terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Àcerca do mentir

Peter Elköf, 2005

O que são mentiras? Uma mentira não é uma verdade relativa, porque se assim fosse nada seria verdadeiro - as verdades absolutas não existem. Que fundo de verdade existe realmente na mentira, se é que existe algum? Há quem viva numa mentira esforçando-se por acreditar que duma verdade se trata. Há quem se distorça na realidade ao ponto de acreditar na mentira como a única verdade possível, com princípio, meio e fim, na certeza absoluta daquilo que está certo e daquilo que deve ser, como se a vida fosse feita numa escala de preto e branco puros, ignorando que entre o preto e o branco se passam infinitas cores, tudo dependendo da luz que deixarmos entrar. A mentira é a distorção do que somos no que existimos, é uma verdade conveniente que não é verdade, só o é porque nos convém. E nesse mentir somos uma manta de retalhos, sempre demasiado curta para nos tapar o corpo por inteiro. E chega-se a fingir tão completamente que acabamos por acreditar que não mentimos, que tudo o que somos é verdadeiro e transparente. E, no entanto, sentimos o vazio construir-nos uma inevitável solidão, porque a mentira deixa-nos cada vez mais sós e desamparados, pendurados no que não é, no que apenas inventámos porque é mais fácil ser assim. Somos capazes de relativizar a verdade ao ponto de não haver nela nada de verdadeiro nem mesmo em nós que lhe demos origem. Defendemo-nos como verdadeiros quando construímos para nós mesmos uma mentira que nos segura numa imagem frágil e falsa o que somos e a vida que não temos e que nos esconde daquilo que não sabemos nem ser nem ter por falta de coragem. São sempre os mentirosos os primeiros a dizer que não sabem viver na mentira. O que é uma mentira senão uma fuga calculada ao que não sabemos responder? E quando nos mentimos a nós mesmos para nos justificarmos, que verdade defendemos afinal? Mentir é viver pela metade, fingir que está tudo bem na vida que sentimos cada vez mais desordenada. Mentiras são as partes de nós que roubamos e que escondemos de nós e dos outros, para acreditar que existimos realmente.

26 comentários:

SK disse...

Nem mesmo a verdade e a mentira são preto e branco. Como a vida não é apenas feita de preto e de branco, mas de uma infinidade de cores.
E assim, tb nos é difícil entender tudo o que há para além de uma verdade/mentira, e defini-la assim: ou preto ou branco ou mesmo cinzento.
Assim, existirá um fundo de verdade na mentira?
Mas já viver a mentir, conscientemente, diria que nem sequer é viver pela metade, mas vazia.

SK disse...

...e como eu dizia há pouco, aqui está um novo ano para fazer melhor.
Bjs

Always disse...

O preto e branco puros não existem, tal como a verdade absoluta também não existe e a mentira parte de distorção da verdade. O preto e o branco são efeitos e graus de saturação de luz.

Há viver da mentira e há quem se minta para fingir que vive. Há quem lide bem com esse vazio de ser e não precise de mais do que isso.

Bjos!

PS - Quanto ao novo, apesar da declaração de intenções e boa vontade, o calendário não altera ninguém, a vida acontece quando tem de acontecer.

Jaime disse...

Se é verdade que a verdade não existe, existe pelo menos a verdade de que a verdade não existe. Isto não é absoluto? Talvez só cada um de nós o possa ser na singularidade... Quanto à vida (como alguém disse), é o que nos acontece enquanto vamos fazendo outrs planos. 2007 já rola...

Anónimo disse...

Lá está... disseste tudo... mas há quem viva bem com a mentira apesar de tudo. Há quem lide com ela duma forma tão rotineira que passa a fazer parte da sua verdade e somos nós, os que achamos que essa verdade não passa de uma mentira, que nos sentimos impotentes por não sermos reflectoras dessa mentira que em nós não se espelha numa verdade!

Beijos e admiração profunda por quem se exprime tão profundamente assim...

Always disse...

Jaime,

Bem-vindo por aqui! :)

Eu não disse que a verdade não existe. Quero accreditar que sim, esforço-me por ser verdadeira comigo e com os outros. O que eu digo é que não existem verdades absolutas e inequívocas, de valor único. E quando escrevi que 'não existem verdades absolutas' estava perfeitamente consciente da contradição que a afirmação encerra em si mesma. Mas não conheço outra forma de o dizer, a linguagem tem estas ratoeiras.

