Já é hoje e hoje é voltar a estar inteira. O tempo de espera esgota-se e a cor da vida regressa ao corpo, aos olhos e aos gestos. A medida do tempo é um estado de espírito. Hoje somos a terra outra vez em movimento. A medida da saudade, se a saudade se medisse, é a eternidade. Longe ou perto, quem ama vive sempre de saudade. Mas hoje que voltas para onde estiveste sempre, o coração celebra reencontro do olhar. Chega-te depressa a mim que me custou tanto esperar-te.
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quinta-feira, 3 de setembro de 2009
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Falta o quase
Os dias grandes são, por vezes, demasiado grandes, sobram no vagar que arrastamos nas horas teimosas, vazias, que duram mais do que o suficiente. Nesses dias é o inverso que avança e que nos ultrapassa. A sensação de que falta tudo para coisa nenhuma toma conta de nós como uma espécie de bolor antigo. Os dias grandes não se definem, demoram e demoram-nos no impasse, na espera, no porvir. Os dias grandes são erráticos, tiranos. São assim os dias em que te espero, grandes e asfixiantes. Os dias em que te espero são uma prisão onde, hora a hora, sucumbimos à claustrofobia da deambulação.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Falta muito?
Agora que voltei, não paro de fixar o ponteiro das horas. Espero. Faltam quantos dias? Menos um do que ontem, eu sei, que é como quem diz faltam quase todos! Poucos, tão poucos para alguns. Para mim muitos, porque até me voltares parte do que sou está ausente, logo não existo completamente. Vim à frente e enquanto não chegas conto as pedras que o mar nos deixou e que não apanhámos. São tantas, muitas, infindáveis... como as saudades.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Descompressão
Dias de descanso, dias que se resolvem em si mesmo sem pensarmos muito nisso. Dias em cujo o único assunto é a ausência de assunto com que percorremos as horas, como se o tempo fosse todo nosso. Dias que começam sem príncipio e terminam sem fim definido. Dias que podem ser tudo e se forem nada tanto melhor. Dias de vagar que passeamos sem compromisso e sem planos fixos. Dias em que nos demoramos nas horas que escapam de um relógio despreocupado. Dias de férias e férias dos dias matemáticos e disciplinados. Férias para recuperar um outro passo, mais cheio do que é importante e primordial. Férias. Volto depois do intervalo.
sábado, 6 de setembro de 2008
Regresso a casa
Devagar, tão lentamente quanto a ideia feliz de que os dias não têm medida porque começam e acabam em minutos precisos fora do relógio normal das horas, regresso a casa. Regresso ao tempo do mundo que deixámos adormecer e acordar sem nós, regresso à vida que fica do mesmo lado do espelho de toda a gente, ou de quase toda a gente porque há excepções à regra. Os dias e as noite quase mediterrânicos acabaram e deles já só resta a poeira do que conseguimos lembrar e sorrir no que recordamos. Mas é deste lado que nós somos por completo a vida. É deste lado que estamos sempre, mesmo quando distraimos das horas nos intervalos. Voltar a casa é voltar ao Sempre e voltar ao Sempre é acreditar no infinito para além da parede do quarto que é infinito como o Amor que nele acontece sem medida de tempo nem noção de espaço que não seja a escala do corpo, do coração e da alma. Voltar a casa é voltarmos completamente ao que é único e só nosso e encontrarmos o Sempre à nossa espera.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Ir e Voltar
Vou, mas voltamos. Vou ao encontro do teu abraço que me espera há muitos milhões de dias, tantos que lhe perdi a conta. Finalmente parto para a chegada onde me esperas há mais de uma vida em tempo contado segundo a nossa medida. Vou agora e voltaremos as duas...
Boas férias...
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Ausência
Voltei. Ou talvez apareci. Para voltar era preciso que tivesse partido. Não parti. Ninguèm volta ao lugar de onde nunca partiu. Este é um lugar de partida impossível. Às vezes demora com razão, outras vezes não, demoro simplesmente. Partir não parto. Estar ausente é uma demora prolongada apenas. De resto, tudo permanece no mesmo sítio. O Amor não parte nem tira férias. O Amor é o infinito daquilo que existo sem a mais leve demora.
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
A dormir
Adormeci e sonho. Sonho-te e sonho que adormeci. Longe é para dentro, por onde passo quando adormeço à procura de ti. Longe é a distância que percorro nesses lugares que não reconheço nem nunca vi. Longe é esse outro mundo onde o tempo pára e o espaço nem sempre tem sentido. Descubro-te numa paisagem diferente, como num pedaço de filme, e corro a agarrar o sonho que me abraça a ti. Aproximo-me até um beijo de distância e pergunto-te 'Estavas a sonhar comigo?', e espero que me digas que sim. E mesmo que não te lembres como chegaste a mim, pouco importa, aninho-te no que sonho, feliz, que te vivo enquanto o corpo descansa e espera por ti. Sonho-te dia e noite no desfilar das minhas horas lentas cheias de impaciência de te chegar. Longas são as noites que passo sem dormir. Lentos são os dias que passam sem me acordares.
domingo, 2 de setembro de 2007
Daqui a nada
Quantas horas faltam para 'daqui a nada'? Quando faltava 'quase nada' para te ter olhos nos olhos, eu adormecia a sonhar esse 'daqui a nada' que tu dizias que faltava. E, na febre dessa ansiedade a queimar-me o corpo, as horas que contei 'daqui' a 'nada', desse quase nada de distância para nos voltarmos, eram muitos dias, tantos que nem sonhava porque acordava no sobressalto dos ponteiros fixos do tempo de espera. Voltaste mais depressa do que 'daqui a nada', tão depressa que nem me deste tempo de perguntar-te pelo caminho 'Agora já é logo?'. Logo era o 'daqui a nada' prometido e tu chegaste mais cedo, enquanto eu te seguia o rasto, segundo a segundo, no meu relógio lento de tanto tempo à espera.
