sexta-feira, 5 de julho de 2013

Do céu para debaixo do chão

Robert Vizzini

Foi num filme antigo, em technicolor, que elas se desencontraram, a olhar para cima, não para o céu mas para o topo do arranha-céus. Muito tempo passou, o filme envelheceu e elas perderam-se para sempre na esquina oposta da mesma cidade. Sobreviveu-lhes o arranha-céus e nem a saudade que as encontrou é livre de ser vivida, porque agora são enredo de cinema negro: os polícias são ladrões e não há heróis numa história de passado contada em voz passiva.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Águas paradas

Tito Mouraz

Já foi mar, um oceano sem fim por onde toda a fé do mundo nos navegava. Já foi esse azul infinito sem estações do ano onde o céu, sempre iluminado, se espelhava. Já foi uma vontade mais forte do que, no mar e na terra, todas as tempestades. E foi por vezes cabo das tormentas mas sempre da boa esperança, a noite e o dia como tudo na vida é. Foi o que pode ser e o que o verão bruscamente interrompeu pelo que escapou aos sentidos. De todo o mar que o tempo não cumpriu, ficou um buraco de pedra sobreposta em camadas. E, no fundo, um lago de lágrimas, onde a alma deserta lutou para não se afogar. Já foi mar onde, hoje, são as águas paradas do naufrágio do amor.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Nudez

Baptiste Léonne

Despia a alma a custo. Nunca tinha ficado nua para além do corpo. Escondia na nudez da pele o longe que a habitava dentro, onde ninguém chegava sem voltar para trás de tão perdidos no caminho. Ficava nua sem nunca despir quem era. Foi a primeira vez, e talvez a única, numa vida inteira, que deixou espreitar o que, de corpo nu, nunca foi capaz de revelar. E ninguém reparou.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Teoria das possibilidades

Akos Major

Entre a terra e o céu tudo é uma possibilidade. Todas as paisagens se tocam no longe e no perto, apenas o tempo é uma miragem. Até o fogo e o gelo se encontram como princípio e fim de vida. Tudo podemos ser e não ser no que a Natureza nos combina.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Real valor

Anastasia Zavalo, Chairs

E se tudo quanto existe fosse apenas impressões digitais únicas do Tempo, quanto valeria uma mancha numa parede de memórias ou as partes de uma história antiga desarrumadas pelo chão? Que valor teriam as ruínas de uma casa em nós há muito tempo desabitada?...

terça-feira, 18 de junho de 2013

Um dia?...

Alessandro Puccinelli, Mare Series -Cascais, Portugal

- Não sei, sei lá!

terça-feira, 5 de março de 2013

Neste dia aconteceu...

João Castilho, Série 'Temperos", 2009

... o fim da espera, o irrepetível quando se ama uma vez na vida...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Sem mais nem menos...

João Castilho, 'Tempero' Series, 2009

...num instante o infinito.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Ao vivo

João Castitlho, Tempero Series

...Porque as palavras são pequenas...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Caixa do correio

João Castilho, Tempero Series

...Efemeridade...

sábado, 29 de dezembro de 2012

Bom ano...

Lucian Montean, Lumini Bucuresti

Votos de um ano com todos os dias felizes!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Feliz Natal

Akos Major

A todos quantos por aqui passam ainda ou passaram um dia, desejo um Natal feliz e que todos os dias do ano vos amanheçam com espírito de Natal.

domingo, 30 de setembro de 2012


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Quando os instantes da manhã se acumulam...

Regina Deluise, Three Chairs

Quando os instantes da manhã se acumulam nas
paredes da casa, eu rasgo as páginas onde te escrevo,
porque sei que tudo será desnecessário, tudo será
frágil, quando imagino o sol que não sei se poderei ver,
esqueço as paredes e,


com tanta força,

quero que sejas feliz.


José Luís Peixoto

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Maioridade

Autor desconhecido

Longe da vista não é longe do coração quando nele guardamos intacto quem amamos. Hoje uma estrela brilha mais do que o sol. Tornaste-te 'grande' longe dos meus olhos, mas eu estarei sempre onde me procurares, porque te guardo no coração que te viu crescer e nele caberás a vida inteira. Que sejas infinitamente feliz, Parabéns!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O que não me dói

