quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Com palavras

Alfisti, Kisses

E depois de ter dito que me faltam palavras para continuar, recebi milhares de palavras na volta do correio. Palavras daqueles que sentem as minhas com a intensidade com que eu as assumo linha a linha. E, por entre esses milhares de palavras que me dirigiram, perguntavam-me "Como é sentires o quanto tocas as pessoas? Tens consciência do que fazes?" Eu não tinha realmente nem sabia o quanto toco quem me lê. Agora que penso nisso, reformulo o que ontem aqui deixei ficar - as palavras que escrevi para a pessoa-que-prefere-o-silêncio deixam de o ser. As minhas palavras são para aquelas outras pessoas que, sem me conhecerem, conseguem ver-me e sentir-me deste lado e gostar de mim o suficiente para me segurarem e correrem a dizer:
'...Não apagues nem uma só linha. Não destruas a poesia que és tu...';
'...Obrigado por seres o que és e por teres esse poder raro de tocares profundamente os outros...';
'...A tua verdade não tem preço, fazes-me acreditar...';
'...O que escreves é demasiado belo e único para se perder...';
'...O registo do teu blog é maravilhoso porque és tu...';
'...Aceita as minhas palavras como alguém que sente as tuas de uma forma diferente das demais. Tudo o que escreves faz eco em mim...';
'...Estou aqui. Para o que der e vier, as long as you want...';
'...Não apagues as palavras. Elas nunca foram escritas em vão, têm um imenso valor. Que seria de nós se as palavras ao longo dos tempos fossem apagadas, que poesia restaria hoje?...'
'...Não apagues nada, continua a escrever...'
Não mereço, mas tenho de agradecer - desse lado há muitas pessoas, são muitas dezenas atentas todos os dias à transparência de um copo vazio: a todos quantos me encontram ao longo das diferentes horas do dia e da noite agradeço a importância com que sentem as minhas palavras. São desconhecidos, ou talvez não. Se sentem a intensidade do que escrevo e se comovem com alguém que nunca viram, estão mais perto do que muita gente que conheço bem. Aos poucos que já conheço, quero conhecer melhor ainda pelo que me sabem receber e dar dobrado. Aos amigos que me conhecem bem não agradeço, esses sabem o quanto valem para mim.

Sem palavras

Steve Price, untitled, 2006


Quantas páginas tem um livro que se vai escrevendo a ele próprio na escuridão? E quanto tempo demoram a ler essas páginas na mesma escuridão? São perguntas inúteis, bem sei. Já escrevi muito, talvez demais sobre o que tenho para dizer hoje, ontem e amanhã – sempre. Vai faltando a luz que me orienta num caminho de palavras com sentido definido. As palavras pouco valem se não encontram quem as sinta com a mesma intensidade de quem as assume numa ordem precisa de verdade absoluta. Tornam-se estéreis, abandonadas em si mesmas, restos de alguém, de alguma coisa, de um tempo, de um sonho, de um amor imenso, embrulhado numa incondicionalidade rejeitada dia após dia ao longo de muitos dias que parecem uma vida inteira. Conheço poucas palavras e começam a faltar novas formas de dizer o mesmo porque não quero dizer outra coisa. Vou perdendo frases inteiras e ideias substantivas neste nevoeiro de sentidos e contradições. Sinto o que escrevo, mas também sinto a escuridão de quem não quer saber do que sinto para coisa nenhuma. Sinto que, para quem escrevo, nada do que digo tem importância, que são apenas palavras alinhadas numa ordem qualquer que não vale sequer o esforço de uma palavra pequena como resposta, fosse ela qual fosse, para além de 'Não'. Dói-me a vista, falta-me luz e tenho frio. Quantas páginas caberão ainda neste copo vazio? Que faço com esta vontade de apagar todas as palavras que escrevi? Escrevi-as a pensar em ti - pouco importam… não estás aqui.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Sombra

