domingo, 10 de dezembro de 2006

Neste nada de nós

Wind «Vasos que estão à Janela» (2006)
Neste nada que nos fica no tempo que passa, há perguntas sem resposta e respostas ao que nunca questionámos. Neste nada que nos esgota a memória de 'nós', há uma orquestra de silêncio a acompanhar imagens que o tempo dilui. Neste nada que nos espreita de alto a baixo dia após dia, há um caminho abandonado na escuridão que nos separa. Na ausência que me dás, eu invento o esquecimento. Voltares-me deixou de ser uma hipótese e esqueço-me de nós para me regressar sem danos. Vou desfazendo a hipótese de ti, porque agora sei que ela nunca existiu para além de mim.
Neste nada que sobrou de ti, conto as horas que faltam para não me recordar de nós. Não me esqueço de ti, esqueço-me de 'nós'. De ti recordo-te a pele na minha pele, o perfume eterno do teu corpo em mim e o desejo sem controle que nunca conseguimos esgotar. E desse tudo vem-me também à memória a frieza com que me deitaste fora e o egoísmo com que me cortaste a voz.
Acredita, neste nada que me resta vou lembrar-me de ti.

6 comentários:

Minerva disse...

Queria agradecer-te esta frase que me fez sentir: "Vou desfazendo a hipótese de ti, porque agora sei que que ela nunca existiu para além de mim."
Adorei o texto... lindo!
Bjs
Mi

Always disse...

Obrigada pela atenção. :)

É uma frase sentida, talvez por isso faça sentir.

Bjos

wind disse...

Belíssima prosa que está de uma poesia magnífica:)
Parabéns por conseguires transmitir assim os teus sentires:)
bjs

Always disse...

Agradeço-te o apreço. :)
A inspiração depende sempre do que vivemos por dentro.

analogic disse...

Sabes, há portas que umas vezes nas correntes de ar, teimosamente não se fecham e continuam a bater e a ressoar, outras que permanecem incostadas, em silêncio, parecem fechadas mas não.

- algumas ainda bem que assim são, porque por vezes é necessário renovar o ar, mesmo com as correntes de ar; outras porque é necessário, mais tarde, abri-las novamente e tratar delas.

Acho que enquanto conseguimos ouvir o bater encostado de uma porta é porque ainda a vemos porta, passivel de ser aberta, fechada, ou mantida encostada.

Quando não se ouve nada, e só se sente o ar, ou nem existe porta, ou está fechada.

Always disse...

Analogic,

A tua metáfora diz-me muito.
Aqui há uns tempos fecharam-me todas as portas, uma atrás da outra. Fiquei do lado de fora. Fartei-me de bater. Ninguém abriu. Voltei a bater. Silêncio do outro lado. Bati com força e mais uma porta se fechou. E eu fiquei cada vez mais do lado de fora. Esfolei os nós dos dedos de tanto bater e nada. Um dia responderam-me com um 'Não te quero mais aqui.'. Tiraram todas as portas nesse dia e construiram um muro espesso e alto para não me ouvirem bater nunca mais. Tive de desistir, fui embora. Não se pode bater em portas que deixaram de existir.

Tens razão quando dizes 'que há portas que permanecem encostadas, em silêncio, parecem fechadas mas não', mas nesta de que te falo só acredito quando ouvir ressoar ou sentir um leve corrente de ar.