Corinne Mercadier, Une fois et pas plus

São, em mim, dor todas as palavras que já disse e que foram mal interpretadas, distorcidas ou esvaziadas de sentido. Dói-me tudo o que não quis dizer e que me ouviram de coração esquecido. Dói-me tudo o que não disse um segundo antes do orgulho ferido. Dói-me o quis dizer e que ficou no silêncio perdido. Dói-me a falta de sentido, o desperdício das horas e o caminho destruído. Dói-me o equívoco nunca esclarecido. Dói-me a dor de quem mal me entendeu quando eu própria me deixei de ouvir. Dói-me a falta de amor do erro, o abandono da alma no que gritei e o abraço que não recebi nem dei quando era preciso. Mas não me dói o que, no melhor e no pior de mim, nunca deixei de sentir. Amor.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Coisas a menos

Anabark, Pintura Incompleta (SET12)

Um céu à espera do azul que lhe falta. Um espelho imperfeito, de contornos distorcidos. Um copo de vidro de coração partido. Tempo perdido em verdades relativas. Um azul à espera do céu que lhe falta. Silêncio à solta e palavras cheias que sobram, proibidas, que não podem voltar a ser ditas ao ouvido, ensurdecido, de quem se escolheu como infinito. Toda a alma que o coração segura no que sente e não desmente. Tudo o que se adormece para não viver cansado, permanece. O sentido não se esquece mesmo sentindo só de um lado, apenas aprendeu a estar calado.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Andando

Anabark, Ramos de sol (SET2012)

Andando... no tempo ausente, o coração dormente. Passeando no beijo do vento, tão leve se torna o pensamento. Leve o que não se espera. Contudo impaciente o desejo, a vontade de ser tudo o que se sente. Andando pelas horas desencontradas entre as manhãs e as madrugadas. Levemente para não acordar quem dorme nos braços de um sonho leve que acredita como vida. O silêncio de quem não sente é a própria vida adormecida. Insidioso o vento que tudo leva e nada devolve. Coração que não ouve, coração que não resolve.

sábado, 15 de setembro de 2012

"Lá em baixo"

Emmanuel Correia 

"...Toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como á espera do comboio
na paragem do autocarro..."

In "Lá Em Baixo", SÉRGIO GODINHO

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Na varanda

Anabark, Center (AGO12)

Esta manhã encontrei cores no jardim da varanda. A luz que me despertou pintou tudo á minha volta da cor do jardim. Quando saí para a rua as paredes mudaram de sítio e todas as divisões da casa desapareceram nesse centro de cores imprevistas. E em todas as ruas por onde andei a ocupar o dia não havia nem carros nem passeios nem gente triste a passar ao lado da sua própria vida. Tudo era luz cristalina por entre árvores nascidas e crescidas durante a noite anterior. Voltei a casa na mesma canção que, de manhã, me ficou no ouvido e encontrei palavras coloridas no vidro do carro que me sorriram e abraçaram o anoitecer.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A chave

Jens Waldenmaier Waipapa, Point

O baú está fechado e a chave no fundo do mar. Alguém por mim a atirou para esse longe onde nada se volta a encontrar. E há uma promessa feita nesse instante definitivo, não procurar o que de mim se perdeu, o que não é meu não posso segurar. A chave está no fundo do mar. Alguém por mim se desfez dela nesse infinito onde se afundam tesouros que tempo enterra. E não falto á promessa que fiz e posso cumprir. O mesmo alguém me disse que o mar é grande e que a minha viagem não acaba aqui e não depende da chave. Prometi deitar fora o que me pesa e me prende em terra. Confiei a chave nessas mãos que me lembram o que ainda está por vir e que a chave do que passou o mar levou. 

domingo, 9 de setembro de 2012

Sete vidas te desejo...

Anabark, Home (MAI2012)

...Mas que sejam mais de sete. E que durem para sempre na memória e no coração dos que importam. Para muitos bens é o desejo infinito de quem te quer bem.

sábado, 8 de setembro de 2012

Poetas e Amor

Anabark, Single (AGO2012)

"Poets are the only people to whom love is not only a crucial, but an indispensable experience, which entitles them to mistake it for a universal one."

Hannah Arendt

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Ideal

Daniel Hachmann


"The human soul has still greater need of the ideal than of the real. It is by the real that we exist; it is by the ideal that we live."

Victor Hugo

terça-feira, 4 de setembro de 2012

As cidades de Dickens

Mark Westerby

"It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair..."