Michel Corboz, Haut les Mains

De mãos enormes erguidas no ar, a sombra caminha rente ao chão. A sombra não dá nem sabe segurar porque a inconsistência da matéria que a define torna inviável uma vontade própria e a libertação do corpo em que permanece condenada. A sombra é um esboço de vida, uma projecção de um corpo contra luz, a impalpabilidade do ser que existe e que passa ao lado. A sombra é retrato de gente mas nunca será mais do que isso e por isso se distorce e se prolonga pelo chão. E nesse vazio de ser e na inconsistência de querer eu te encontro e te quero resgatar. Dei um passo e a distância não diminuiu. A ponte que seguro entre os dedos de nada me serve, tenho de ficar aqui na sombra da promessa que te fiz de não atravessar. Suspensa nesta ponte de silêncio que me estendes e que esperas de mim. Que fazes tu por amor?...

domingo, 28 de janeiro de 2007

Em Exibição

Anabark, Poster de Cinema (JAN07)

Não faz mal. Pelo bem que te quero, não faz mal. Fico-me pelo que os meus olhos te alcançam nos breves instantes em que passeiam pelos teus. Já que não posso tocar-te a pele que já foi a 'pele da minha pele' também, nem abreviar-te o medo de me quereres como eu te quero, seguro-te no olhar e guardo o que me é permitido neste longe que fica entre nós. O meu querer é-te indiferente. A dor é minha e a falta que me fazes também. Não faz mal, porque te quero bem.

sábado, 27 de janeiro de 2007

Sem dúvida

Linda Alstead, 2nd March - Deeply Drippy, 2006

Todas as respostas pressupõem a anterioridade de uma pergunta e alguém a quem perguntar. E há perguntas que se fazem às quais só queremos ouvir uma resposta e uma única voz a responder. Perguntei-te. Queria muito saber e queria muito que tu soubesses a minha resposta à mesma pergunta. É importante para mim, porque acredito realmente, porque é a única coisa da qual nunca duvido, mesmo quando duvido de tudo. Repouso agora na certeza com que me respondeste. Acreditas em Deus? 'Claro que sim'. Nem todas as perguntas têm resposta, mas também nem todas as perguntas têm a mesma importância.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

O toque do divino

Zenmatt, Le Doigt de Dieu, 2006
Acreditas em Deus?
Gostava que acreditasses realmente.

Self Pitty

Peter Elköf, untitled, 2006

Self-Pity
by
D.H. Lawrence

I never saw a wild thing sorry for itself.
A small bird will drop frozen dead from a bough
without ever having felt sorry for itself

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Incondicionalmente amanhã

Bruce Berrien, Revealed, 2004


Pela janela mal fechada vejo o que não consegues disfarçar. A propósito de incondicionalidade, acreditas em mim? Invento respostas ao que me escreves e que deixas para enviar amanhã, enquanto acendo mais um cigarro como naquela canção que diz 'amanhã é sempre longe demais'. E nos anéis de fumo baço, escondo palavras que não posso escrever sabendo que não queres ouvi-las - espero pelo teu amanhã que será sempre amanhã sem luz do dia. E vai-se o tempo desfiando numa esperança fugidia. Não sei o que não me dizes, mas sei o que sinto que tu sentes e tu sabes como estou. Estou bem... como tu. Quando dizes que só fazes o que queres, quererás ouvir-me e estar comigo? Não tem de ser nada que não queiras, só e apenas o que desejas. Colecciono sinais de fumo no sussurro que me diz que sim. Sem condições - confias em mim?...

Ter e Não Ter

Humphrey Bogart e Lauren Bacall, To have and Have Not (EUA, 1944)

Imagino a sedução a preto e branco, como uma cena perfeita num fime antigo, assim, como Howard Hawks filmou em «To Have And Have Not» (Ter e Não Ter), a partir do que Hemingway escreveu. Imortais Humphrey Bogart (Steve) e Lauren Bacall (Slim), na melhor cena de sedução de sempre. As palavras ficam aqui, o resto puxem pela imaginação ou vejam (e revejam) o filme que vale sempre a pena:

Slim sits on Steve's lap. Before kissing the seated man for the first time, she acts the aggressor role as they engage in flirtatious sexual repartee:

Slim: You know, Steve, you're not very hard to figure. Only at times. Sometimes I know exactly what you're going to say - most of the time. The other times (She sits in his lap), the other times you're just a stinker. (She plants a kiss on his lips.)
Steve: What'd you do that for?
Slim: Been wondering whether I'd like it.
Steve: What's the decision?
Slim: I don't know yet.
Her verdict of his kissing talent requires a second kiss. Then, after kissing him again, he appears baffled. She suggests to her passive partner as she stands:

- It's even better when you help.