E olhe concordo com essa frase que escreveu e que eu utilizo também "A vida acontece quando estamos ocupados a fazer outros planos." Sem dúvida.
Um Bom ano para si. :)

Always disse...

Blue,

Escrevi o que tu e eu sentimos da mesma forma. Foi logo depois do teu email e a pensar no que disseste.

Há quem viva numa mentira a vida inteira sem grande inquietação e assim fazem sentido para eles mesmos. É uma escolha que se faz. Existem alternativas, aliás, tu sabes bem melhor do que eu sobre essa matéria. Lamento profundamente ouvir a desculpa egoísta: 'Não tenho outra escolha' quando deviam dizer antes 'Lamento, mas não te amo o suficiente para mudar' ou 'Não tenho coragem para te amar'.

Um beijo para ti.

Jaime disse...

Obrigado pela descoberta, obrigado pelo agradecimento, obrigado pelas palavras do José Luis Peixoto - carago, senti-me despido, nunca pensei que fosse tão transparente à distância. Beijos.

Always disse...

Eu é que agradeço a sensibilidade da coleção de palavras que escolheste como pérolas. Nesses fragmentos descobre-se muito àcerca da essência que te define. :)

Beijos.

ic disse...

Existem inúmeras maneiras de falar sobre a mentira. Acho que esta, a existir, depende principalmente, e apenas, do ponto a que me quero dar a conhecer aos outros com quem vivo. Será isto mentira? ou falta de vontade em me fundir, com a pessoa a quem me dou? Vocês baralharam-me :)

Always disse...

IC,

Existem milhares de maneiras de reflectir sobre as coisas. A tua questão reflecte um ponto de vista que não é o que exponho no texto.

A mentira de que falo é de outra essência. É a mentira em que existimos em nós mesmos, aquilo que não assumes para ti própria, o que finges ser porque te dá menos trabalho e porque não te põe em causa ainda que não te sintas completamente.

Quantos às questões que colocas não posso responder. Desde que não te mintas a ti mesma, define a maneira de estar em que te sintas mais confortável e feliz. É esse estar honesto em si mesmo que é fundamental e não o que as pessoas sabem ou não da tua vida.

Anónimo disse...

Diria apenas 5 palavras:
Cada um vive como pode.

Mas, atrevo-me também a acrescentar, que infelizmente (e digo infelizmente porque experimentamos muitos dissabores à custa disto) Mentira e Verdade são sempre incontornavelmente subjectivos.

Vejamos:
O que para mim é "verdade" para ti pode ser "mentira" (ou vice-versa).
Então..quando estas discrepâncias acontecem e existe também uma ausência na partilha da definição do mesmo conceito entre duas pessoas, digo-te:
Se para Ti é Mentira a minha Verdade, aquela que Eu te conto, tens felizmente, uma solução: a tua "Liberdade de escolha".
Então, ou aceitas e escolhes viver a MINHA Mentira ou Verdade (conforme o entenderes), porque te dá jeito, ou porque concordas ou porque simplesmente nem sequer te questionas;
ou então és "maior", rejeitas e escolhes viver a TUA Verdade ou Mentira e afastas as ilusões e idealizações que tinhas de Mim. E é isso que dói, magoa e destroça um GRANDE bocado na interminável discussão filosófica da "Verdade e da Mentira".

Conclusão:
1. Cada um é livre de viver o que quiser, o importante é não "interferir" na vida dos outros.
1.1. Quem quiser viver Mentiras e achar que assim é feliz: óptimo.
1.2. Quem quiser viver Verdades e achar que assim é feliz: óptimo.
1.3. Quem tenta impingir Verdades Absolutas ou Mentiras aos outros: péssimo, aconselho psiquiatra e afastamento por tempo indeterminado dessa pessoa!

(E para quem ia dizer apenas 5 palavras...saiu-me um verdadeiro Sermão de Santo António aos Peixes!!!)

ic disse...

lolll e viva a mentira desde, que não seja no meu quintal. Estou a brincar. A vida é complexa mesmo. Bem vamos tentar, pensar que, cada um vive a vida da melhor forma que pode, e a sua mentira seja um proceso de ser feliz à sua maneira desde que não, afecte a vida dos que lhe são próximos. Pois, essa mentira, será apenas uma ponte para a verdade.

wind disse...

Post para reflectir porque tudo é relativo e subjectivo.
bjs

Always disse...