Charles Dickens, A Tale of Two Cities (1859)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Patamar

Timmy Gambin

Encontrei uma vontade e junto tudo o que não foi para deitar fora e partir. Ao cimo desta escada, haverá uma outra escada para subir. As paredes deixaram de fazer sentido no sítio onde estão, o corredor, cada vez mais estreito e comprido, não tem qualquer utilidade. Encontrei uma vontade, refaço a casa inteira, subo a escada que me leva a outra forma de ocupar o espaço e o tempo. Tudo o que não preciso fica nos andares de baixo, na parte velha da casa, feita de paredes e corredores esguios e imcompreensíveis. Encontrei uma vontade e um quarto amplo, sem mobília, no andar de cima. Lá em baixo não chega o sol e tudo vai desaparecendo na falta de claridade. Desfaço-me do que não tenho, na sombra encontrei-me essa vontade.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

No cimo da escada

Anabark, Saída Luminosa (AGO2012)

Antes havia uma pressa de chegar, uma pressa de voltar, uma vontade de não sair. Antes havia uma urgência, um estado de ansiedade constante fora do abraço, um desassossego partilhado. Antes havia uma ideia crescente, um plano, um encontro de vontades numa escada sempre a subir. Havia luz ao fim do dia e estrelas à noite sobre a cama até o sol colorir a manhã. E havia o desejo sem fim de um corpo de perfume único e cores plenas transpiradas a toda a hora. E havia tempo contado que se vivia infinito, sem desperdício e sem descanso. E havia ausência que era saudade e havia saudade que era dor e havia dor que era Amor. E o pensamento voava sempre para o mesmo lugar e havia uma velocidade escaldante em cada regresso a casa. E havia palavras penduradas nos dedos como abraços à espera de se encontrarem. Antes, quando tudo era 'sempre' no fim das frases.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Fronteira

Anabark, No Ar (AGO2012)

Menos seria nada e o Nada já vem sendo, tomou forma e reproduz-se como as horas que passam na sucessão infinita dos dias. O relógio não parou, o tempo desencontrou-se mas não parou. Uma linha, que divide e não se vê, foi traçada e, de um lado e do outro nada acontece da mesma maneira. De um lado é passado e tudo se apaga, sentimentos, memórias, bem querer. Do outro, o sonho e um querer infinito que não morre. O Amor que, outrora, era tambor a marcar o ritmo da vida abrigou-se do lado que sonha e acredita o infinito. E tem vergonha de ser orfão, já não fala nem se deixa ver, vive no silêncio escondido. O relógio não parou, mas o Tempo não existe, só o princípio e o fim. E entre um extremo e o outro aconteceu o Tudo, mas dele só sobram palavras. Menos seria nada... como se nada tivesse acontecido.

domingo, 19 de agosto de 2012

Prémio dos Dardos #3


Obrigado Viajante  pela distinção, que muito me honra, atribuída a este blog com um prémio que tem como objectivo "...distinguir blogues que contribuem de forma significativa para o enriquecimento da cultura virtual, através da veiculação de valores culturais, éticos, literários, pessoais… premiando os blogueiros que demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo e através das formas de comunicação que utilizam para o expressar...." 

Prémio dos Dardos atibuido por: 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Querer para poder

Anabark, Before the rain (AGO2012)

Como se o tempo que está por vir fosse mais importante do que tudo o que já conheço, procurei desenhar momentos à escala do possível, brincar com ideias de coisas por fazer e ter fé no amanhã que sonhei nas entrelinhas do desejo.  E enquanto assim me tinha ocupada, uma certeza tomou forma concreta e definida: é preciso querer para poder e só podemos aquilo que decidimos querer. E querer é acreditar muito e nunca desistir nem ceder a caminhos fáceis. O difícil desanima e desencoraja mas, no fim, será certamente o mais feliz e recompensador. E é preciso ousar para lá chegar e sofrer para reconhecer a diferença. Desistir é deitar fora a oportunidade de saber aceitar e vencer o desafio que a vida nos propõe nesta breve passagem por aqui.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Percepção

Anabark, Perceptions (AGO2012)

"The truth is a battle of perceptions, people only see what they are willing to confront. It's not what you look at that matters but what you see, and when different perceptions battle against one another the truth has a way of getting lost and the monsters find a way of getting out."