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
Arrumações
E quando tu não estás nada está no seu devido lugar. Arrumo objectos, planos e pensamentos e tudo permanece fora de sítio. Faltas tu e sem ti a casa está desarrumada. Vejo a desordem acontecer sozinha e não faço nada contra este estado de sítio inevitável em que as coisas divagam durante a tua ausência. Não posso fazer nada, deixo tudo acontecer sem mim, porque sem ti eu existo em parte incerta. A desordem é uma forma de distrair a espera. Enquanto não chegas transformo os dias em puzzles e em equações indecifráveis. Não procuro soluções. O Universo tem uma ordem precisa que voltará a ser amanhã, quando voltares.
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Chegar-te
Conto as horas que nos separam e elas passam tão lentamente que confundo os dias com as noites. O meu calendário é uma página em branco em que só deixei ficar os dias em que abrevio a distância para ir ao teu encontro. Todas as encruzilhadas são possibilidades de chegar-te, mas tenho partida e chegada em dia e hora marcados. Desespero. E tu esperas e desesperas. Falta sempre muito tempo quando estamos à espera, mesmo sem longe nem distância entre entre aqui e agora...
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Longe, a Sul
Há espaços que são nossos, meus e teus apenas, ainda que, por eles, milhares de pessoas se passeiem antes de depois de nós. Este espaço onde te escrevo é nosso. Inventei-o para ti como a única ponte em que me senti segura a atravessar para te chegar do outro lado, na margem da ausência, numa distância imaginada, feita do tempo que é preciso para nos encontrarmos por dentro, no mais profundo e verdadeiro da alma. Inventei-te e procurei-te meses a fio aqui neste lugar. De tanto te procurar acabaste por me encontrar num acaso que, se calhar ou quase certamente, foi escrito por uma vontade superior cujos desígnios nos escapam, mas que nos ensinam que há uma força maior em nós que não podemos contrariar. E, nesta ponte que construí e que soubeste atravessar vivemos eternamente nas palavras que nos desenham graficamente o Amor. Aqui volto todas as noites e todas as manhãs me encontras. Às vezes parto em viagem, mas nunca em pensamento. Depois de amanhã partes tu, num sopro de tempo para a beira do mar. E até eu seguir ao teu encontro, as palavras multiplicam-se, e depois disso também. E quando tu voltares, este lugar cresceu em saudades nos dias que nos separaram, a provar que a ausência é sempre falta e que o Amor é fogo que incendeia infinitamente.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Dá-me lume
Voltei e, enquanto não estive, houve um incêndio na minha cabeça que a distância não impediu. E o fogo queimou-me dias e noites numa cidade sem água nem árvores para arder. Apenas o corpo ardeu por dentro, a transpirar para fora o desejo de voltar rapidamente aonde pertence por inteiro e eternamente. Regresso-te com a urgência da vontade em que te sei e em que me consumo neste espaço de tempo que me separa de ti. Viver-te longe é nunca chegar ao destino porque fico sempre onde parti, porque tu és o meu único lugar onde quero chegar. Neste desassossego constante do que te tenho e do que me faltas perco horas a inventar-nos na intensidade que nos conhecemos. A chama arde sem fim, sempre firme e luminosa. Sinto-te a arder no mesmo fogo que em mim falho em controlar, porque nenhuma de nós sabe controlar o que o corpo, a alma e o coração comandam na mesma voz. Gosto deste calor que me queima a pele por dentro e por fora à tua espera. Gosto do fogo que arde sem se ver quando sozinha ando por entre gente. Mas prefiro infinitamente o incêndio que somos uma na outra, por cada vez que partilhamos saliva, suor e o estado líquido em que nos confundimos num mesmo corpo de prazer. Porque somos Uma, no que o coração ama, a alma sonha e o corpo deseja. Quero-te no meio das chamas em que te regresso. Quero-te nesse estado líquido de gás condicionado à espera de faísca. Quero-nos em constante risco de combustão, nesse perigo iminente que nos impõe o coração.
terça-feira, 15 de maio de 2007
Volto já
Enquanto não chego, deixo-te um beijo pendurado na vontade de voltar-te. O calendário contará sete dias, tantos quantos Deus demorou para criar o mundo. No meu coração terão passado sete anos ou talvez setenta, não sei, mas serão anos e não dias certamente, porque as saudades não se medem em dias, mas nos segundos que se contam lentamente e no que se morre entre um segundo e o próximo. Parto sozinha de ti e sempre contigo em pensamento, porque não sei viver de outra maneira senão neste lugar em que me habitas de forma permanente. Parto vagarosamente porque, sem ti, não tenho pressa de partir, apenas urgência em chegar-te. Abraça-me o regresso com a mesma força com que te embrulho neste beijo antes da partida. Enquanto não chego, beija-me lentamente no passar dos dias para que nem eu nem tu morramos de saudades. Espera-me como eu te espero e dá-me um bocadinho deste pouco que aqui deixo, espera-me com o mesmo tudo em que te levo e te trago de volta, num beijo à chegada.
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