When this remark doesn't work and produce a satisfactory reaction, she propositions him midway from leaving his room with other famous lines, delivered with a purring, warm voice:

Slim: (She holds up the bills again.) Uh, sure you won't change your mind about this?
Steve: (affirmatively) Uh-huh.
Slim: This belongs to me and so do my lips. I don't see any difference.
Steve: Well, I do.
Slim: Okay. You know you don't have to act with me, Steve. You don't have to say anything and you don't have to do anything. Not a thing. Oh, maybe just whistle. (She opens his door and pauses.) You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and blow.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Volta - Não Volta

Zenmatt, Dirty Van, 2006
Se eu conseguisse dar-te a volta como tu dizes que sim, não estarias tu aí e eu aqui. Se eu conseguisse dar-te a volta que quero dar, quem sabe o que ganharias em vez do que pensas perder se isso acontecesse. Assim, vou dando outras voltas até chegar-me a mim e, entre as voltas que dou e as que dá o mundo, reparo em quem me dá balanço para dar a volta por outro lado. E, assim, um dia não voltarei a dar a volta por ti. Sei que precisas de mim, embora eu não seja completamente o que precisas. A paz de espírito que não tens não virá nunca nos conselhos fáceis dos que procuras como voz 'amiga'. São conselhos asseados, muito correctos, que outra coisa esperas que te digam? Se fossem verdadeiramente amigos olhavam bem para ti e ouviam seriamente o que ainda não sabes dizer em voz perceptível. E, então, aconselhar-te-iam algo realmente útil, em vez de se apressarem na resposta mais fácil e oca que a desatenção lhes dita, porque até vozes desconhecidas dizem bem mais do que isso. Precisas de mim, porque só eu conheço verdadeiramente o outro lado de ti e tu sabes que sim. Se eu não existir onde tu me sabes, morre mais um bocadinho do que te resta de ti, até te perderes num insuportável vazio... se eu conseguisse, realmente, dar-te a volta, percebias ao menos isso que te quis dizer. Leva-me a dar uma volta que o inverno chega mais depressa do que tu imaginas.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Metáfora


Anabark, Do lado De Fora (OUT06)

Através do vidro, do lado de fora, uma espera de teia estendida. Silenciosamente atenta. Não há vida daquele lado, mas não desiste. Não lhe ouço o movimento, mas vejo que ele existe. Sinto-lhe ansiedade na guarda à vítima que observa. Admiro-lhe a paciência faminta da vida que todos os dias encurta sem nada lhe sobrar, a não ser o que lhe fica da espreita metódica e silenciosa ao que está por detrás do vidro. O que ela não sabe é que na teia é sempre Outono e por fim, fatalmente, o Inverno. E, alguém escreveu, há só um caminho para a vida, que é a vida...

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

De que são feitos os teus dias?

Zenmatt, Chain, Chain, Chain, 2006

De que matéria é feita a corrente que nos prende a alguém contra todas as probabilidades de segurar o que foi desfeito? Há elos invisíveis que o tempo não corrói e que a distância não consegue abrir. A minha verdade é diferente da tua. A tua verdade não me inclui para coisa nenhuma, a tua verdade desconsidera-me e segura-te no teu caminho. Compreendo a tua escolha, mas isso é tão pouco quando me pergunto 'afinal o que compreendeste de mim?' A minha verdade alguma vez te fez perder as horas da noite a pensar que tenho alguma razão ainda que não concordes comigo? Compreendes o que sinto? Não podes - adivinho-te resposta. Não podes porque eu não existo no teu aqui e agora, sou um resto de ontem e ontem já não existe também e não se perde tempo a compreender o que é passado e já não tem importância, o que está arrumado numa qualquer prateleira invisível do armário que guardas interiormente, fechado a cadeado. A minha verdade é feita da matéria das correntes que me prendem ainda a ti. Incomoda-te o que eu sinto, eu sei, mas sinto. Não tenho nada a ganhar ou a perder. Seja como fôr, não te vou atrapalhar com o meu querer, importa-me apenas que, mesmo longe, sejas feliz. Conseguiste cumprir o que a tua razão impera? 'O teu coração e o teu corpo já desistiram de mim' como querias? Gostava tanto de saber como preenches, por dentro, os teus dias...

