados. Só posso desejar - tal como tu desejas - que seja um desafio justo - um dar e receber sem condições e em partes iguais.' – respondi eu.
E vieste tu. O que aconteceu entre nós foi tudo em partes iguais. E a meio de tudo, a luta pela sobrevivência.