Guinhas,

Ora vejamos em 5 pontos o que te posso responder:

- Não escrevi sobre diferenças de pontos de vista sobre o que cada um entende como 'mentira' e como 'verdade';

- Não escrevi sobre como sobrepôr a minha verdade à verdade dos outros ou a minha mentira à mentira dos outros;

- Não escrevi sobre a imposição de uma verdade absoluta, inequívoca e única para toda a gente;

- Não escrevi sobre a rejeição da 'tua' verdade a favor da minha;

- Escrevi sim àcerca do mentir a nós mesmos e do viver essa mentira conscientemente.

Quanto ao resto cada um sabe de si, do que quer e do que precisa para ser feliz.

Always disse...

IC,

Acho que fui clara no post anterior. Todos os pontos de vista são válidos, o único ponto em que não cedo é mentir-me a mim própria.

Always disse...

Wind,

O texto exprime também a subjectividade inerente às coisas, já que não existem verdades absolutas. Continuo a achar que devemos insistir em encontrar e ser fiéis à nossa verdade interior.

ic disse...

Se soubesse que a insónia me ia bater à porta tinha continuado aqui. Sim always, foste clara no que disseste.
Brinquei, apenas porque percebi, e tinha acabado de ler a "guinhas", que se tinha gerado alguma confusão de interpretação. Se calhar mea culpa.
Acho, que te percebi plenamente e dai dizer que por vezes, essa "mentira" eram pontes ou bengalas criadas para mais tarde poder-se incorporar verdades mais difíceis de viver. Claro que, acho, cruel para os próprios essa opção, mas não terei eu já passado por lá? Talvez faça parte do crescimento humano.

Sorry

Always disse...

Deixo-te duas citações interessantes que reflectem perpectivas diferentes das consequências da mentira:

"Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder
voltar a acreditar-te."
NIETZSCHE

"Quem conta uma mentira raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte." - SWIFT

Anónimo disse...

Always,

Acho que fui mal interpretada nas minhas subjectivas palavras.
Não leves como um ataque pessoal.
Na realidade cada um tira as conclusões e as elações que "quer e pode".
E não deixas de ser compreendida naquilo que dizes mesmo quando aquilo que os outros comentam se parece distanciar daquilo que tu escrevestes.

De qualquer forma o meu pedido de desculpas caso tenha ferido qualquer subjectividade. Mas no fundo eu recorro sempre ao pragmatismos para questões como estas.

Anónimo disse...

E não deixas de ser compreendida naquilo que dizes mesmo quando aquilo que os outros comentam se parece distanciar daquilo que tu ESCREVESTE (sem "s"...lapso).

Always disse...

Guinhas,

Não entendi como um ataque pessoal, está descansada. Achei, contudo, os teus comentários deslocados em relação à essência do texto. Foi isso que tentei esclarecer melhor, caso houvessem dúvidas.

Não desvalorizo o que escreveste, até porque o que dizes está correcto na perspectiva em que apresentas e que eu sobrescrevo também. Mas o texto que escrevi fala uma outra dimensão diferente da do teu comentário. Quis e quero salvaguardar isso... ou seja, a minha subjectividade na abordagem que faço 'àcerca do mentir'.

Anónimo disse...

...como escrevi:
"sou frágil, mas por vezes sou poderosa
Tenho medo, mas por vezes nada me detém
Não sou mentirosa, mas por vezes minto também"

Beijos da aprendiz de ti...always!

Que o ano 2007 seja muito muito melhor!

Always disse...

Escreveste muito bem. Toda a gente mente, até mesmo quando alguém nos pergunta 'Esta tudo bem?' e respondemos 'Sim, está tudo bem'... Às vezes não está.

Há muitos tipos de mentira. A que mais me preocupa é a mentira interior - aquela virada para nós mesmos.

Um beijo!

PS - Até sexta-feira no «Incógnito», let's go dancing...

ic disse...

"Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder
voltar a acreditar-te." NIETZSCHE
Acho que resumes aqui, nesta citação, tudo o que penso também sobre a mentira.
:)
De qualquer maneira, esta pequena, grande troca de ideias, opiniões, foi com garnde qualidade de todos os presentes.
Isto sabe bem.

Always disse...

Nitzsche resume a gande verdade da mentira: magoa muito não poder voltar a acreditar.

E tens razão, todas as discussões adultas são benéficas e edificantes. E ainda há muito para dizer sobre o tema... :)