terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Não quero mentir mais

Alfisti, Dry

não quero mentir mais, estou cansado de mentir.
vejo o teu rosto parado numa fotografia e a memória
que guardo de ti é tão diferente da realidade assustadora das fotografias.
não vou mentir. estou cansado de mentir.
a minha vida também és tu, o teu rosto parado na minha memória.
a minha vida és tu e todas as mãos que me seguraram e me quiseram,
todos os lábios que me beijaram, todas as línguas que me desenharam figuras
na pele, todos os dentes que me morderam, todas as vozes que me disseram amo-te
e me fizeram acreditar nisso. não quero mentir mais. estou cansado de mentir.
não és quase nada, mas não quero e não vou fingir que nunca exististe.


JOSÉ LUÍS PEIXOTO

10 comentários:

Presença disse...

Sempre vai a tempo...
De um querer sem mascaras!!!

Gostei do seu cantinho

Um abraço
Presença

Always disse...

Presença,

Estamos sempre a tempo de ser honestos...

Obrigada pela atenção e sinta-se bem-vinda. :)

Um abraço.

wind disse...

Só um adjectivo:Belíssimo:)
bjs

Always disse...

Como quase tudo o que José Luís Peixoto escreve. :)

SK disse...

Não mintas então.
Sê verdadeira naquilo que puderes.
E depois, nesse aspecto, para quê mentir? Nem é possível fazê-lo, nem acho que nos traga alguma felicidade ou beneficio.
Parece-me que este poema vai no sentido do texto da Marguerite Duras “Mundo Exterior”:

"… o que conta não é a manifestação do desejo, da tentativa amorosa. O que conta é o inferno da história única. Nada a substitui, nem uma segunda história. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a provocamos, mais ela foge. Amar é amar alguém. Não há um múltiplo da vida que possa ser vivido. Todas as primeiras histórias de amor se quebram e depois é essa história que transportamos para as outras histórias. Quando se viveu um amor com alguém, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa história de pessoa a pessoa. Nunca nos separamos dele."


Bj

Always disse...

SK,

Não minto. Se mentisse este espaço não existiria. O poema de Peixoto é um compromisso interior. E sim, combina lindamente com o fragmento de Marguerite Duras que escolheste e que acho muito verdadeiro (como tudo o que vem de ti)... obrigada. Acrescento um pensamento de Jean Rostand:

"Aqueles que falam das alegrias do amor, por certo, nunca amaram. Amar um ser é senti-lo necessário, portanto, sentirmo-nos nós próprios numa incessante precariedade."

Um beijo.

PS - Não te perdoo não gostares da Anamar! ;)

whitesatin disse...

2 textos certeiros: o do J.L. Peixoto e o da M. Duras, que a SK tão bem colocou.
A verdade do Amor é isto mesmo, não é?
Engraçado que passei a noite a pensar exactamente neste assunto.
Dei por mim a abrir a porta do quarto das memórias e...puff: "Quando se viveu um amor com alguém, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa história de pessoa a pessoa." M. Duras;
"a minha vida também és tu, o teu rosto parado na minha memória.", "não és quase nada, mas não quero e não vou fingir que nunca exististe." J.L. Peixoto

Existem verdades que (ainda) doem...

Always disse...

O Amor não sei o que é ao certo. O que sei é a intensidade do que sinto. Basta-me saber essa intensidade, que fica sempre cá dentro como termo de comparação com tudo o resto. É impossível de esquecer o que nos faz sentir vivos.

Anónimo disse...

Olá, estou apenas no começo deste blog venho por isso agradecer pela visita e pelo comentário.
Devo dizer que também já sabia do resultado do teste ainda antes de o fazer. A poesia é uma das minhas grandes paixões, voltarei a passar por cá tanto que já encontrei por aqui companhias de outras paragens. Um abraço.

Always disse...

És bem-vindo e volta sempre que te apetecer. :)

Um abraço!