In «Revenge» (ABC series, 2011)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Jardim de inverno

Anabark, Quase flor (AGO2012)

Recordo flores que eram ideias cheias de cor e ideias que nunca se tornaram flores. Recordo flores que segurei na alma à procura de casa e que ficaram à porta rejeitadas como ervas daninhas. Recordo a noite que me chegou no instante em que, sem terra nem semente, me atiraram ao chão. Recordo flores que apanhei pelo caminho e levei para casa com a pressa de quem tem um beijo urgente para dar. Recordo a urgência que não encontrei nos lábios que tanto eu queria beijar. Recordo sinais e prenúncios de fim e tudo o que me desacreditava preferi ignorar. Recordo um jardim inteiro que definhou à falta de água por preguiça de regar. Recordo Amor, que acreditei de pedra e foi de vidro, julgado e condenado. Recordo a primavera e toda a luz do infinito em mim sacrificada ao passado.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Cegueira

William Rivelli, The Wall


Não se pode ir ao encontro do nada, só existimos realmente no que sentimos, no que nos está por debaixo da pele e não se vê mas que nos define a essência. Não se pode encontrar quem não sente como nós na justa proporção. No nada nada cresce, no nada tudo morre. No que não se sente por inteiro a alma definha aos poucos até secar completamente e assim, toda a vida que pudesse ser será demasiado tarde. No nada morre-se depressa mesmo que continuemos a respirar à vista de toda a gente. Crescer para além da cegueira dos muros é ser adulto e humano também. Não será preciso uma escada, mas apenas compreender que ninguém é perfeito nem feito à nossa imagem e semelhança, porque nós não somos deuses nem podemos esperar dos outros aquilo que não somos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Azul sem casa

Anabark, Azul (AGO2012)

Às vezes acreditar é força suficiente para acontecer e há dias felizes em que nos acorda essa força de ser e o mundo vem, generoso, ao nosso encontro. Hoje a manhã chegou cheia do azul-água que, ontem, segurei, com fé, nos braços. Hoje acreditei em cores luminosas e num céu que está quase a acontecer. Hoje acreditei que as boas pessoas podem mudar o mundo e apostei na minha fé. O que ontem era nada, hoje é um céu aberto e amanhã, talvez, o paraíso. Hoje o verde de esperança é a cor das horas decrescentes. Amanhã será um dia azul, infinito nos olhos e na alma que os espera. E um sorriso no coração de quem neles, hoje, acreditou.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Mar-a-mar

Anabark, Cabos (JUL2012)

E tudo o que navegar não será em vão. Na alma levo um oceano e os olhos rasos de água e parto, todos os dias, para alto mar. Já naufraguei na maré vazia e morri na areia mesmo à beira do mar. Tudo o que fui não chegou para me salvar, o que me resta foi-se nas ondas e eu não sei nadar. Construí um barco de vento que empurro com a minha vontade de salvar quem sou no que me conheço como alma. E no coração me navego neste barco à vela e, nesse mar, tudo o que navegar nunca será em vão.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Sair de casa

Anabark, Lights On, (FEV2012)

Ali em baixo, ao fim da rua, mora a ideia iluminada do tanto que tenho para descobrir de mim e do mundo. Saí de casa para ir ter com ela e sigo, de um lado ao outro, rua abaixo para me assegurar de diferentes perspectivas. Da minha janela tudo tem metade do tamanho e sei que o mundo é bem maior do que isso. Saio à rua com tudo para fazer e a certeza de um ponto iluminado. Tudo o que encontro pelo caminho me engrandece por tudo o que a alma alcança para lá de uma janela fechada. Ali em baixo corre a luz de um lado para o outro à espera de humilde que aprenda a vida dos diferentes ângulos de cada esquina. Toda a luz que guardamos dentro só depende dessa vontade.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Desengano

Choe Scheffe

Não sei fingir, não sei jogar nem sei mentir. Não sei viver alternativas que não sinto. Não sei procurar o que não perdi. Não sei dizer o que se passa fora de mim. Sei apenas a verdade que o tempo me ensinou. E sei ouvir o que me dizem com palavras certas, porque o silêncio tem a voz do nada. Nas mãos vazias encontro a certeza de que não estou enganada. Ontem foi uma história para contar e a vida é hoje. Sei que o Amor verdadeiro existe e não desiste, mas sei que não me encontrou como eu o encontrei em mim e o guardei  inteiro.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Pintura

China.Zhangye, Province of Gansu

Às vezes, pego em lápis de todas as cores e pinto o mundo em tons quentes a condizer com o desejo do meu coração ardente. E não me chegam as cores que tenho, invento, na alma, raios de luz cintilante a condizer com o sobressalto constante que me aninha. E perco a voz a gritar cá dentro o que não me desertou. Às vezes, invento paisagens e acredito que elas existem para além do tempo que passou. E logo acordo num mar sem fundo onde nada vive e nenhum som se escuta nem de perto nem de longe. E pinto um céu cheio de estrelas e um vento fresco que me empurre. E pinto as palavras que trago debaixo da pele da cor do incêndio que, no coração, me sobrevive.