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

'U' turn

Alfisti, Nearness
Porque há histórias de coragem. Porque há pessoas que num determinado momento da vida dão a volta ao contrário e decidem outras coisas que não o socialmente aceitável, contrariando as expectativas de toda a gente. Porque há quem descubra um outro mundo de repente e, de forma inesperada, sinta que tem de mudar de vida por si e não pelos outros. Porque há quem não desista contra todos os riscos e pressões. Porque há quem, perdendo o que deixou para trás, ganhe uma nova vida no que encontrou entretanto. Porque há quem perceba que há outras saídas que não apenas o modelo em que fomos formatados. Porque há quem, tendo uma família e vida construída, tenha decidido pelo amor e não se tenha arrependido. Porque a verdade é o melhor caminho que podemos ensinar aos filhos. Porque temos obrigação de ensinar mais do que nos foi ensinado. Porque o amor protege e segura... Porque o mundo pula e avança / como bola colorida nas mãos de uma criança, como diz a canção que fala do sonho... hoje escolhi um testemunho de coragem e maturidade - obrigado Blue, por me deixares publicar este pedacinho de ti que partilhaste comigo em privado:
"O facto de uma pessoa ser mãe (o que poderás pensar que condiciona as decisões) não é um impedimento sério caso uma pessoa leve uma determinada relação a sério. Podes fazer sacrifícios em nome dos filhos, todas as mães os fazem, mas virar as costas a alguém que tanto se ama... os filhos não servem como justificação para isso! Nem eles algum dia reconhecerão tudo o que fizeste por eles! É nossa obrigação fazermos o melhor que podemos e sabemos, mas isso não inclui abrirmos mão da nossa felicidade ou, pelo menos, de tentar alcancá-la da maneira que melhor entendermos. Os filhos justificam decisões quando as pessoas não querem mudar as coisas... mas, nesse caso, não é por eles que não mudas, é mesmo por ti! Sabes... acho que talvez seja isso... talvez haja quem não tenha maturidade suficiente para assumir e enfrentar as suas opções, independentemente de ser mãe ou não. Claro que não sendo mãe é mais fácil, não tens de pensar nos danos colaterais e nos impactos na vida deles... mas, sendo mãe também podes escolher o teu caminho, desde que esse caminho seja verdadeiro e honesto e que, obviamente, não prejudique a relação que tens com os teus filhos. (...) ser mãe faz parte de mim, parte do que eu sou e a pessoa com quem me relacionar tem de aceitar o facto de que parte do meu tempo é dedicado às minhas filhas, pelo menos enquanto elas forem pequenas.
(...) As pessoas são para nós aquilo que mostram ser, os seus actos, mais do que as suas palavras, tornam-nas mais admiráveis (ou menos) aos nossos olhos. É no seu modo de vida que tu encontras a veracidade daquilo que elas são..."

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Perdidos

Bruce Berrien, Lost, 2004
Excerto de "Uma História de Sobrevivência", o episodio-resumo da série 3 de «LOST»:

"...Once upon a time, there was an island. Some said it was in the South Pacific. But you wouldn’t find it on any map. Many people have been drawn to the island throughout time… lost in their travels, lost in their lives.
Oceanic 815 was a flight like any other… a plane full of strangers, bound from Sydney to Los Angeles. Among them, the doctor who lost his father … and lost his way. The girl next door, turned fugitive; the con man out for revenge, who killed the wrong man. The couple, whose marriage was slipping, the soldier, the rock star, the lottery winner, the single mother-to-be and, of course, the man whose faith was lost, and whose body had failed him…
These were just a few of the many who were brought together high over the ocean, but something they could not understand at the time… something that caused their plane to split apart and fall from the sky… they could not imagine how they survived such a crash… but then again they could never have imagined the power of this island and the tests it would provide. Two groups of passengers survived. They would be separated for a time. And before they united, would experience with the island in very different ways..."

