domingo, 3 de dezembro de 2006

Sem importância

Ralph Grose «Orange and Blue» (2006)
Esta vontade de nada sentir faz-me andar devagarinho debaixo de chuva, como se assim purificasse a alma deste sentimento sem sentido nem futuro, que trago ainda pendurado num qualquer recanto do coração. Estou encharcada até aos ossos e ainda me lembro do teu nome. O rosto não é o mesmo. Encontrei-te noutro dia e reparei - o teu rosto mudou. Reconheço-te o olhar, mas estranho-te os traços que te desenham a face. Estás diferente e eu também - não tenho nada para te dizer. Não te posso dar importância - importante sou eu, tu deixaste de fazer parte dos meus planos. Fica-te com o que tens e sê feliz nos pensamentos secretos em que te refugias todos os dias para poder continuar. Finge que está tudo bem - se calhar, está tudo bem, afinal de contas sempre viveste assim, nunca te exigiste mais do que uma mentira em ti mesma. Eu não finjo que está tudo bem, porque não sei fingir. Estará tudo bem no dia em que não conseguir definir com precisão o contorno do teu rosto.

8 comentários:

Senhora Saudades disse...

sorry in advance darling, for the following having nothing to do with your latest entry...i'd like to say the accompanied image is quite intriguing, and your last line Estará tudo bem no dia em que não conseguir definir com precisão o contorno do teu rosto nearly brings a tear to my eye....

there's no easy way to cry!!!

F.

i don't want to feel anything but i do

SK disse...

eu prefiro não esquecer, até porque sei que não sou capaz e sou mais feliz qd recordo, apesar de haver recordações de dor. Mas fizeram-me crescer e são uma parte de mim.
guardo no peito todas as pessoas que foram e sempre serão importantes para mim.
acredito que somos o somatório de todas essas partes e assim sendo não podemos negar parte alguma sem que nos estejamos tb a negar. de algumas pessoas ainda restam marcas bem evidentes, de outras, vestígios das ligações frágeis, de outras ainda os vestígios quase imperceptíveis, mas restarão sempre vestígios mais ou menos perceptíveis.
a memória faz de nós o que somos e sem memória seríamos coisa nenhuma.
recordar faz parte, e a seu tempo todas as feridas das ligações quebradas sararão.
não é mau sentir saudades, pelo contrário, é sinal que se sente algo fruto de coisas boas e acima de tudo que se sente.

Always disse...

SK:

Obrigada pelas tuas palavras e pela relevância do teu comentário. Subscrevo tudo o que disseste.
As pessoas que foram importantes para nós continuarão a sê-lo ao longo da nossa vida, são imortais, não se esquecem, fazem parte de nós, não podemos apagá-las, isso seria apagar também parte da nosso história pessoal. A saudade existe e o passado define-nos pelas escolhas e decisões que tomámos. O passado somos nós, na forma como existimos no presente e naquilo que seremos no futuro. Não recordar seria não ter existência. Guardo preciosamente cada momento da minha vida, com colecções de memórias intocáveis.

Mas o que fazer quando a dor da perda nos torna os dias cinzentos e fechados em memórias do que foi e não voltará a ser? Nesses momentos tentamos todos os pretextos para escapar por entre a chuva e continuar com o que temos e/ou poderemos vir a ter.

O que escrevi é apenas isso, uma forma de lidar com uma saudade infinita e com a omnipresença de quem partiu em tudo o que existo no presente. Porque o tempo não apaga nem a pessoa nem o muito que vivi no que hoje é passado. Porque tudo seria bem mais fácil se nada sentisse ou recordasse. Se as pessoas na minha vida e as memórias que me ficaram não fossem importantes para mim, nenhum dos textos que aqui escrevo existiria no tom que lhes atribuo. Porque, às vezes, é no que não se lê que se percebe a importância real do que se sente… ainda que, aparentemente, nos pareça uma contradição.

Always disse...

Senhora Saudades:

The image you see in this post (taken from the Creative Digital Imaging Competition 2006 - Toronto Camera Club) reflects to me the idea of distortion which is pretty much the general tone you find in the text. Reality is a multiple perspective comprehension of things.

You may not want to feel when the feeling hurts, but you know it's impossible to live without feelings. To feel is to be certain we're alive!

Sweet dreams, dahling!

D. disse...

Força!!
Beijinhos e boa semana ;)

SK disse...

O que fazer…?
Não sei. Talvez recomeçar a pintar de cor cada contorno dos dias, a desenhar novas formas, novos motivos, a pintar o céu de outra cor…
Recordar apenas o que foi bom e projectar esses sentimentos no futuro, no que hás-de voltar a experiênciar...
...deixar ir a dor... :)
Bj
SK

Always disse...

D.

Agradeço o que deixas ficar por aqui.

Um beijinho para ti. :)

Always disse...

SK:

Tens razão, é preciso reinventar os dias a diferentes cores.

Só recordo o bom porque foi tudo perfeito. Mas o mundo nem sempre acompanha a perfeição e assim se instala o medo e o fim das coisas.