terça-feira, 24 de julho de 2012

O que não posso

Gerd Benninger, Yuanyang, 2011

Pudesse a alma ser de novo construída para evitar o que o coração sente. Pudesse a alma mudar como muda o corpo tão rapidamente. Pudesse eu ser uma pessoa diferente e sentir as coisas de outra maneira ou mesmo deixar de as sentir completamente. Pudesse eu ser apenas eu e não trazer debaixo da pele quem está ausente. Pudesse eu despir-me dessa verdade que o tempo me confirma porque a alma não tem idade nem as horas que passam desfazem a sua verdade íntima. Pudesse eu deixar de ser o que me é tão essencial e arrumar o desassossego que, apenas em mim, resiste como pele da minha pele. Pudesse eu viver pela metade e, não sendo inteira, resistir sem dor ao coração vazio e à alma perdida. Pudesse eu ser ser um corpo ausente de sentimento como princípio de vida.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Em vão

Anabark, Amarras (JUL2012)

Não sei adormecer a alma longe do que sinto nem esconder de mim mesma esse lugar, sem princípio nem fim, que me acordou um dia. São mil noites por dormir em que não falto à verdade de um sentir maior do que permite a força humana. Em vão. Não procuro o que não existe porque não vou encontrar o que me falta. Sobram-me horas vagas para aceitar honestamente esse tudo que não mudou em mim. Sobram-me ideias e certezas que o tempo não apagou. Em vão. Porque tudo é tanto o coração não se cansa. E existe um mar por dentro que são lágrimas que não se acabam. Em vão.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Alta noite

Tom Slatin, Abandoned Schoolhouse

Na outra ponta da casa esconde-se a lua nova em noite escura, e o tempo passa como um segredo nunca revelado de uma vontade impura. O vento bate à porta, entra e sai, veloz, pelas janelas, arruma e desarruma as cores esbatidas de uma velha tela. Sabe a noite uma história de luz que perdeu o dia, e a lua tem vergonha da sua figura vazia. E no que o tempo anoitece tudo é lento na sua infinita monotonia. As horas nascem e entristecem na contemplação de tão grande desperdício. Só o vento não se esquece de emprestar a toda a casa um ar de reboliço.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Paladar

James Casebere, Interrogation Room, 2008

Sabe-me a água salgada o dia que termino sem mar à vista e praia adiada. Sabe-me o dia a outra vida que não esqueci. Sabem-me as horas ao desassossego insatisfeito que noutro tempo vivi. Sabe-me a tudo e a nada e a uma vontade desencontrada. Sabe-me ao mundo que encontrei um dia e no dia seguinte perdi. Sabe-me ao sonho de um Amor inteiro e maior do que a vida. Sabe-me a quem não distingo, na alma, de mim. Sabe-me ao vazio e à melancolia das coisas pequeninas. Sabe-me ao que adormeço todos os dias e à distância que me arrefece. Sabe-me a folhas mortas e a florestas desertas. Sabe-me ao desejo e ao impossível. Sabe-me à intensidade que me sobra e que não sei pôr de lado nem tornar imperceptível. Na boca tenho o gosto de um querer de alma que não se cumpre nem adormece.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Cenário

Marcos Calamato

Procurei-te uma cadeira que não encontrei e tive de fazer de raiz. Passei noites acordada a esculpir palavras para te sentares e te sentires sem fim. Procurei-te uma cadeira feita de luz e trago debaixo do braço um filme antigo que conheces bem como me conheces a mim, o mesmo que levo para toda a parte sempre comigo. A história é única e cabe dentro de um copo que inventei sem tempo nem tamanho onde guardei o Infinito. Nela encontrei-te mares, ventos e tempestades e o Tudo em que acredito. Deitei fora o Tempo por me ser indiferente porque ele não passa no que abrigo de sentimento. E porque descobri que o Infinito dura o tempo do inesquecível. Deixa-te ficar um bocadinho no que me resta dessa Eternidade que se tornou indizível.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Escada

Stanko Abadzic, Stairs and Patterns (from the Paris Cycle), 2009

Anda a vida por aqui e por ali, num passo cada vez mais apressado. Anda o tempo que por nós passa cada vez mais desencontrado. As horas passam, os degraus ficam e o cansaço chega-nos. De manhã acorda-se para o tudo que fica hoje por fazer. A escada sobe e desce para o pouco que nos apetece na espiral do que não sabemos resolver. E há uma vontade que não morre nem esmorece, um desassossego que não nos aborrece, renovados pelas flores inesperadas que encontramos pelo caminho. Viver é uma conquista que a surpresa de cada dia nos segura.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Acontece...