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Flashback... "Hi"


'Subject: Hi - 16.Janeiro.2006'

Foi no dia de hoje, no calendário do ano passado, que vieste à minha procura. Encontrei-te por palavras no mesmo dia. Tens boa memória, mas vais passear-te pelas horas de hoje sem te lembrares, sem um sinal de vida. Não tenho nada para comemorar, mas não me esqueci... sem tempo como prometi, com a distância que me exiges.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Tu e as estátuas

Inês, Poema, 2007
"[Estátuas]...Como se conseguíssemos condensar, desenhando com a nossa ponta dos dedos, alguém que nos foi especial." (Inês, JAN07)
Num divagar de noite em branco, acorda-me a ideia da vida que as estátuas escondem na sua existência estática e fria como a tua. Neste silêncio de noite sem horas imagino-lhes uma história, um gesto, uma troca de olhares a condizer com a expressão fixa com que me contemplam em pensamento. Invento-lhes um poema feito das palavras que me deixam sentir nessa ausência de vida em que, aparentemente, as conheço. E lembro-me de ti e do que deixaste em mim. As estátuas são momentos de sentir desenhados na pedra e no metal. Não lhes corre sangue na matéria, mas o sentir está lá, na expressão suspensa que nos enfrenta sem tempo nem cansaço. Tu tens um coração e sangue a animar-te o corpo, mas escapa-te a vida, o sentir e a hipótese de imortalidade, porque as memórias não são estáveis e o corpo é finito. As estátuas ficam na história de que são feitas. Tu existes longe, num espaço e tempo incerto onde te não sei nem te queres mostrar. Anima-te a frieza da pedra num poema em que as estátuas ganham uma vida que lhes inventei mais próxima de mim.

sábado, 13 de janeiro de 2007

Salada: The L Word (Series 4 - Epis 1)




Só mais este bocadinho de Marina antes da refeição chegar à mesa.

Aperitivo: The L Word (Series 4 - Epis 1)




Para quem está à espera do regresso de Marina Ferrer...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Número de telefone delas?

Para animar o dia porque nem só de tristeza vive a alma.
Que melhor inspiração posso deixar do que a proposta das duas mulheres mais belas do mundo juntas de numa só?
Angelina Jolie e Peta Wilson...
...Humm... de qual eu gosto mais?...
...Posso ficar com as duas?
Please...

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Lost in time like tears in the rain


Do filme «Blade Runner», real. Ridley Scott, 1982, EUA

[Deckard does some amazing climbing, then jumps to next building. Roy follows, holding a white dove.]


Roy: Quite an experience to live in fear, isn't it? That's what it is to be a slave.
[Deckard spits at Roy as he falls; Roy catches him with one hand.]
Roy: I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the darkness at Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time like tears in rain. Time to die.
[the white dove flies off from his hand...]

Deckard: I don't know why he saved my life. Maybe in those last moments he loved life more than he ever had before. Not just his life, anybody's life, my life. All he'd wanted were the same answers the rest of us want. Where did I come from? Where am I going? How long have I got? All I could do was sit there and watch him die.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

E Depois Do Adeus... vagamente

Jonas Svedberg, All those moments will be lost in time like tears in the rain, 2004

Enquanto me ocorre vagamente a letra de uma canção que nunca perdi de memória, vou pensando muitas coisas ao mesmo tempo sem me deter em nenhuma. Não são coisas importantes, não o suficiente para perder tempo, que me falta cada vez mais, a pensar com cuidado. Entre o que escrevo hoje recordo fragmentos da canção "... E depois do adeus / Quis saber quem sou o que faço aqui / Quem me abandonou, de quem me esqueci..." É uma canção antiga, dos meus tempos de criança. Hoje recordo-a como eterna no que diz... se ao menos me lembrasse correctamente das palavras... "Perguntei por mim quis saber de nós / Mas o mar não me traz tua voz...". Foi há muito tempo, mas consigo lembrar-me claramente da melodia e da voz que a cantava com a força de uma revolução quase a acontecer "...Em silêncio, amor, em tristeza e fim / Eu te sinto, em flor, eu te sofro em mim..." Nas palavras que vou lembrando revivo muita coisa do que sei, o que aprendi do que me ensinaram e que desaprendi entretanto "...Eu te lembro, assim partir é morrer / Como amar é ganhar e perder...". Já vivi muito tempo desde aí, mas há coisas que nos ficam para sempre, esta canção por exemplo que nunca esqueci e que hoje recordo aos poucos como parte de mim "...Em teu corpo, amor, eu adormeci / Morri nele e ao morrer renasci...". Às vezes uma canção salva-nos de perder tempo a pensar e a escrever coisas insignificantes. Tudo o que era importante já foi escrito há muito tempo por pessoas que sabem realmente escrever, o que não é bem o meu caso. Por isso hoje, deixo a memória vaga de uma canção antiga falar por mim "...E depois do amor e depois de nós / O dizer adeus o ficarmos sós...". Não vale a pena esforçar-me em escrever melhor do que isto. "...Teu lugar a mais tua ausência em mim / Tua paz que perdi / Minha dor que aprendi..." Tudo o que me ocorre esta noite está espalhado entre os versos que aqui recordo com nostalgia "...E depois do amor, e depois do nós / O adeus o ficarmos sós."
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PAULO DE CARVAHO «E Depois Do Adeus», 1974

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Amando quem não és

Zenmatt, Taking a Train, 2006

Apaixonei-me pela pessoa que me beijou num impulso e me fez fugir o chão, assim de repente, à vista de toda a gente, numa sala de restaurante, com coragem, determinação e a certeza de querer nos lábios e no coração. Apaixonei-me pela pessoa que mediu forças e lutou para me oferecer um anel cheio de significado que se fundiu no meu dedo sob a chama que lhe vi no olhar no momento em que o usei pela primeira vez. Apaixonei-me pela pessoa que me queimava a pele quando os corpos se tocavam, embrulhados num desejo insaciável noite e dia. Apaixonei-me pela pessoa que me desassossegava os dias inteiros, numa contagem decrescente para o próximo abraço. Apaixonei-me pela pessoa que acordava a meio da noite para me dar um beijo através da distância e me escrevia com a alma coisas que se perderam para sempre num acto irrecuperável. Apaixonei-me pela pessoa que quis descobrir o mundo numa perspectiva diferente, sem o medo a corromper-lhe a vontade de ser livre e de caminhar segura ao meu lado. Apaixonei-me pela pessoa grande, imensa e infinita que senti, por instantes, abraçar-me com a força de um amor por inteiro, sem reservas. Apaixonei-me por tudo o que vi em ti e pensei que eras. Acreditei em ti, apesar das dúvidas que te deixei saber antes de comerçarmos a ter importância. Dúvidas que, num abrir e fechar de olhos, se tornaram verdades. Hoje sei que essa pessoa não existe - alguém egoísta e cobarde existe em seu lugar, alguém incapaz de segurar o amor entre as mãos, um amor que nunca exigiu, que aceitou e deu sem condições, que jurou ser sem tempo e sem distância à pessoa que eras. Esse amor não morreu, mas a pessoa por quem me apaixonei já não existe e o que és não posso amar.

NIN - Only


NINE INCH NAILS
«Only»
I'm becoming less defined as days go by
fading away and well you might say I'm losing focus
kind of drifting to the abstract in terms of how i see myself
sometimes I think I can see right through myself
less concerned about fitting into the world
your world that is
'cause it doesn't really matter anymore
none of this sh...
and yes I am alone then again I always was
as far back as I can tell I think maybe it's because...
you were never really real to begin with
I just made you up to hurt myself
yeah, I just made you up to hurt myself
and it worked... yes it did
there is no you
there is only me
there is no fucking you
there is only me
only...
well the tiniest little dot caught my eye
and it turned to be a scab
and I had this funny feeling like I just knew it's something bad
I just couldn't leave it alone... picking at this scabit was a door
way trying to seal itself shut, but I climbed through
no I'm somewhere I am not supposed to be
and I can see things I know I really shouldn't see
and now I know why... n-now I know why
things aren't as pretty on the inside
there is no you
there is only me
there is no fucking you
there is only me
only...
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Ao vivo em Lisboa, Coliseu dos Recreios, 11-12 Fevereiro

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Quantas vezes...?

Bruce Berrien, There, 2005


Quantas vezes te procuras onde não estás?
Quantas vezes olhas para o relógio a pensar que as horas se repetem e é sempre o mesmo dia? Quantas vezes te perguntas se amanhã será diferente e um bocadinho mais do que hoje? Quantas vezes te olhas ao espelho à procura de algo mais de ti do que o que vês reflectido? Quantas vezes te perdes dentro da tua própria casa sem saber onde descansar? Quantas vezes te apetece ficar só com a tua solidão sem que te incomodem? Quantas vezes gostavas de escapar à noite por entre sonhos e lembrar-te de manhã de um sonho feliz? Quantas vezes, acompanhada por quem escolheste, te sentes mais vazia do que nunca? Quantas vezes te sentes cansada do que tens e instisfeita pelo que perdeste de ti? Quantas vezes deitas fora o que viveste comigo para teres paz de espírito? Quantas vezes desejas que eu e tu nunca tivéssemos acontecido? Quantas vezes te exiges esquecer-te de mim?
E será que alguma vez lamentas ter-me magoado como, antes, lamentavas ter magoado quem vive outra vez contigo?