Anabark, Yellow (JUL2012)

Acontece sem dar conta. Acontece sem reparar. Acontece olhar sem ver nem fixar. Acontecem dias transparentes em que tudo é invisível, desmaiados pelo sono e sonho de que não queremos acordar. Acontece uma luz de dentro que não queremos apagar. Acontecem momentos que perdemos de memória. Acontecem sentimentos que, sendo únicos, são a história de uma vida. Acontecem flores sem tempo numa primavera esquecida. Acontece tudo às mãos de nada e acontece nada na perda do tudo.

terça-feira, 10 de julho de 2012

A duração da eternidade

Anabark, Castelos (JUL.2012)

Tudo é eterno enquanto dura, diz o poema... as pessoas, as nuvens, os sentimentos... Mas não encontro grande sentido numa tão óbvia condenação ao esquecimento. Acredito que é pelo que nos fica depois do fim que se mede a eternidade do que foi enquanto durou. Às vezes castelos, outras vezes areia. O que é eterno é a mão cheia que nos fica do que o tempo nos roubou. Porque não existe outra eternidade que não aquela que soubermos guardar e amar sem idade. E o que se ama é, em nós, incondicionalmente infinito.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Imprevisto

Autor desconhecido

Tenho alma, sei que a tenho por tudo o que vivo e a intensidade com que sinto o que vivo no tudo como no nada. Porque me são absolutos a alegria e a tristeza, a saudade e o amor. Porque o meio caminho entre uma e outra coisa não me serve nem me esgota. E gosto do imprevisível, das coisas que acontecem porque acontecem e do sobressalto que me deixa sem chão e com vontade de andar. Gosto de horas que não espero e do que aprendo nos entretantos sem contar com isso. Gosto da surpresa de quem se encontra num abraço não planeado e das pessoas que se dão com a sinceridade que o tempo não constrói nem desgasta. Gosto da intensidade do imprevisto e da urgência do inesperado de quem me toca a alma como prova de vida e se sente livre para abraçar os dias para além do planeado.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Trilho

Anabark, Cimo I (JUN2010)

Lá em cima havia um céu azul cheio de luz, cá em baixo pedra solta e a minha vontade cansada a subir. A meio caminho há sombra de árvores e água fresca mas eu quero o azul infinito a tocar-me o rosto. Subo e desço tantas vezes que nunca chego ao cimo do mundo. Mas não desisto de andar. As nuvens contam-me histórias pelo caminho e eu pinto uma aqui outra ali para que não me falte companhia. Às vezes choram, e eu com elas, até ser dia. Outras vezes brincam com o sol depois de uma noite fria. Eu sorrio e caminho descaminhando sem dar conta. Amanhã falta-me outro tanto que hoje me faltou. E depois de amanhã mais ainda. Dizem-me que o céu continua lá em cima, azul e luminoso, indiferente à desventura de nuvens passageiras e ao passo cansado de quem não lhe chega. Eu sigo, quero confirmar que sim.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Encontro

Anabark, Imitating life (JUL2012)

Já adormeci cansada e acordei no mesmo cansaço, cuidando que sabia de cor o mundo, que não havia mais nada para descobrir. Hoje, sem muita certeza do que aprendi fora de mim, descubro-me em diferentes ângulos e perspectivas. E renasço no olhar de inteligência sobre mim mesma, em que a claridade se reparte entre a luz e a sombra, em partes e intensidades combinadas. No que sou tenho a certeza do que sinto. Não existo pelo que penso mas pelo que encontro num  sentir pleno. Se assim não fosse não seria vida.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Nuvens de calor

Jorge Morgado, Red, 2012

Andam nuvens, desencontradas da estação do ano, à deriva num céu de cor quente impossível. Ando eu, por entre as nuvens, à procura de forma e de tempo conveniente. Andam horas a passar num imenso reboliço, sem noite nem dia, só meio dia intermitente. Andam pássaros às voltas, de um lado para outro, num desconcerto sem descanso e flores que crescem no ar a tentar chegar-lhes em poemas. Anda o universo a desfazer-se em música que não chega ao chão e árvores que se esticam para o céu para apanhar uma canção. E ando eu, de nuvem e nuvem, a falar alto de infinito e de amor perpétuo que ninguém acredita que existiu.