domingo, 7 de janeiro de 2007

A culpa foi do vinho

Tim Haynes, Half wine glass - cabernet sauvignon, 2006

Não te escolhi. Ninguém escolhe. Se pudesse escolher, não terias sido. Aconteceu, porque o amor acontece, não se escolhe. Tu escolheste-me. Seleccionaste-me e foste à minha procura. Querias muito aquilo que procuraste e acabaste por ter. Uma fantasia realizada, um desejo saciado com alguma imprudência. Uma aventura para distrair dias insatisfeitos. Um erro que te apressaste a reparar, pondo tudo no mesmo sítio, ainda com a cama quente do meu corpo. Não precisaste nem de um dia de luto. Encheste o teu copo no mesmo dia em que envaziaste o meu. Assim se mede a força do querer que me juravas. Assim se mede a intensidade do teu amor, que é tão líquido quanto a culpa de um copo de vinho. Vejo-te através da transparência do cristal puro. Penso na fragilidade da areia transformada vidro e no movimento rápido com que deixaste cair o copo. Escolheste-me como quem escolhe um vinho diferente para experimentar ao serão. Escolheste não amar-me. Ninguém escolhe quem ama. Eu não escolhi, se pudesse ter-te-ia escolhido como um vinho também.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

A resposta certa àcerca do amor

Peter Elköf, 2006

Do filme «THE MEXICAN» (A Mexicana, Real: Gore Verbinski, 2001, EUA):

LEROY (James Gandolfini): I wanna ask you a question. It's a good one, so think about it. If two people love each other... but they just can't seem to get it together... when do you get to that point of enough is enough?
JERRY (Brad Pitt): Never.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Como vais?...

Peter Elköf, Vasteras 2, 2004

Quase um ano depois, desconheço-te. Já passou mais tempo sem nós do que aquele em que fomos uma. Hoje nada sei de ti, não sei como estás, o que sentes, o que pensas, o que te faz rir, o que te preocupa. Hoje já não sei o que te faz correr - o amor sei que não é, não o meu pelo menos, e a paixão é para ti uma doença, pelo menos assim te fiz sentir. Hoje já não sei como és nem como estás. E dirias tu, se me ouvisses falar, 'Não tens de saber nem de te preocupar, já não fazes parte da minha vida. Que interesse tem saberes de mim?' E eu ficaria calada a dar-te razão. Já não estou na tua vida, não tenho nada a ver com o que nela se passa nem com o que sentes ou como estás. Mas tu existes, não posso fingir que não. E mesmo que não queiras, penso-te, preocupo-me e interrogo-me. Sei que não devia, que não queres isso de mim. Sei que não te preocupas nem queres saber como estou. Mas isso não me interessa. Já que não somos almas gémeas, como tu não deixaste de dizer no pouco que disseste quando te foste embora, posso ser e sentir de forma diferente à tua, aqui baixinho, de mim para mim, sem fazer barulho. Fica descansada, aqui neste silêncio em que me queres e na distância que me impões, vou viver a vida inteira sem te incomodar, cumprindo a tua vontade. Quanto tempo é 'para sempre'? Muito tempo certamente.

Diálogo com o vento

Anabark, Sony Ericsson K750i - Self-portrait (2006)

Olha-me nos olhos... sabes o que dizem?... 'Penso em ti'.
Ainda que eu te pudesse perguntar 'Pensas em mim?',
sei que a tua resposta seria: 'Manter contacto para quê?'

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Enquanto dormes...

Anabark, Awaked Ghost (JUL05)

Esse teu passear silencioso por mim,
com o veludo de quem se quer invisível,
transporta-me para um sonho em que consigo
perguntar-te mais do que que apenas 'Está tudo bem?',
nos sonhos tudo é possível.

Esse passo cauteloso em que te deslocas,
para não acordares e continuares a pensar que durmo,
deixa-me adivinhar que o teu sono não é tranquilo,
que nele tentas enganar a necessidade
de te voltares e de te sentires por inteiro.

Esse deambular felino que nos resta,
no silêncio e na distância com que nos separas,
diz-me que o desassossego persiste
como um fantasma que não desistirá
de nos perseguir.

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Não quero mentir mais

Alfisti, Dry

não quero mentir mais, estou cansado de mentir.
vejo o teu rosto parado numa fotografia e a memória
que guardo de ti é tão diferente da realidade assustadora das fotografias.
não vou mentir. estou cansado de mentir.
a minha vida também és tu, o teu rosto parado na minha memória.
a minha vida és tu e todas as mãos que me seguraram e me quiseram,
todos os lábios que me beijaram, todas as línguas que me desenharam figuras
na pele, todos os dentes que me morderam, todas as vozes que me disseram amo-te
e me fizeram acreditar nisso. não quero mentir mais. estou cansado de mentir.
não és quase nada, mas não quero e não vou fingir que nunca exististe.


JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Àcerca do mentir

Peter Elköf, 2005

O que são mentiras? Uma mentira não é uma verdade relativa, porque se assim fosse nada seria verdadeiro - as verdades absolutas não existem. Que fundo de verdade existe realmente na mentira, se é que existe algum? Há quem viva numa mentira esforçando-se por acreditar que duma verdade se trata. Há quem se distorça na realidade ao ponto de acreditar na mentira como a única verdade possível, com princípio, meio e fim, na certeza absoluta daquilo que está certo e daquilo que deve ser, como se a vida fosse feita numa escala de preto e branco puros, ignorando que entre o preto e o branco se passam infinitas cores, tudo dependendo da luz que deixarmos entrar. A mentira é a distorção do que somos no que existimos, é uma verdade conveniente que não é verdade, só o é porque nos convém. E nesse mentir somos uma manta de retalhos, sempre demasiado curta para nos tapar o corpo por inteiro. E chega-se a fingir tão completamente que acabamos por acreditar que não mentimos, que tudo o que somos é verdadeiro e transparente. E, no entanto, sentimos o vazio construir-nos uma inevitável solidão, porque a mentira deixa-nos cada vez mais sós e desamparados, pendurados no que não é, no que apenas inventámos porque é mais fácil ser assim. Somos capazes de relativizar a verdade ao ponto de não haver nela nada de verdadeiro nem mesmo em nós que lhe demos origem. Defendemo-nos como verdadeiros quando construímos para nós mesmos uma mentira que nos segura numa imagem frágil e falsa o que somos e a vida que não temos e que nos esconde daquilo que não sabemos nem ser nem ter por falta de coragem. São sempre os mentirosos os primeiros a dizer que não sabem viver na mentira. O que é uma mentira senão uma fuga calculada ao que não sabemos responder? E quando nos mentimos a nós mesmos para nos justificarmos, que verdade defendemos afinal? Mentir é viver pela metade, fingir que está tudo bem na vida que sentimos cada vez mais desordenada. Mentiras são as partes de nós que roubamos e que escondemos de nós e dos outros, para acreditar que existimos realmente.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Mudar de estação



Peter Eklöf, 2005

Enquanto me aqueço embrulhada em abraços que me chegam com o conforto de braços amigos, recordo uma voz, que mal conheço, que há pouco tempo me disse: 'Muda de estação.'... Tenho de mudar de estação, é verdade. O inverno dura há tempo demais, há mais de seis meses que permanece neste lugar dentro de mim. Mantenho tudo o que sou intacto, em hibernação. Sinto o corpo entorpecido e a alma adormeceu, mal me atrevo a pensar porque não encontro sentido nenhum no que penso e sinto. Tenho as mãos geladas e daqui a pouco caem-me os dedos. O coração partiu-se, estalou no primeiro dia deste inverno... Tenho de mudar de estação e colar os pedaços que vou descobrindo debaixo da neve, aquecê-los e pôr tudo no lugar... Tenho de mudar de estação e esperar que um princípio de sol me recomece do sítio onde fiquei antes do inverno se instalar. E enquanto remendo o coração à luz da primavera, espero reencontrar a hipótese de renascer e caminhar... Tenho de mudar de estação, ocupar-me do jardim abandonado e ganhar um coração como aconteceu ao homem-de-lata no país de Oz.